2 de janeiro de 2018
publicado às 12h40
Por que o mundo ainda explora os animais?

Por que o mundo ainda explora os animais?Para praticar o veganismo é preciso olhar para sua própria sombra

O veganismo cresce no mundo a cada ano, isso é um fato. Mas se o veganismo envolve questões tão importantes, por que o mundo ainda não é vegano?

Torna-se vegano mexe com bases estruturais muito profundas. Como comentei no artigo que escrevi sobre veganismo para leigos, nossa cultura é toda programada e fundamentada na exploração de outras espécies, e isso está assimilado e acomodado em nós.

O fato de sermos levados a crer que esse sistema é normal e aceitável, conflita com os fatos que tomamos conhecimento quando buscamos nos aprofundar no conceito e na prática do veganismo. Por exemplo, quando vemos algum vídeo envolvendo tortura ou assassinato de animais, sabemos no íntimo de nossas almas que aquilo não é certo, mas sustentamos nossos hábitos, pois acreditamos que tudo aquilo é inevitável e também achamos que, para que possamos viver, aqueles horrores devem acontecer.

OS INTERESSES POR TRÁS DE UM MUNDO NÃO-VEGANO

Primeiramente precisamos considerar que, em uma sociedade estruturada na exploração de humanos e animais, a validação coletiva e cultural dessa estrutura torna-se o norteador de um sistema de valores morais. Quando compreendemos isso, fica fácil entender porque em um mundo fundamentado nessa mentalidade, a grande maioria de seus habitantes não entre em contato com outras formas de existir que não essa.

Sabemos que o dinheiro e o poder são fortes motivadores para as mais perversas realidades, tais como a fome, as doenças, as guerras e, certamente, a exploração animal – na medida em que são fontes de lucro e riqueza para grandes indústrias.

Enquanto essa mentalidade gerar lucro, ela será perpetuada e estimulada por quem lucra com ela.

Como socialmente essa mentalidade já está consolidada, compactuar com ela também envolve a própria aceitação social. Como seres gregários, desejamos pertencer, desejamos fazer parte, mesmo que intimamente saibamos que aquilo com o que compactuamos é injusto. O fato de a maioria fazer algo, como consumir produtos de origem animal, por exemplo, nos leva a crer que isso é normal e necessário. E essa visão é fortalecida pela propaganda e por algumas narrativas que fazem parte de nossas vidas, desde que somos muito pequenos, que acabam gerando uma desconexão com nossas percepções mais íntimas acerca da questão.

MENTE CRIA DEFESAS DIANTE DE MUDANÇAS, AFETANDO NOSSAS ESCOLHAS

Do ponto de vista psicológico, naturalmente criamos defesas quando há uma possibilidade eminente de desestruturação. Qualquer mudança na vida de um indivíduo, por menor que seja, é desestruturante. Mesmo quando a situação é horrível, tendemos a permanecer nela se for familiar para nós. É melhor o ruim estruturado do que enfrentar o medo do novo, que inclusive pode ser melhor.

Essa tendência humana de estabilizar, constituir segurança e permanecer é simultaneamente necessária e impeditiva. Ela é necessária por que a sensação de continuidade e familiaridade, ainda que de certo modo ilusória, nos traz tranquilidade para realizarmos outros aspectos de nossas vidas. Mas também é impeditiva, pois justamente por ser de certo modo ilusória, insere em nós um medo quase irracional de mudanças para as quais a vida constantemente nos impulsiona, queiramos ou não.

JÁ PENSOU QUE A MUDANÇA PODE LEVAR VOCÊ PARA UM ESTÁGIO MELHOR NA VIDA?

É exatamente a partir dessas desestruturações que tanto tememos, que podemos ir para outros estágios da vida. Sem a desestruturação natural e inerente a qualquer mudança, não amadureceríamos, não atuaríamos no mundo, seríamos inertes, estagnados. Então, é possível concluir que a desestrutura natural das mudanças também gera reestruturação. Quando o novo se torna familiar, nos sentimos confortáveis novamente, nos sentimos em terra firme e seguimos adiante até a próxima mudança.

QUE TAL UM POUCO MAIS DE OUSADIA?

Algumas pessoas têm mais dificuldade e outras menos. Algumas pessoas, pela própria personalidade, são mais ousadas, se arriscam mais, são mais inquietas. Para essas, mudar é fundamental. Já outras sofrem mais nesses processos, são mais apegadas, preferem preservar o conhecido, não se arriscam e se tornam mais dependentes de garantias, tornando a mudança algo mais difícil e indesejado. De qualquer modo, todas as pessoas – cedo ou tarde – passam por experiências desestruturantes e precisam se readaptar e reajustar a uma nova realidade que se apresenta.

No caso do veganismo, essa disposição à desestruturação de valores assentados é feita de maneira voluntária. A pessoa se permite sentir um profundo incômodo com aquilo que descobre e, a partir desse incômodo, permite-se mudar.

É importante saber que quando qualquer experiência de mudança ocorre, ela gerará conflito até que nos familiarizemos com ela. O processo de desestruturação e reestruturação é uma constante e o experienciaremos por toda a vida.

VEGANISMO MOSTRA QUE A EXPLORAÇÃO DOS ANIMAIS NÃO É NECESSÁRIA

Além da dificuldade da mudança de mentalidade em relação aos outros seres e à própria mudança de hábitos, perceber-se alguém que compactua com esse sistema tão perverso de exploração animal faz com que precisemos confrontar essa dimensão em nós mesmos. Precisamos olhar para o mal em nós, para nossa sombra, e isso certamente dói. Traz muitas vezes um sentimento terrível de culpa, raiva, uma sensação de ter sido enganado e usurpado, já que compactuar com algo perverso é, para a grande maioria das pessoas, algo impensável conscientemente. Estamos falando de escolhas inconscientes que fazemos pautadas em nossa necessidade de aceitação social, em nossos medos e inseguranças, que são formatadas pela cultura vigente e não por uma análise mais íntima de quem realmente somos e do que realmente desejamos.

O veganismo vem não só questionar essa crença, esse sistema fundamentado na exploração animal, como também demonstra de forma prática que ele não é necessário.

O que precisamos é dispor de certa coragem para encarar a desestruturação inerente a essa mudança de hábitos e de mentalidade, até que nos familiarizemos com ela. Dessa maneira, podemos tomar uma decisão pautada em análises mais conscientes e conectadas com a nossa própria tendência, enquanto indivíduos psicologicamente saudáveis, a rejeitar a violência, a escravidão, as injustiças, a tortura e o assassinato que já não são mais aceitos entre humanos e que agora podemos estender às outras espécies sencientes como nós.

MEDO DE PERDER O PRAZER DO PALADAR NOS TORNA INDIFERENTES À VIDA

O mundo ainda não é vegano, pois para isso precisamos nos permitir o incômodo e o desconforto do confronto com nossa sombra e dos conflitos internos que deflagram quando observamos nossa relação injusta e desrespeitosa para com outras espécies.

Também, porque precisamos fazer um exame íntimo de nossas crenças ultrapassadas e de nossos hábitos cotidianos, para permitir que a mudança de mentalidade possa ser posta em prática.

O mundo não é vegano, pois nossos hábitos tão assentados nos fazem temer mudá-los, pois o suposto prazer de nosso paladar se sobrepõe à nossa crítica, nos tornando indiferentes à vida, em prol de um fator absolutamente superficial. Temos medo do preconceito da sociedade quando não seguimos as designações de seu sistema, temos medo de não nos nutrirmos adequadamente, pois ouvimos a vida toda que não podemos viver sem ingerir partes de outros animais.

Afinal, acreditamos que o propósito de suas existências se resume unicamente a nos servir, nutrimos a ideia equivocada que somos superiores quando, em verdade, somos todos igualmente interessados na manutenção de nossas vidas, em nossa integridade física e psicológica, em nossa liberdade, na realização de nossas naturezas ao nosso modo. Nossa apresentação no mundo pode ser diferente, mas a preciosidade de nossas vidas é igual.

O mundo não é vegano, pois para isso é preciso buscar soluções criativas para o conflito interno que permitimos erupcionar e para os conflitos externos que desejamos sanar. O mundo não é vegano, pois temos imensa dificuldade de nos emanciparmos e de sermos autônomos nas decisões que tomamos, pois é preciso nos conectarmos coerentemente àquilo em que intimamente acreditamos para isso.

Ser vegano não é difícil, os desafios podem ser facilmente superados e a familiaridade com essa realidade é o que nos garante que podemos no reestruturar e estar no mundo de forma mais justa e respeitosa para com todos, incluindo as outras espécies sencientes.

Thaís Khoury – É psicóloga clínica e utiliza a interpretação dos sonhos, a calatonia e a expressão criativa em seus atendimentos. Também é vegana e fundadora do Veganíssimo, empresa que produz alimentos 100% vegetais

 

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