Salve a Amazonia
21 de dezembro de 2020
publicado às 09h44
Especialistas apontam que 2020 foi o ano mais sombrio para o meio ambiente

Neste ano, a pandemia de Covid-19 reduziu as emissões de agentes contaminantes em todo o planeta, porém, não impediu novos registros alarmantes de desmatamento florestal na América Latina; tampouco diminuiu as mortes dos defensores do meio ambiente.

“A Amazônia está muito mais ameaçada do que há oito anos”, devido ao “avanço das atividades de extração, dos projetos de infraestrutura, assim como dos incêndios, do desmatamento e da perda de carbono”, advertiu recentemente um relatório da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG).

A área desmatada na maior floresta tropical do mundo triplicou entre 2015 e 2018.

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, aumentou 9,5% com relação ao mesmo período anterior, um segundo recorde consecutivo em 12 anos.

Nesse período,  foram perdidos cerca de 11,08 mil quilômetros quadrados de florestas e bosques – sete vezes mais do que a superfície da Cidade do México -, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“Por causa do desmatamento, o Brasil deve ser o único grande emissor de gases de efeito estufa que aumenta suas emissões no ano em que a economia global parou devido à pandemia”, avaliou o Observatório do Clima, uma coalizão de ONGs brasileiras focadas nas mudanças climáticas.

Essa, junto de outras organizações e especialistas, responsabilizam reiteradamente o presidente, Jair Bolsonaro, e seu discurso a favor das atividades extrativistas e do agronegócio em áreas protegidas, pelo aumento do desmatamento e das queimadas.

O balanço do Inpe, avaliou o Observatório, “reflete o resultado de um projeto exitoso em aniquilar a capacidade do Estado brasileiro e dos órgãos de fiscalização que cuidam da nossa floresta e combatem o crime na Amazônia”.

Pantanal em chamas

Os incêndios provocados para ampliar as fronteiras agrícolas e pecuaristas somam-se a uma seca prolongada, a qual é atribuída, em parte, aos efeitos acelerados do aquecimento global.

No Pantanal, a maior planície alagada do planeta, que se estende pelo Brasil, pelo Paraguai e pela Bolívia, a seca foi uma das mais severas em quase meio século.

Além disso, houve casos graves de incêndios, imagens de árvores queimadas, bem como de animais carbonizados, foram veiculadas ao redor do mundo, enquanto um quarto da região pantaneira era devastada pelas chamas entre janeiro e Setembro.

Os incêndios também tiveram níveis máximos na região vizinha do Gran Chaco – Bolívia, Paraguai e Argentina -, o segundo espaço vegetal da América do Sul, depois da Amazônia.

No Delta do Paraná, na Argentina, outro vasto pântano, que abriga uma rica variedade de espécies animais e vegetais, os incêndios aumentaram 170% este ano, disse Elisabeth Möhle, pesquisadora de políticas ambientais da Universidade Nacional de San Martín.

“Morreram répteis, aves migratórias, pequenos mamíferos, tartarugas”, enumerou o naturalista argentino César Massi. “Durante a seca anterior, em 2018, houve incêndios, mas este ano foi mais forte, mais intenso e mais estendido no tempo”.

Com relação a perda de biodiversidade, os especialistas afirmam que é difícil quantificar.

Em meados de junho, a Amazônia perdeu um de seus defensores, o cacique Paulinho Paiakan, morto de covid-19 aos 65 anos.

No entanto, não só o novo coronavírus representou um perigo; indígenas, camponeses e outros ativistas denunciaram ameaças ao enfrentar interesses de mineradoras, madeireiras, agronegócios, empresas eólicas, hidrelétricas e gasodutos.

Dos 20 países com maior número de homicídios de defensores do meio ambiente no mundo no ano passado, nove foram latino-americanos, segundo a Global Witness, uma ONG que documenta esse tipo de crime há quase uma década. Colômbia, Brasil, México e Honduras encabeçaram a lista.

Michel Forst, então relator especial sobre defensores de direitos humanos, em um relatório apresentado em março à Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, declarou que ambientalistas, camponeses, afrodescendentes e indígenas na Colômbia sofrem violações e abusos “quando defendem a terra, o meio ambiente e os direitos humanos”.

Honduras recebeu destaque nessa violência, isso porque vários ativistas do país tiveram, em 2020, a mesma sorte de Berta Cáceres, a reconhecida ambientalista assassinada em 2016 por se opor a uma represa.

Em abril, a líder camponesa Íris Álvarez Chávez morreu nas mãos de forças de segurança durante uma desocupação violenta de terras no sul do país.

A lista continua: Marvin Castro Molina; Roberto Antonio Argueta; José Antonio Teruel, sua esposa Francisca Aracely Zelaya e seu cunhado Marco Tulio Zavala; entre tantas outras vítimas.

Em setembro, Óscar Eyraud Adams, um indígena kumiai que se opunha à concentração de água por parte de uma companhia cervejeira no município mexicano de Tecate, foi morto a tiros.

Segundo a Global Witness, mais de dois terços dos 212 homicídios de ativistas apontados em 2019 ocorreram na América Latina, a região mais afetada por essa violência; a tendência indica continuidade em 2020.

Fonte: ANDA

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