Salve a Amazonia
12 de novembro de 2015
publicado às 13h12
Expedição registra ameaças do garimpo ilegal no Rio Uraricaá (RR)

Expedição registra ameaças do garimpo ilegal no Rio Uraricaá (RR)Uma expedição registrou as ameaças do garimpo ilegal ao meio ambiente e às comunidades Yanomami do Rio Uraricaá, no noroeste de Roraima. A “Expedição Maracá-Uraricaá” percorreu cerca de 150 quilômetros pelos rios Uraricuera e Uraricaá, em uma região de difícil acesso localizada entre a Estação Ecológica (Esec) de Maracá e a Terra Indígena (TI) Yanomami.

A iniciativa encerra a série de expedições pelo limite leste da TI Yanomami, iniciada em 2012 e que viajou mais de 500 quilômetros pela linha demarcatória da área com o objetivo de produzir um diagnóstico das pressões e ameaças à TI e construir um plano de vigilância permanente.

A expedição foi uma parceria entre ISA, a Associação Hutukara e o Instituto de Conservação da Biodiversidade Chico Mendes (ICMBio), que gerencia a Esec. Contou ainda com o apoio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’kwana, Companhia Independente de Policiamento Ambiental (CIPA) e Polícia Civil de Roraima.

A expedição 2015 teve como ponto de partida a sede da Esec de Maracá, localizada na ilha de mesmo nome – a terceira maior ilha fluvial do mundo – e como ponto final a primeira comunidade Xiriana, um subgrupo Yanomami, situada a poucos metros da linha demarcatória entre a Terra Indígena e a Unidade de Conservação. Diferentemente das viagens anteriores, que incluíra caminhadas na floresta, o trabalho neste ano foi feito todo por via fluvial, percorrendo o chamado “furo Santa Rosa”, no Rio Uraricuera, e depois o Rio Uraricaá, afluente que nasce no interior da TI Yanomami.

O Uraricuera é um rio de grande beleza devido à ocorrência de diversas corredeiras e pedrais, onde além das formas naturais podem-se observar registros arqueológicos e um marco da passagem do marechal Cândido Rondon pela região, na década de 1920. As corredeiras tornam a navegação extremamente arriscada e difícil. Somente os barqueiros mais experientes conseguem transpô-las sem maiores problemas.

Apesar da dificuldade de acesso, o rio tornou-se, nos últimos anos, uma das rotas preferidas do garimpo ilegal em Roraima, que ocorre, sobretudo, nos barrancos de pequenos igarapés tributários do Rio Uraricaá. A expedição identificou diversas estruturas que dão suporte aos garimpeiris, como acampamentos e pistas clandestinas. Uma estimativa conservadora do número de envolvidos no garimpo, nesse trecho do rio, aponta para um grupo em torno de 80 a 120 pessoas.

O garimpo traz inúmeros impactos negativos aos ecossistemas locais e às comunidades indígenas vizinhas, como o assoreamento, a contaminação por mercúrio e o aliciamento de jovens. Nas comunidades da região, por exemplo, são altos os índices de malária e alcoolismo, consequências diretas da presença garimpeira.

O trecho do rio que se estende entre a TI Yanomami e a Esec de Maracá é reconhecido por especialistas como uma área de grande relevância para a conservação da biodiversidade. Por isso, desde 1996, foi incluída na proposta de ampliação da Esec. No entanto, a morosidade no processo de regularização fundiária no estado tem facilitado a invasão da área.

A expansão da Esec havia sido garantida pelo Decreto 6754/2009, que trata do repasse das terras da União para o estado de Roraima. Entretanto, o governo estadual fez uma contraproposta para a destinação da área, que se tornaria uma Floresta Estadual, um tipo de Unidade de Conservação que permite a instalação de mineradoras em seu interior.

Caso a contraproposta seja adotada, os riscos são enormes, pois a área tem diversos requerimentos para mineração de ouro registrados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). A instalação de mineradoras poderia impulsionar também o garimpo dentro da TI Yanomami, já que, em um cenário de baixa fiscalização, o ouro retirado ilegalmente da área poderia ser facilmente “esquentado” nas mineradoras para futura comercialização. Atualmente, o caso está em análise na “Câmara Técnica de Destinação e Regularização de Terras Públicas Federais na Amazônia Legal”. (Instituto Socioambiental – ISA).

 

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