2 de julho de 2018
publicado às 20h52
Desmatamento no Cerrado aumentou 9% em 2017

Desmatamento no Cerrado aumentou 9 em 2017

A divulgação dos resultados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Prodes Cerrado com os dados do desmatamento no bioma marca uma nova etapa há muito esperada e necessária: o monitoramento e divulgação anual da perda de vegetação no Cerrado assim como ocorre com a Amazônia.

Esse avanço possibilitará à sociedade civil o acompanhamento e análise dos dados para exercer seu papel de monitorar e estimular avanços nas políticas públicas de combate ao desmatamento e de redução nas emissões de gases de efeito estufa no Brasil.

Os resultados divulgados pelos ministérios do Meio Ambiente (MMA) e da Ciência Tecnologia, Informação e Comunicações (MCTIC) no dia 21 de junho, indicando a redução do desmatamento, no entanto, ainda não são animadores.

O Prodes Cerrado registrou perda de área nativa de 6.777 km2, em 2016, e de 7.408 km2, em 2017, o que representa redução de 43% e 38% em relação a 2015, ano em que foram apresentadas estimativas para a perda florestal no bioma.

A perda de 7.408km2 em 2017 mostra um aumento absoluto de 9% em relação à 2016 que pode indicar uma tendência de aceleração já neste ano de 2018. “O tamanho da área desmatada anualmente no Cerrado ainda é inaceitável, uma vez que coloca em risco um dos nossos mais valiosos biomas”, destaca Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil.

“O governo tem um papel importante no controle do desmatamento no Cerrado, fortalecendo a governança, evitando práticas ilegais e protegendo por meio de Unidades de Conservação as áreas mais sensíveis para a biodiversidade e a produção de água”, completa Voivodic.

Os resultados do Prodes Cerrado reiteram que a região do MATOPIBA (porções de Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) continua sendo a campeã em desmatamento. Essa área é considerada a última fronteira agrícola e tem perdido grande parte de sua vegetação para a produção de soja e pecuária, principalmente.  Isso porque mais da metade do bioma já foi dizimada e esta é uma das poucas regiões que ainda concentra Cerrado preservado.

Os setores produtivos de soja e pecuária  não têm mecanismos efetivos para evitar produtos vindos de área desmatada. “Na ausência desses mecanismos no setor privado, há grande risco de o desmatamento no Cerrado voltar a crescer. O aumento entre 2016 e 2017 pode ser um sinal da retomada da expansão da soja sobre vegetação natural”, avalia Mauricio Voivodic.

Nos últimos dez anos, o Cerrado teve as maiores taxas de desmatamento do Brasil e não tinha o monitoramento periódico do desmatamento. Em 2015 o MMA apresentou estimativas de perda do bioma. Agora, com os dados lançados pelo Prodes Cerrado, é possível mensurar a taxa de perda de vegetação anual e entender a dinâmica do desmatamento, o que se espera que ajudará na sua fiscalização.

Segundo estudo divulgado na revista Nature Ecology & Evolution (Strassburg, B. et al, 2017), se nada for feito para conter o ritmo de degradação, o bioma pode sofrer o maior processo de extinção de espécies de plantas já registrado na história, com três vezes mais perdas de flora do que houve desde 1500.

“Essa região, que originalmente ocupava 1/4 do território brasileiro, é considerada uma das mais ricas em biodiversidade no planeta. Toda essa riqueza vem sendo severamente negligenciada no último meio século. Essa visão míope sobre o valor do Cerrado compromete não só a biodiversidade, mas também 70% das águas que geram energia. Temos que agir enquanto há tempo. Encarar o Cerrado como um bioma que pode ser entregue à produção de maneira desordenada não é uma escolha aceitável”, afirma Júlio César Sampaio, coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF-Brasil.

Segundo o coordenador do Programa Agricultura e Alimentos do WWF-Brasil, Edegar de Oliveira Rosa, temos uma oportunidade única, neste momento, de salvar o restante do Cerrado sem impactar a perspectiva futura de crescimento da produção agropecuária. “Se promovermos uma intensificação da pecuária, liberaríamos áreas para a expansão agrícola prevista para o futuro, sem necessidade de desmatar nenhum hectare a mais de vegetação natural. Uma situação de ‘ganha-ganha’ para o produtor rural e para a conservação do bioma. Hoje temos mais de 30% das áreas de pastagem do bioma produzindo muito abaixo do seu potencial produtivo. Isto é um desperdício de um recurso natural tão importante”, completa Edegar Rosa.

Apesar do risco de extinção do bioma, o Cerrado ainda é pouco protegido pelo Código Florestal (apenas 20% da área privada é protegida) e a prorrogação, pela quarta vez, do prazo para registro das propriedades rurais no Cadastro Ambiental Rural (CAR) favorece o agronegócio no sentido de não cumprir com a lei de proteção de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais.

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