16 de julho de 2020
publicado às 15h47
Maior número de queimadas dos últimos 13 anos

Junho registra o maior numero

Na Amazônia, o mês de junho marca o início da seca e dos focos de fogo e, por isso, o número de focos de fogo em junho levanta alerta sobre temporada que está por vir

O número de queimadas entre 1 e 30 de junho de 2020 é o maior dos últimos 13 anos nesse período. Ao longo do mês de junho, foram detectados 2.248 focos de queimadas no bioma Amazônia, o maior índice desde 2007, quando houve 3.517. O número representa também 18,5% a mais que em junho de 2019, quando 1.880 focos foram registrados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e fica 36% acima da média dos 10 anos anteriores (2010 a 2019, com 1.651 focos).

Dos 2.248 focos de queimadas detectados na Amazônia entre 1 e 30 de junho de 2020, 58% ocorreram no Mato Grosso (1.303).

“Os primeiros números de junho pedem atenção, uma vez que a temporada mais seca ainda está apenas no começo, e a GLO está em operação na Amazônia”, afirma Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil. “Além disso, o contexto é preocupante: altos índices de desmatamento, desrespeito aos direitos indígenas e a calamidade de saúde pública com a pandemia de coronavírus.”

“Não podemos permitir que a situação de 2019 se repita, em que por falta de comando e controle do governo foi possível haver o Dia do Fogo no Sul do Pará. O governo pode e deve tomar medidas imediatas, como liberar o uso do fogo apenas por populações tradicionais, proibindo a prática das queimadas para os outros usos”, afirma Voivodic, lembrando que as contratações de brigadistas do PrevFogo (Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais) ainda estão no início e o tempo para o trabalho preventivo já se esgotou.

Desmatamento
Entre 1o de janeiro e 18 de junho de 2020, houve alertas de desmatamento para 2.645 km2 na Amazônia Legal, o maior número registrado para o período desde 2015. E o corte raso na floresta amazônica continua subindo, com 610km2 de área em alertas de desmatamento nos primeiros 18 dias de junho.

A ameaça é que o desmate deste ano supere os 10.129 km2 medidos no ano passado, na maior taxa desde 2008 e mais do que o dobro da taxa medida em 2012.

Se olharmos de agosto de 2019 a maio de 2020 com base nos dados do Deter, do Inpe, o desmatamento foi de 6.504 km2, 78% a mais em comparação ao período anterior (agosto de 2018 a maio de 2019), quando foram desmatados 3.654 km2. Esse período de 10 meses exclui os meses de junho e julho, quando o desmatamento é historicamente mais alto.

“Os Estados com maior desmatamento acumulado entre 1 e 18 de junho (Pará, Mato Grosso, Amazonas e Rondônia) também foram aqueles nos quais o número de focos de queimadas do primeiro semestre de 2020 superou 2019”, afirma Mariana Napolitano, gerente do WWF-Brasil.

Sinais trocados
A autorização do governo para empregar as Forças Armadas na operação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com o intuito de inibir o desmatamento e as queimadas na Amazônia, iniciada em maio deste ano e prorrogada até o final de julho, ainda não surtiu os efeitos esperados.

A atuação das Forças Armadas na Amazônia tem sido classificado por fiscais do Ibama como “atabalhoada, inexperiente e até mesmo mal intencionada”, de acordo com alguns fiscais ambientais.

Há também atraso do governo em contratar brigadistas para combater as queimadas, o que pode agravar ainda mais o cenário de 2020. Além de apagar os incêndios, os brigadistas têm o papel de prevenir as chamas com ações realizadas antes do período de seca – e para isso o Ibama costuma iniciar a contratação das equipes a partir de abril. Em 2020, no entanto, o edital de contratação das brigadas do PrevFogo, do Ibama, só saiu no dia 16 de junho e, no dia seguinte, uma nova portaria anulou o processo, invalidado por um erro no processo. O edital que contratará 843 profissionais para as equipes do PrevFogo foi publicado apenas no dia 23.

Saúde pública
As queimadas pioram a qualidade do ar, piorando os riscos de saúde das populações que vivem na Amazônia e que já estão sob a pandemia da COVID-19. Segundo um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), uma das consequências é o aumento do número de crianças hospitalizadas – o número dobrou entre maio e junho de 2019, com mais 2.500 internações a mais por mês, em 100 municípios da Amazônia Legal. Além disso, aponta o estudo, os poluentes podem viajar grandes distâncias e afetar cidades que estejam longe dos locais de origem do fogo.

As cidades da Amazônia já enfrentaram o primeiro pico da pandemia. A região Norte tem as maiores taxas de mortalidade (48,6) e contaminação (1234,7) do novo coronavírus por 100 mil habitantes no país.

O que o WWF-Brasil tem feito
O WWF-Brasil tem dado suporte imediato para o combate a queimadas e suporte contínuo para o combate ao desmatamento. O principal objetivo do WWF-Brasil é apoiar os guardiões da floresta locais, para que eles tenham condições materiais e treinamento para monitorar as principais ameaças, como desmatamento e invasões, questões que levam ao aumento das queimadas.

Com o apoio da Rede WWF, desde agosto de 2019, o WWF-Brasil vem reforçando suas ações para combater queimadas e fortalecer a vigilância territorial na Amazônia. Os projetos já atingiram 55,8 milhões de hectares ou 13,8% da Amazônia brasileira – uma área maior que a soma dos territórios da Espanha e da Suíça.

De lá para cá, foram firmadas parcerias com 26 organizações da sociedade civil e 9 órgãos de governos, como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Acre e a Polícia Ambiental do Acre, para realizar esse trabalho. Os benefícios chegaram a 77 terras indígenas e unidades de conservação e a mais de 117 mil pessoas. Já foram doados 5,3 mil equipamentos e realizados 45 treinamentos, oficinas e assembleias com mais de 2,8 mil participantes.

No contexto específico de Covid-19, 30 mil pessoas – indígenas e agroextrativistas da Amazônia e do Cerrado – receberam alimentos, produtos de higiene e equipamentos.

Fonte: WWF-Brazil

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