26 de julho de 2018
publicado às 21h22
Transição agroecológica é alternativa contra modelo baseado em agrotóxicos

Transicao agroecologica alternativa contra modelo baseado em agrotoxicosAudiência na Câmara discute importância da agricultura familiar e orgânica em contraponto à produção centrada no uso do veneno, que traz danos ao meio ambiente e à saúde

Por Bruno Taitson

“Não basta discutir a redução do uso de agrotóxicos. É preciso rediscutir o modelo de agricultura”. Essas foram algumas das palavras de Bárbara Borges, representante da Via Campesina, na audiência pública realizada nesta quarta (11/7), na Comissão Especial da Câmara que analisa o PL da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pnara).

Bárbara Borges criticou a retórica utilizada por defensores da ampliação do uso de agrotóxicos, de que não é possível produzir alimentos em larga escala sem a utilização de veneno. “É necessário fortalecer a agricultura camponesa e familiar e romper o mito de que não é possível alimentar a população com agroecologia. Não é verdade. O MST, por exemplo, é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina”, citou.

Ela lembrou que, no Plano Safra 2017-2018, os médios e grandes produtores obtiveram recursos mais de seis vezes superior ao destinado à agricultura familiar. Ela também questionou as isenções fiscais concedidas à indústria que produz agrotóxicos. “Aprova-se a PEC do teto dos gastos, de um lado, e de outro promove-se uma enorme perda de arrecadação em benefício de um setor que traz graves impactos à saúde e ao ambiente”, criticou.

O professor Walter Belik, da Universidade de Campinas (Unicamp), acenou que a lei que institui a Pnara (PL 6670/2016) tem o propósito positivo de alterar as relações econômicas por trás do atual modelo agrícola, caracterizado por uma das piores distribuições fundiárias do mundo e pelo uso intenso de adubos e defensivos químicos.

“Esse processo está chegando a um limite no Brasil e tem provocado mais distorções que benefícios. Há uma mudança nos hábitos de consumo, gerando obesidade e doenças. Alimento não é uma mercadoria, aspectos como nutrição, saúde e meio ambiente devem se sobrepor às oportunidades de negócios. Há um esgotamento do modelo atual”, avaliou Walter Belik.

O professor da Unicamp defendeu a adoção de políticas que promovam uma transição agroecológica. “Precisamos mostrar que é possível alimentar a população com o montante de terras e de capital que temos. Estima-se que 30% dos alimentos produzidos são desperdiçados, não é preciso pressionar mais o meio ambiente. Não podemos nos aprofundar no atual paradigma, que sempre pede mais organismos geneticamente modificados, mais pesticidas, mais clonagem animal”, concluiu Walter Belik.

Gerd Sparovek, professor da Universidade de São Paulo (USP), salientou que o país precisa qualificar a produção e o consumo de alimentos. Ele destacou que cerca de 85% da área agrícola do Brasil é voltada para pasto, soja e milho, caracterizando um modelo desequilibrado, voltado para a produção de commodities.

“Nunca produzimos tanto e tão barato, mas nunca desperdiçamos tanto. Nunca tivemos tanto medo do que a gente come. Nunca tivemos tanta dúvida se o alimento nos vai fazer mal. Como pode alimento significar doença? É inadmissível a possibilidade de termos, pela primeira vez, uma expectativa de vida inferior à da geração anterior”, afirmou o docente.

A professora Irene Cardoso, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), lembrou que é comum o argumento de que, sem agrotóxicos, não será possível alimentar a população mundial. Ela citou dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que mostram que a atual produção de alimentos ultrapassa a necessidade de 12 bilhões de pessoas, número bem superior à população mundial, estimada em 7,6 bilhões de habitantes.

“Superpopulação não é a questão, não nos ameacem com isso. A questão central e é a pobreza. Com o modelo da revolução verde, os benefícios da natureza foram substituídos por insumos. É preciso repensar a agricultura em bases agroecológicas”, observou Irene Cardoso.

Também participaram da audiência representantes da FAO, União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes), além dos deputados Alessandro Molon (PSB-RJ), Bohn Gass (PT-RS), João Daniel (PT-SE), Nilto Tatto (PT-SP), Padre João (PT-MG) e Patrus Ananias (PT-MG). O PL 6670/2016, que institui a Pnara, está tramitando em uma comissão especial da Câmara, que deve aprovar um relatório até o final deste ano. Estão previstas novas audiências públicas e seminários, não apenas em Brasília. Clique aquipara assistir à audiência na íntegra. (WWF Brasil)

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