Salve a Amazônia
16 de julho de 2020
publicado às 16h04
Agricultoras do Acre aderem feira digital durante pandemia
Como medida para fugir da crise durante a pandemia do novo coronavírus, um grupo de pelo menos 20 produtoras de dois projetos de assentamentos, em Rio Branco, resolveu criar uma feira virtual para que pudessem continuar vendendo os produtos de hortifrutigranjeiros que antes elas vendiam nas feiras livres, antes da pandemia.

Com o decreto de isolamento social e restrição de algumas atividades consideradas não essenciais, elas viram o prejuízo bater à porta e as vendas no início caíram drasticamente, já que não podiam mais ir para os pontos de vendas, conforme conta a produtora rural e Coordenadora Estadual do Movimento de Mulheres Camponesas, Geovana Castelo Branco, de 49 anos.

Ela conta que o grupo já tinha um projeto para fazer as vendas de forma virtual, mas era algo para o futuro, sem previsão de quando ia começar a ser executado. Mas, elas participaram de um encontro de mulheres produtoras que mudou o rumo das coisas.

“Com a pandemia, a gente se viu obrigada a colocar um plano que ainda estávamos mastigando em prática, pegamos a ideia e a CDSA nos apoiou para criar a plataforma. Nós somos camponesas e não tínhamos esse acesso e pra gente era uma coisa nova. Nós eramos feirantes e, de repente, estávamos num ambiente virtual”, contou.

Produtos eram vendidos em feiras nos bairros  — Foto: Arquivo pessoal

Produtos eram vendidos em feiras nos bairros — Foto: Arquivo pessoal

Feiras livres

Antes da pandemia, elas vendiam nas feiras que aconteciam no Rui Lino, Universidade Federal do Acre (Ufac), Horto Florestal e no Centro de Rio Branco. A maioria das mulheres são dos assentamentos Walter Acer e Antonio de Holanda.

“Com a pandemia, teve o decreto do governo que a gente entende que é o que tinha que ser feito para preservar as vidas e, então, as feiras livres foram suspensas. E nós ficamos preocupadas com o que ia acontecer com a nossa produção, como a gente ia comercializar, e até mesmo produzir”, conta Geovana.

As produtoras ficaram pelo menos um mês com as vendas paradas nas feiras e faziam as entregas para alguns clientes fixos. E, a partir da segunda quinzena de abril, elas retomaram as atividades, só que desta vez com uma feira digital. E têm a vantagem de sair com o produto vendido, sem ter risco de estragar, não precisa montar barraca nem desmontar.

Feira de orgânicos é totalmente on-line  — Foto: Alcinete Galdelha/G1

Feira de orgânicos é totalmente on-line — Foto: Alcinete Galdelha/G1

‘Adaptação’

“As vendas com a plataforma mudaram bastante. Aumentamos nossa capacidade de venda. No início, foi dificultoso, a gente não tinha costume. Mas, agora reajustamos tudo e está organizado e as nossas vendas aumentaram. Recuperamos o que tinha caído, uns 70%, e estamos vendendo um pouco mais. Está maior”, ressalta.

Os prejuízos chegaram a 70% das vendas, produtoras que vendiam em média R$ 400 por semana viram o valor cair para pouco mais de R$ 100 e voltar para casa com os produtos e algumas vezes sem conseguir vender nada.

Jesuíta Alves, de 56 anos, trabalha no setor há mais de 25 anos e contou que no início a situação ficou difícil e teve semana que não vendeu nada. Ela conta sobre o prejuízo e como isso estimulou para ela pensasse em alternativas.

“Na minha feira semanal eu fazia uma média de R$ 400. Hoje, não faço menos de R$ 800 e já cheguei a RS 1,1 mil. No início teve semana de ficarmos sem renda. Mas, como tínhamos clientes fixos, eles começaram a entrar em contato e pediram para que a gente não deixasse eles sem os produtos, foi quando começamos as entregas”, contou sobre a mudança.

Jesuíta diz que pretende aderir às vendas on-line, mesmo sem pandemia  — Foto: Arquivo pessoal

Jesuíta diz que pretende aderir às vendas on-line, mesmo sem pandemia — Foto: Arquivo pessoal

Plano de ficar no digital

Com a nova experiência, Jesuíta conta que não pretende mais voltar para a feira livre onde atuava no Centro de Rio Branco. Ela conta que no início foi tomada pela tristeza e incerteza de não saber como ia trabalhar, depois veio a mudança no formato das vendas. Agora, os planos são outros.

“Está muito bom. A gente está com uma logística de entregar o produto. Fazemos a colheita só do que vai vender e também tivemos uma melhora de preço dos produtos. Prefiro continuar trabalhando dessa forma. Nós tivemos valorização do nosso produto e, em segundo lugar, tive mais descanso, fico em casa, posso ter um aumento de produção e não gasto mais dois dias para ficar na feira”, contou.

O trabalho é feito à base da união da comunidade mesmo. Quem faz as entregas dela é o filho, mas nem todos os produtores possuem transporte, então, assim como outros que possuem meio de fazer a entrega, ajudam as outras produtoras que não têm.

“Nós somos do mesmo grupo e levamos os produtos das outras agricultoras também. A gente pega o produto das outras agricultoras e leva e depois repassa o valor”, contou.

Produtos são cultivados em projetos de assentamento no Acre — Foto: Arquivo pessoal

Produtos são cultivados em projetos de assentamento no Acre — Foto: Arquivo pessoal

Projeto

O projeto faz parte de uma iniciativa do governo por meio da Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais do Acre (CDSA), que através do projeto Sistema Integrado Incentivos Ambientais (Sisa+), apresentaram essa alternativa que conta com uma loja virtual com todos os produtos disponíveis para entrega, compartimentada em categorias como verduras, frutas, legumes e produtos artesanais que passam por todo processo de higienização e são entregues aos clientes.

O presidente da CDSA e assessor de indústria e comércio da Secretaria de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict), José Gondim, disse que o objetivo do projeto é induzir novas formas de mercado e comportamento de consumo, comprar coisas saudáveis de produtores regionais, usando ferramentas tecnológicas.

“Então, o auxílio do Estado foi mais nessa atuação. Apesar de que elas têm o auxílio também da secretaria de produção, que ajuda no escoamento da produção de alguns lugares de difícil acesso. E nesse bojo todo, conseguimos chamar a atenção para esse modelo de feira virtual de mudança de paradigma de consumo, mudança de comportamento em relação ao distanciamento”, conta.

Alem disso, Gondim ressalta que não foi só a melhora nas vendas o reflexo positivo, mas, na qualidade de vida.

“A gente conseguiu manter a renda semanal das mulheres e também ampliar o que elas tinham de vendas nas feiras. Além manter as vendas, aumentou e melhorou a qualidade de vida delas porque, quando era presencial, o trabalho de ir e montar a feira era muito pesado. Hoje, elas saem do campo já com o produto vendido, só para entregar”, pontua.

As vendas são feitas por meio da plataforma que disponibiliza todos os produtos que elas ofertam. Os pedidos podem ser feitos até quinta-feira e na sexta, elas saem para fazer as entregas.

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