5 de novembro de 2019
publicado às 18h18
Fotógrafos negros usam a arte como forma de representatividade

Fotografos negros usam a arte como forma de representatividadeTrês profissionais de Brasília usam a temática racial em trabalhos como forma de representatividade e protesto

“A fotografia, antes de tudo, é um testemunho”. Foi assim que o fotógrafo norte-americano Ansel Adams definiu essa habilidade. E é exatamente assim que três profissionais de Brasília lidam com esse ofício. Negros, eles escolheram dar mais visibilidade para modelos com a mesma cor de pele.

Em ensaios e trabalhos autorais de Ester Cruz, Luiz Ferreira e Marconi Silva, estão presentes a beleza, o protesto e a representatividade. Neste ano, Ester começou a atuar em um projeto que, de acordo com ela, será para a vida inteira — de fotografia de retorno às origens africanas. “Eu trago personagens brasileiros com o recorte da ancestralidade”, explica. Para Ester, fotografar negros é sobre representatividade. “É uma queda do estereótipo padrão do homem branco de olho azul. Na minha infância, nunca tive muitas referências, por conta do racismo. Então, é transformar dor em arte”, define.
Luiz Ferreira já fez diversos ensaios com a temática racial. “Todo projeto que produzo parte de algum incômodo, reflexão, leituras, estudos. No Juventude Negra: sobre afetos, histórias e vivências, queria retratar uma nova juventude em movimento, em que (os jovens) falam de suas próprias narrativas. Fotografei individualmente cada pessoa e tivemos longas conversas. Compartilhamos histórias, desejos.” De acordo com o artista, o projeto surgiu da leitura sobre o genocídio da juventude negra. “Pensei: ‘precisamos mostrar que juventude é essa’. Não somos números, temos nomes e trajetórias”, afirma.
Além do Juventude Negra, exposto no Facebook em 2016, Luiz questionou a relação da masculinidade negra, no projeto Bright e a série Refazimento, em que fala sobre as relações de corpos dissidentes, retirados de seu lugar ancestral.
No caso de Marconi Silva, a inspiração surgiu ao ver profissionais que se dedicavam a fotografar negros. “Percebi que, como negro, também poderia falar de negritude através da minha fotografia”, conta. “Está cheio de fotografia de corpos brancos. Eu queria falar do meu povo.”
Na Universidade de Brasília (UnB), Marconi tem um projeto autoral em forma de protesto. “É uma universidade majoritariamente branca, tanto de alunos quanto de professores. O acesso aumentou com as cotas, mas ainda é pequeno. Meu curso (artes cênicas) só tem três professores negros”, destaca. A ideia dele era espalhar lambe-lambes pelo câmpus com fotos de alunos negros. Devido à burocracia, a exposição acabou restrita à Diretoria de Diversidade da UnB, de forma permanente. Agora, no mês da Consciência Negra, o projeto foi ampliado para o Centro de Convivência Negra. “Já ouvi, não para mim, que lugar de negro é limpando chão. Mas na UnB temos pessoas que serão os futuros doutores. Negros que querem ocupar seus espaços. É um caminho. A ideia é mostrar a cara do povo negro, que nós estamos resistindo”, afirma.

Conheça um pouco de cada um deles

(foto: Arquivo pessoal )
(foto: Arquivo pessoal )

Resgate da história por meio da fotografia

Aos 23 anos, Luiz Ferreira coleciona destaque no mundo da fotografia. Ano passado, uma foto dele foi selecionada para ser exposta na Patchogue Arts Gallery, em Nova York, nos Estados Unidos. Mas a relação com a fotografia começou como um resgate da história da família. “Nos momentos de encontro, minha avó materna sempre abria uma caixa cheia de álbuns. Dali surgiam risadas, retornos, situações e ressignificação e refazimentos”, lembra.
Em 2013, percebeu que a fotografia poderia ser mais do que retratos familiares. Começou a estudar. Para ele, a fotografia é “sobre registrar a partir das nossas narrativas, pautas, sentimentos; se mostrar, contar, decupar”.
Criado no Recanto das Emas e estudante de artes visuais na Universidade de Brasília (UnB),  Luiz relata que não é fácil ser negro em uma sociedade racista. Mas, para ele, consciência negra não é para falar sobre isso. “É sobre celebração do povo negro. Prefiro falar das novas narrativas que estamos construindo. O racismo é diário”, afirma.
Nós existimos durante todo o ano
Uma exposição de Sebastião Salgado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), quando ela ainda estava na escola, despertou o interesse de Ester Cruz, 21 anos, para a fotografia. Moradora de Ceilândia, se inscreveu no curso de fotografia do projeto Jovem de Expressão. Hoje cursa fotografia no Centro Universitário Iesb, com bolsa de 50%.
De acordo com Ester,  o mundo está melhor, mas ainda há muito o que melhorar. “O racismo é velado. Quando eu era criança, não entendia. Não pensava que era comigo”, relata. Na opinião dela, o caminho só não foi mais difícil por ter uma família bem estruturada. “Eles me ajudaram muito. Minha família é muito unida, mesmo não tendo muita consciência racial. Minha mãe sempre cuidou de tudo. Eu acho que isso facilitou para eu ter essa visão que tenho hoje”, ressalta. A jovem acredita que, mais do que falar sobre consciência negra em novembro, esse debate não pode se restringir a este mês. “Eu queria falar que a gente existe em outras épocas do ano”, declara.
(foto: Arquivo pessoal )
(foto: Arquivo pessoal )
Corpos negros em destaque
Marconi Cristino Silva, 38 anos, é grato ao projeto Jovem de Expressão, de Ceilândia, pelo envolvimento com a fotografia. A iniciativa oferece diversas oficinas e cursos gratuitos para a comunidade em geral. Por meio do projeto, Marconi se descobriu artista. Não só na fotografia, mas também no teatro. “Com isso, eu fui fotografando e pegando isso como expressão artística.”
As dificuldades para seguir a profissão não são poucas. Além dos cursos caros, os equipamentos têm custo elevadíssimo. “Eu me considero um fotógrafo, apesar das dificuldades. Eu ainda não tenho equipamento meu, por exemplo, pego tudo emprestado”, relata.
Marconi estuda artes cênicas na UnB. O objetivo de Marconi é ser arte-educador e juntar suas duas paixões. “Quero usar o teatro e a fotografia como ferramentas. Qualquer forma de arte é uma ferramenta boa para ajudar no processo educacional”, explica.
Para o morador de Ceilândia, discutir consciência negra é falar sobre respeito. “É falar de uma população que é maioria, mas é minoria nos espaços de poder. É falar sobre um povo que luta contra todas as mazelas. Não é por termos pele preta que somos incapazes.”
 

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Fonte: Correio Braziliense – Por Thays Martins

 

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