6 de setembro de 2019
publicado às 12h05
Amazônia tem os índices de chuvas e de queimadas mais altos dos últimos 4 anos

Amazonia tem os indices de chuvas e de queimadas mais altos

De janeiro a agosto, choveu 11% a mais e teve 34% mais focos de queimadas do que a média desde 2016. Bolsonaro havia dito que “nos anos mais chuvosos, as queimadas são menos intensas”. Especialistas afirmam que fogo na Amazônia é causado principalmente pela ação humana.

A Amazônia teve mais chuvas, mais queimadas e mais alertas de desmatamento entre janeiro e agosto em 2019 do que o registrado no bioma nos mesmos períodos desde 2016.

Os dados são do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e foram compilados pelo G1. O período de análise não pôde ser anterior a 2016 porque o sistema de monitoramento de desmate mudou e não permite comparações mais antigas.

Os números vão contra declarações dadas pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Após a alta das queimadas afetar a rotina de São Paulo e virar pauta do G7, Bolsonaro chegou a relacionar as queimadas na Amazônia à estação durante um pronunciamento em rede nacional no dia 23 de agosto.

Nos dias 20 e 21 de agosto, Salles também atribuiu as queimadas ao clima.

“Tempo seco, vento e calor fizeram com que os incêndios aumentassem muito em todo o País. Os brigadistas do ICMBIO e IBAMA, equipamentos e aeronaves estão integralmente à disposição dos Estados e já em uso”, escreveu Salles, no dia 20.

Período de estiagem

Os dados mostram ainda que mesmo no trimestre da estiagem (junho, julho e agosto), a média de chuva registrada nas áreas de floresta amazônica foi acima da média histórica.

Foram 119 mm, sendo que a média histórica para o período é de 108 mm. A estiagem só se intensificou no mês passado, quando 7 dos 9 estados que integram o bioma apresentaram índice de precipitação inferior à média.

De acordo com o chefe da previsão do tempo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Francisco de Assis Diniz, as chuvas deste ano estão dentro da normalidade.

No entanto, Diniz ressalta que em Mato Grosso (MT) e no Tocantins (TO), estados que fazem parte da Amazônia Legal mas não são totalmente cobertos pelo bioma porque têm partes do Cerrado, já enfrentam um período maior de estiagem em 2019, chegando a 90 dias sem chuva no caso de MT.

O pesquisador do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam) Divino Vicente Silvério afirma que há uma forte relação entre desmatamento, queimadas e chuva. Um estudo do instituto aponta que os municípios com maior número de queimadas tiveram as maiores taxas de desmatamento em 2019.

Desmate maior que no El Niño de 2016

Em 2016 houve a ocorrência do El Niño, um fenômeno climático que muda o regime de chuvas e deixa o tempo mais seco. A comparação entre o total de focos de queimadas naquele ano e no atual período mostra que os registros de 2019 desvinculam tempo seco e queimadas. Os dados de queimadas registrados naquele ano foram menores em estados totalmente cobertos pela Amazônia.

No Amazonas, por exemplo, foram registrados 8.097 focos de queimadas de janeiro a agosto de 2019 e 330 mm de chuva no período – quase o dobro de focos de incêndios do que o registrado nos mesmos meses em 2016, com 4.823 focos de queimadas e 332,33 mm de chuva.

No Acre, os registros de 2019 também estão superiores ao ano de seca. Foram registrados 3.383 focos de incêndios entre junho e agosto, e 270,5 mm de chuva. Em 2016 a chuva registrada foi bem menor (118,8 mm), mas as queimadas chegaram a 3.215 focos, quase o mesmo número deste ano.

Amazônia tem o maior índice de chuva e queimadas dos últimos 4 anos

Amazônia tem o maior índice de chuva e queimadas dos últimos 4 anos

Ciclo do desmatamento

Divino Silvério, do Ipam, afirma que os desmatamentos e as queimadas estão relacionados.

“O processo é: as pessoas fazem o desmatamento e essa vegetação é deixada para secar em um período acima de 30 dias. Depois disso, faz-se a queima para limpar o terreno”, afirma Silvério, do Ipam.

Ele se refere ao corte seco, que é quando a árvore inteira é retirada de um espaço. Segundo Silvério, antes de chegar ao corte seco, as árvores de valor já foram retiradas e vendidas – sobram as árvores de menor porte e menor valor econômico. “Eles não vendem e, para se verem livres daquele material, fazem a queima.”

O “ciclo de desmatamento” tem como base a tentativa de ocupação desregrada de terras da União, inclusive em áreas protegidas, como verificou o Desafio Natureza no Pará.

Impactos dos incêndios na Amazônia

De acordo com especialistas ouvidos pelo G1, os incêndios na Amazônia causam prejuízos ambientais mais graves do que os verificados em países com outros biomas. Os principais motivos são:

  • Maior perda de biodiversidade: a floresta amazônica é o maior bioma do mundo e abriga a diversidade mais rica do planeta, segundo o ICMBio.
  • Maior perda de matéria vegetal: por ser mais densa, a floresta tropical perde mais biomassa na queima.
  • Maior emissão de carbono por hectare: por queimar mais biomassa, há maior emissão de gases que contribuem para o efeito estufa.
  • Maior dificuldade de recuperação da cobertura vegetal: o bioma amazônico é úmido e as espécies são pouco ou nada resistentes ao fogo.
  • Maior risco de afetar ciclos de chuva: a umidade produzida pela floresta produz chuvas no Brasil, Paraguai e Argentina.

Metodologia

Os dados usados na reportagem foram compilados de plataformas públicas do governo, como o Banco de Dados Meteorológicos do Inmet, com índices pluviométricos (http://www.inmet.gov.br/portal/index.php?r=bdmep/bdmep); e o Banco de Dados de Queimadas (http://queimadas.dgi.inpe.br), com focos de incêndios. Em ambos, o recorte foi para o bioma Amazônia.

Quanto ao desmatamento, o G1 usou informações do portal Terrabrasilis (http://terrabrasilis.dpi.inpe.br/), com dados do sistema Deter-B que emite alertas de desmatamento para a floresta dos estados de Amazônia Legal, o que equivale ao bioma Amazônia.

Este sistema não é a taxa oficial de desmatamento, que é emitida anualmente pelo Prodes. O G1 optou por usar os dados do Deter-B porque eles apresentam variação mensal e o período analisado é superior a três meses. Segundo especialistas do Inpe, o período mais extenso permite que distorções, como a interferência de nuvens, possam ser diluídas ao longo do tempo.

No caso dos índices pluviométricos, a tabulação passou por três fases: a primeira foi a captação manual dos dados de cada estação do bioma Amazônia pelo sistema do Inmet. Em seguida foram calculadas as médias por estados no período do recorte (janeiro a agosto de 2016, 2017, 2018 e 2019). Nos estados parcialmente cobertos pela Amazônia, foram consideradas as estações deste bioma. Com estes dados, foi possível calcular a média de toda a região. Fonte: G1

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