16 de novembro de 2018
publicado às 13h03
Juventude extrativista se prepara para defender legado de Chico Mendes

Juventude extrativista se prepara para defender legado de Chico MendesPor Frederico Brandão

Cerca de 70 jovens extrativistas, vindos de vários estados da Amazônia, presenciaram na última semana, um momento histórico para o movimento de proteção ao meio ambiente brasileiro. No ano que marca os 30 anos da morte de Chico Mendes, eles puderam conhecer, em Brasília, algumas das principais lideranças comunitárias e amigos do líder ambientalista, que lutaram junto com ele pela defesa dos territórios de uso coletivo das comunidades extrativistas e dos povos tradicionais na Amazônia.

O encontro aconteceu no Seminário Nacional da Juventude Extrativista, evento organizado no Museu da República, pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), e reuniu, além dos jovens, líderes comunitários, representantes do governo e de organizações da sociedade civil, e artistas. Por meio de palestras, mesas-redondas e construções conjuntas, eles tiveram a oportunidade de conhecer a história da luta do líder acriano, assim como  refletir sobre seu papel na continuidade da luta de Chico Mendes.

O Seminário faz parte de uma série de atividades que celebram a trajetória de resistência e de conquistas do seringueiro, que se encerra na Semana Chico Mendes, em dezembro, no município de Xapuri (AC), cidade onde o líder nasceu e morreu. O tema principal das comemorações deste ano é Chico Mendes Herói do Brasil – uma memória a honrar, um legado a defender.

“Reunir jovens de todo bioma amazônico e de outras partes foi sem dúvida histórico. Contribuiu para formação social e política dessa juventude, e para o resgate da história de luta dos movimentos sociais. Eles entenderam que precisam dar continuidade a essa trajetória que tanto nos inspira”, explica Dione Torquato, presidente da Juventude do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

No Seminário, os jovens e líderes discutiram a importância dos territórios tradicionais; e os avanços, as ameaças e os retrocessos das políticas socioambientais no Brasil e no mundo. Um dos momentos mais marcantes foi a construção conjunta de um esboço da Carta de Xapuri, declaração de compromisso da juventude com a defesa do legado de Chico Mendes para os próximos 30 anos, que será lida e acordada oficialmente na Semana em Xapuri.

Para Angela Mendes, filha de Chico, também presente no evento, os jovens precisam recuperar o passado de luta, assim como seu pai acreditava. “Estamos vivendo o despertar de um novo momento, assim como Chico previu na carta que escreveu aos jovens do futuro. O legado dele traz um imenso aprendizado que nos inspira a traçar novas estratégias para a resistência dos novos tempos”, afirma.

Em seu discurso, a atriz Lucélia Santos, amiga próxima de Chico, alertou os jovens. “Precisamos acordar! A verdadeira voz vem da floresta. Não há projeto melhor para a floresta do que o projeto de Chico Mendes. Esses 30 anos vem nos unir para continuarmos o trabalho de valorização da floresta e do meio ambiente. Ele se foi de forma muito precoce, mas o seu legado permanece. Conto com nossa união, competência e com as bênçãos do Chico. Não vamos desistir”, incentivou.

A jovem Alcidete Flecha Moraes, de 21 anos, não mora no Acre, mas sempre foi muito influenciada pelo seringueiro. Moradora da Resex Rio Cajari, no estado do Amapá, uma das primeiras reservas extrativistas criadas no Brasil, ela considerou o seminário de extrema importância para entender a história e a lutar pela sua comunidade. “Somos a próxima geração que vai lutar pelas nossas florestas e pelo bem-estar do nosso povo. Venceremos pela coragem e pela persistência”, avalia.

O jovem Raimundo Cunha, de 27 anos, morador da Resex Médio Juruá, no município de Carauari (AM), agradece a oportunidade de aprender com os mais velhos e a ser inspirado por Chico. “Ao olhar para a história, vemos que a luta deles foi muito difícil e que eles não foram preparados como nós estamos sendo agora. Precisamos honrar esse movimento”, promete.

Conquistas de Chico
Celebrado mundialmente por seu ativismo ambiental, Francisco Alves Mendes Filho, conhecido como Chico Mendes, foi seringueiro, ativista político e um dos maiores defensores das florestas brasileiras.

Liderou os empates, método de resistência pacífica criado pelos seringueiros para impedir o desmatamento dos seringais na década de 70, quando chegavam com motosserras para derrubar a floresta e nela implantar pastagens para as criações de gado. Entre os anos de 1976 a 1988, há registros de que os seringueiros promoveram 45 empates, dos quais o movimento contabilizou 30 derrotas e 15 vitórias.

Chico Mendes foi pioneiro e inovador ao formular o conceito das reservas extrativistas (Resex) da Amazônia, que depois foi expandido para outros biomas brasileiros. Após a criação das quatro primeiras Resex do Brasil, em 1990, a expansão dos territórios de uso comum, federais e estaduais, cresceu e hoje corresponde a 92 unidades apenas na Amazônia, que se dividem em reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável.

A luta do ambientalista ainda inspirou a criação de uma série de programas e leis ambientais, como: o Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7); o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM); o Programa de Subsídio Estadual da Borracha, a partir da Lei n° 1.277/ 1999, conhecido como a Lei Chico Mendes; o Plano Nacional da Biodiversidade; o Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa); a Lei da Biodiversidade (Lei n° 13.123), além de dar seu nome ao principal órgão do governo para a conservação de unidades de conservação federais: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Lutar com ele foi uma caminhada de sonho. Nunca foi uma luta por vaidade ou dinheiro. Sempre foi para construir um mundo de igualdade. Sabemos que apesar de tantas conquistas, ainda temos muito chão pela frente. A luta deve ser motivo e estímulo para continuar”, enfatiza Raimundo Barros, o Raimundão, primo de Chico Mendes.

Exposição
Como parte das celebrações do legado do Chico, paralelamente ao Seminário, foi inaugurada a exposição de mesmo tema, no último dia 7 de novembro, para um público de aproximadamente 150 pessoas.

A mostra fica aberta ao público até 9 de dezembro, de terça a domingo, das 9h às 18h30, com entrada franca. A iniciativa resume a memória do seringueiro na defesa da Amazônia e dos povos que nela vivem. A partir de fotos, vídeos, mapas, cartas e até a máquina de escrever utilizada pelo próprio Chico Mendes, a exposição faz ainda uma homenagem a trinta mártires, entre homens e mulheres da Amazônia, que, assim como Chico, foram assassinados nas últimas décadas por lutarem pela terra e pelo meio ambiente no Brasil.

Organizada pela revista Xapuri Socioambiental, a exposição é uma realização do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro/DF) e do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Xapuri (STTR-Xapuri), em parceria com o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), o Memorial Chico Mendes, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), a Cooperação Alemã (GIZ) e o Museu Nacional da República.

Semana Chico Mendes
A tradicional Semana Chico Mendes, organizada pelo Comitê Chico Mendes, em parceria com o CNS, e apoio de diversas organizações, acontece de 15 a 22 de dezembro, no município de Xapuri (AC). Um dos principais temas abordados será o protagonismo do jovem extrativista em defesa das pautas socioambientais no estado do Acre.

A Semana Chico Mendes acontece anualmente, desde o assassinato do seringueiro, em 22 de dezembro de 1988, e é um importante momento para celebrar seu sólido legado de luta e de preservação das florestas brasileiras. As atividades organizadas normalmente relembram a trajetória do ambientalista e incentivam a participação dos jovens extrativistas locais para darem continuidade ao legado de luta pela conservação ambiental deixado por Chico.

Para o evento deste ano estão previstas a presença de 500 pessoas, entre lideranças vindas de todos os estados da Amazônia, populações tradicionais do Acre, convidados do Brasil e do exterior, além de representantes de organizações e governo. Estão previstas atividades artístico-culturais, workshops, palestras, rodas-de-conversa, lançamentos de livros, exposição, entrega de prêmios, e eventos diversos que terão como conceito principal Sustentabilidade e Direitos Humanos.

“É imprescindível um maior engajamento da juventude para formar novos líderes que garantam o futuro de um extrativismo que lute por ideais socioambientais. As novas gerações precisam valorizar a importância das unidades de conservação para o desenvolvimento sustentável do País, assim como o conhecimento tradicional, o uso sustentável dos produtos da floresta e o legado do socioambientalismo brasileiro”, explica Ricardo Melo, coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil.

O Comitê Chico Mendes é uma articulação em Rede de companheiros e amigos de Chico Mendes, ativistas socioambientais que se identificam com a luta do Mártir da Floresta. Foi criada na época de seu assassinato com dois objetivos: exigir das autoridades policiais e judiciárias a apuração, o julgamento e a condenação de seus assassinos e dos mandantes; e divulgar em âmbito nacional e internacional os ideais e legado de Chico Mendes.

Serviço da exposição:
Chico Mendes Herói do Brasil
Até 9 de dezembro de 2018
Terça-feira a domingo de 9hàs 18h30
Sala 2 – Museu Nacional da República, Brasília – DF
Entrada franca

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