8 de novembro de 2017
publicado às 12h39
Maioria de venezuelanos em Roraima é jovem, possui boa escolaridade e está trabalhando

Maioria de venezuelanos em Roraima é jovem, possui boa escolaridade e está trabalhandoA maioria dos venezuelanos não indígenas vivendo em Roraima é jovem, possui boa escolaridade, tem atividade remunerada e paga aluguel. Entre os que trabalham, 51% recebem menos de um salário mínimo e 28% estão formalmente empregados. Muitos enviam ajuda financeira aos familiares que estão na Venezuela, e apontam a crise econômica e política como principal motivo para se deslocar. Já os venezuelanos indígenas que vivem em Roraima indicam a fome como motivo de seu deslocamento, sendo que as mulheres são a principal fonte de renda neste grupo.

Estes são alguns dos resultados revelados pelo perfil sociodemográfico e laboral dos venezuelanos que vivem em Roraima, em pesquisa promovida pelo Conselho Nacional de Imigração (CNIg), vinculado ao Ministério do Trabalho. A pesquisa foi realizada pela Cátedra Sérgio Vieira de Mello na Universidade Federal de Roraima (UFRR), por meio do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Clique aqui para ler o sumário executivo da pesquisa.

“Esse é um trabalho muito importante para conhecermos os principais dados desta população e subsidiar as políticas migratórias, de acordo com as necessidades da imigração venezuelana no Brasil”, disse o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira. “A pesquisa nos dá maior clareza sobre este processo de deslocamento forçado, com informações valiosas sobre as estratégicas de chegada e permanência dos venezuelanos no Brasil”, comentou o oficial da Unidade de Meios de Vida do ACNUR, Paulo Sérgio de Almeida.

A metodologia da pesquisa foi preparada pelo OBMigra. Na primeira parte do estudo, foram aplicadas 650 entrevistas entre não indígenas, com 18 anos ou mais, em 33 bairros do município de Boa Vista. Na segunda parte, foi realizado um estudo etnográfico, nas cidades de Boa Vista e Pacaraima, com famílias e líderes dos Warao — etnia indígena oriunda, principalmente, da região do delta do Orinoco, na Venezuela.

O levantamento mostra que 72% dos venezuelanos não indígenas são jovens entre 20 e 39 anos, a maioria do sexo masculino (63%) e solteiros (54%). Praticamente um em cada três (32%) tem curso superior completo ou pós-graduação, enquanto três em cada quatro (78%) chegaram ao país com nível médio completo. Entre os não indígenas, 82% já apresentaram pedido de refúgio. Nesse caso, cerca de 1/3 deles tem o protocolo de refúgio, 23% possuem carteira de trabalho, 29% têm CPF e 4% não possuem nenhum documento.

Para o presidente do CNIg, Hugo Gallo, os venezuelanos não indígenas têm forte potencial de inserção na sociedade e no mercado de trabalho brasileiro devido às características etárias e educacionais. A pesquisa revelou que a maioria deles já trabalha em alguma atividade remunerada (60%), com 28% formalmente empregados. Os principais ramos de atividade são o comércio (37%), serviço de alimentação (21%) e construção civil (13%). Mais da metade dos entrevistados (54,2%) envia dinheiro (de 100 a 500 reais) para cônjuge e filhos na Venezuela, ajudando no sustento desses familiares.

O principal motivo para deixar a Venezuela foi a crise econômica (77%) e a maioria dos entrevistados (67%) entrou no Brasil em 2017. Eles vêm de 24 regiões venezuelanas, mas principalmente dos estados de Bolívar (26%) e Monagas (16%) e de Caracas (15%). Mais da metade (58%) deles teve apoio de redes migratórias, como amigos e familiares que já residem no Brasil. A pesquisa revela que, em geral os venezuelanos não indígenas em Roraima têm pouco conhecimento do português e muitos não estudam o idioma.

Pouco mais da metade dos venezuelanos não indígenas já acessa serviços públicos em Roraima, principalmente na área da saúde (39%), mas quase a metade do total (48,4%) ainda não utilizou nenhum serviço público.

Apesar de se tratar de um mesmo fluxo migratório, o estudo revela que as políticas públicas para indígenas e não indígenas devem ser distintas, considerando as suas diferenças culturais, de necessidades e de perspectivas. “Há uma maior necessidade de aprimorar as políticas migratórias para este segmento da população, com a ampliação e melhoria na qualidade do atendimento nas áreas de saúde, educação e assistência social, passando pela devida capacitação dos agentes públicos locais. Além disso, há a necessidade de fortalecer as atividades da sociedade civil já em andamento”, diz o presidente do CNIg, Hugo Gallo.

Migrantes Warao

A pesquisa fez uma discussão qualitativa com os venezuelanos indígenas da etina Warao, revelando que a presença deles em Roraima começou em 2014. A escolha pelo Brasil intensificou-se a partir de 2016. Em Boa Vista, os Warao estão acolhidos no Centro de Referência ao Imigrante (CRI). Criado em novembro de 2016, o CRI abriga atualmente aproximadamente 500 Warao. A pesquisa registra a circulação e residência dos Warao em Pacaraima, Boa Vista, Manaus e, mais recentemente, em Belém.

No caso dos indígenas, a pesquisa qualitativa apontou que os principais motivos para se deslocar são a fome e a ausência de serviços públicos relacionados à educação e saúde. A maioria declarou ter deixado parte da família na Venezuela, cuidando dos bens materiais, para migrar acompanhados de outra parte da família, a fim de enviar recursos. Eles disseram que querem trazer seus familiares para o Brasil.

Os Warao têm acesso aos serviços de educação e saúde, quando chegam ao CRI. Casos mais graves relacionados à saúde são encaminhados para o hospital infantil, Hospital Geral de Roraima ou Casa do Índio. Por outro lado, em Pacaraima e Boa Vista, os Warao em situação de rua ainda não têm assistência – o mesmo acontece com os Panare, em Boa Vista.

A maioria dos indígenas do sexo masculino não exerce atividades econômicas em Boa Vista. Já as mulheres continuam realizando o trabalho que faziam antes de migrar, como pedir doações em vias públicas, produzir artesanatos e costuras. Em Pacaraima, os homens Warao conseguem trabalho no descarregamento de carretas ou em fazendas e sítios na região – neste caso, com a companhia das mulheres.

Perspectivas futuras

Entre os não indígenas, apenas 25% afirmaram que pretendem voltar à Venezuela. A maioria, por outro lado, disse que não pretende retornar (47%) ou não sabe (27%). Entre os que pretendem voltar, a maioria estima um prazo superior a dois anos (47%), mas só se houver melhoria das condições econômicas (61%) do país vizinho.

Segundo a pesquisa, a maioria dos venezuelanos não indígenas aceitaria mudar para outro estado brasileiro, se tivesse apoio do governo federal (77%). Mas o deslocamento no Brasil dependeria de oferta de trabalho (80%), ajuda econômica (11,2%) ou auxílio com moradia (5,2%). A proximidade da fronteira (38%) e o sentimento de integração em Boa Vista (37%) são os principais motivos para que estes venezuelanos permaneçam em Roraima.

Já os Warao pensam em retornar para a Venezuela quando a crise diminuir, mas também há os que querem trazer familiares para o Brasil. De um modo geral, o desejo é de continuar em Roraima, de preferência na cidade e com condições econômicas para sua auto sustentabilidade.

Para o oficial da Unidade de Meios de Vida do ACNUR, Paulo Sérgio de Almeida, “migrantes e refugiados dão uma enorme contribuição às comunidades de acolhida, com novas ideias, espírito de empreendedorismo e diversidade cultural”. Para ele, as demandas apresentadas por esta população representam oportunidades para os brasileiros.

Almeida lembrou que o governo brasileiro vem criando vias migratórias alternativas para os venezuelanos, e que o ACNUR segue prestando apoio técnico ao Poder Público federal, estadual e municipal, além de complementar a resposta governamental com a doação de itens não alimentares essenciais para os abrigados e obras de infraestrutura para melhorar o acolhimento, o registro e a documentação desta população.

 

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