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15 de agosto de 2018
publicado às 18h09
Nas margens do Rio Guaporé, primeiro vestibular é aplicado dentro de aldeia indígena

Nas margens do Rio Guapore primeiro vestibular aplicado aldeia indigenaNa aldeia Ricardo Franco, 14 índigenas com um sonho em comum, participaram do primeiro vestibular aplicado dentro de terras indígenas em Rondônia. Todos desejam ingressar na universidade. A prova foi aplicada nas margens do Rio Guaporé, próximo ao município de Guajará-Mirim (RO).

Para chegar na aldeia, a equipe que auxiliou no processo de aplicação das provas viajou por 10 horas, sendo seis horas na estrada e mais quatro pelo rio.

Os 14 indígenas, de nove aldeias diferentes, se inscreveram para o curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural, na Universidade Federal de Rondônia (Unir), no campus de Ji-Paraná (RO). O curso existe há 10 anos com a finalidade de formar educadores para atuarem nas escolas indígenas. O vestibular foi realizado no último sábado (11).

Uma das inscritas é Gleiciane Canoé, ela fez o vestibular em 2013, mas não foi aprovada. Por causa das dificuldades no deslocamento, precisou abandonar por cinco anos o sonho de tentar novamente uma vaga na universidade.

“Quando eu soube que ia ter vestibular aqui eu até me assustei, porque todos os vestibulares são na cidade. Quando falaram que ia ser aqui eu pensei, vou me inscrever o mais rápido possível porque eu não quero perder”, disse Gleiciane.

Gleiciane é professora na escola da aldeia, ela leciona para os alunos do 1º ao 4º ano do ensino fundamental. Segundo ela, a vontade de continuar estudando é justamente para melhorar seu desempenho como docente.

A aldeia Ricardo Franco foi formada por índios que migraram de Rio Branco (AC), durante a década de 1970, período em que indígenas da região foram escravizados em seringais. A primeira escola deu início as atividades em 1984.

Atualmente no local funciona o ensino fundamental do 1º ao 9º ano. Para cursar o ensino médio os alunos precisam se mudar para Guajará-Mirim ou Costa Marques, que são os municípios mais próximos. Devido a distância e custos financeiros, muitos jovens fazem apenas o ensino fundamental.

De acordo com Maísa Macurapi, que é diretora da escola de educação básica da aldeia, todos queriam que o vestibular fosse realizado lá por causa das dificuldades de deslocamento até a universidade.

“Gasta muito combustível e para se manter lá também é muito caro”, contou a diretora.

Processo seletivo

Segundo a colaboradora, Arlene Balieiro, que também acompanhou a equipe na aplicação das provas, as questões foram elaboradas pelo Departamento do curso de Licenciatura Intercultural. A prova continha 20 questões objetivas e uma dissertativa. Por causa do calendário diferenciado, os índigenas, neste caso, não fazem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

O vestibular acontece em seis municípios de Rondônia. 437 candidatos indígenas estão inscritos atualmente. Eles disputam uma das 50 vagas para o curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural.

A prova específica para os povos indígenas é realizada desde os anos 2000 por oito universidades públicas. Dezoito anos depois, pela primeira vez em Rondônia, os alunos não precisam ir até a universidade para fazer o vestibular.

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