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8 de novembro de 2017
publicado às 15h18
Na fronteira do Cerrado com a Amazônia, a realidade dos impactos da soja

Soybeans (Glycine soja); Paraná, Brazil

Para conhecer a realidade é preciso vê-la de perto, longe da frieza dos números, do conforto dos escritórios, além da velocidade exponencial das timelines das redes sociais. Para conhecer a realidade é preciso sentir a temperatura, ver as variações da paisagem, conversar olho no olho com os moradores locais. Para saber como a produção de soja e outras commodities afeta realmente a vida das pessoas, a dinâmica das cidades, a preservação dos biomas, é preciso ver ao vivo e sentir a realidade na pele.

E é justamente esse o objetivo das viagens de campo do projeto CFA (Colaboração Floresta e Agricultura) que, na última semana de outubro, levou seis representantes de empresas, bancos e organizações do terceiro setor para visitar cidades no norte do Tocantins e sul do Maranhão, na fronteira agrícola do Matopiba, um dos principais centros de produção de soja e de conflitos fundiários do Brasil atual, onde o Cerrado começa a se confundir com a Amazônia.

Lá, os representantes da BRF, Rabobank, Caixa Econômica Federal, Field to Market e The Forest Trust puderam conversar com grandes e médios produtores de abordagens diferentes sobre a sua atuação e entender melhor como os conflitos gerados pela expansão do plantio da soja atinge diretamente agricultores de comunidades tradicionais que estão há gerações na região.

Para Lucas Paschoal, supervisor de commodities da BRF, conhecer a situação dos agricultores familiares foi um choque de realidade muito grande. Segundo ele, acompanhar de longe pela cobertura da mídia, que costuma defender a expansão da soja exclusivamente como ponto positivo, ignorando as pessoas que vivem lá e dependem dos seus pedaços de terra e ver isso in loco fez toda diferença. “É importante trazer o setor privado para esse tipo de experiência para que as grandes empresas possam voltar o olhar para essa situação, enxergando a relação entre a produção de grãos e as comunidades que vivem lá, buscando um ponto de equilíbrio”, afirma Paschoal.

A situação de Raimunda Pereira dos Santos, agricultora de uma comunidade tradicional que vive há décadas em Barra do Ouro (TO) é símbolo de resistência para toda a região: sua casa e sua plantação foram destruídas, seus animais sequestrados e Raimunda foi diversas vezes ameaçada de morte por se negar a vender sua terra para o produtor que acabou por cercar mais de 17 mil hectares entre lotes comprados e área grilada, produzindo soja no meio de uma disputa desigual que já se arrasta desde 1994.  “Eu não vendo porque aqui é a minha terra, onde minha família vive desde os anos 50. O que nós queremos apenas é paz para ter nossa plantação e seguir a nossa vida”, diz Raimunda, que criou 12 filhos na comunidade e hoje mora em uma casa de terra batida e teto de palha, ao lado da casa original que foi derrubada pelo grileiro que saiu de Santa Catarina para o Tocantins.

É este tipo de situação que atingiu em cheio Rodney Snyder, diretor executivo da Field to Market, associação americana com dezenas de membros que trabalha por uma cadeia sustentável de commodities. “Aprendi muito nesta viagens. Ver os desafios que o Cerrado enfrenta, tanto social quanto ambiental, foi fundamental. É responsabilidade de todo o mercado buscar soluções para resolver este problema”, diz.

Cerrado em xeque, mercado em alerta
Nesta cadeia, os financiadores ocupam papel central. Para Bianca Larussa, analista de responsabilidade socioambiental do Rabobank, banco holandês que trabalha diretamente com crédito agrícola, foi chocante ver pessoas que vivem sem saneamento básico, energia elétrica e água potável, já que todo o seu ecossistema ao redor foi destruído ou contaminado. “Eu mudei muito minha concepção sobre um grande produtor e um pequeno. E ir em um assentamento, algo que nunca tinha feito, com certeza foi uma coisa que mexeu comigo emocionalmente e eu vou levar para o pessoal do banco, que precisam saber dessa realidade”, diz Larussa.

O engenheiro agrônomo da Caixa Econômica Federal, Rafael Brugger, faz coro. “Nós ficamos muito distantes da realidade do campo, o que é grave já que nas cidades é que as decisões são tomadas. Fazer essa imersão nos problemas das pessoas que vivem aqui realmente faz pensar diferente. Talvez eu nunca tivesse essa oportunidade de ver problemas sociais tão intensos e comuns, até banalizados pela sociedade. A oportunidade foi excelente para poder conscientizar os tomadores de decisão”, afirma Brugger.

É isto o que espera Pedro Ribeiro, agente da Comissão Pastoral da Terra em Araguaína (TO), entidade que há décadas luta pela população do campo e tenta mediar conflitos. “Espero que essas pessoas, conhecendo a realidade, possam se sensibilizar e cobrar dos responsáveis maneiras de evitar ou amenizar o dano que é causado”, diz Ribeiro. A analista de sustentabilidade da BRF, Gabriele Cândido, reconhece: sair de São Paulo fez toda a diferença. “Estar aqui abriu muito minha cabeça para buscar formas de melhorar nosso trabalho. Saio renovada e com mais vontade de contribuir para evitar o desmatamento no Cerrado”, afirma.

Em Carolina (MA), os participantes do reality tour puderam conhecer o santuário ecológico de Pedra Caída, especialmente a cachoeira Santuário, uma queda de 47 metros cercada por rochas milenares do Cerrado maranhense, que mostra o que está em risco com o acelerado desmatamento do bioma, que está perdendo sua vegetação nativa cerca de cinco vezes mais rápido que a Amazônia. Para Rachel Backer, da ONG The Forest Truth, a hora é agora para que ações sejam tomadas. “O governo, as empresas e as ONG’s precisam tomar atitudes decisivas para que esta belíssima parte da América do Sul não seja completamente destruída pela soja e pecuária. Precisamos encontrar caminhos para equilibrar a produção econômica com as necessidades das pessoas que vivem aqui”, acredita Backer.

No último dia 25 de outubro, empresas líderes no mercado internacional lançaram uma carta reconhecendo a importância do Cerrado por seu papel na mitigação da mudança climática e apoiaram o Manifesto do Cerrado, documento em que organizações ambientalistas pedem que as empresas que compram soja e carne do Cerrado defendam o bioma. Entre 2013 e 2015 o Brasil destruiu 18.962 km² de Cerrado, uma perda equivalente à área da cidade de São Paulo a cada dois meses. Esse ritmo de destruição coloca o Cerrado entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. (Por Maurício Angelo do IPAM – WWF-Brasil).

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