Salve a Amazônia
19 de agosto de 2020
publicado às 19h48
Indígenas lutam contra ameaça de genocídio e descaso do governo
Povos resistem ao avanço da pandemia, acelerado pela omissão do Governo Federal. Dia Internacional dos Povos Indígenas é marcado pelo luto da perda de quase 650 indígenas para a Covid-19

“As pessoas vão à cidade em busca de atendimento e infelizmente voltam em um caixão”. Com essas palavras, a liderança Eliane Xunakalu, coordenadora da Fepoimt (Federação dos Povos Indígenas do Mato Grosso), descreveu a situação de desespero enfrentada pelos quase 150 povos indígenas já atingidos pela Covid-19.

Eliane tem se esforçado para conciliar seu tempo dedicado a ações de prevenção ao contágio de seu povo, rituais fúnebres para enterrar os mortos, projetos da associação que representa e a dedicação à família. “O momento é crítico, somente aqui no povo Kurã-Bakairi perdemos sete pessoas muito importantes. Somos pouco mais de 1200, e já são 102 casos. A tristeza toma conta do nosso povo, somos vítimas de um Estado que não nos socorre e que não nos garante o direito à vida e o direito à saúde”, lamentou.

Segundo o boletim da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), até as 19 horas de sexta, 7 de agosto, 646 indígenas já haviam morrido pelas consequências da Covid-19 em todo o território nacional. Os casos registrados ultrapassam os 23 mil, em 148 etnias espalhadas por todas as regiões do país.

Puyr Tembé, da coordenação da Fepipa (Federação dos Povos Indígenas do Pará), ressalta que o avanço da pandemia é acelerado pela omissão do Poder Público diante da presença ilegal de madeireiros, grileiros e, principalmente, garimpeiros, nos territórios. “Somos vítimas dessas invasões para extração de minérios e não sabemos a quem recorrer. O governo está vendo e não está tomando as devidas providências”, lamentou a líder Tembé.

Segundo Rubens Suruí, coordenador da Associação Metareilá do povo Paiter Suruí, cujo território se situa nos estados de Rondônia e Mato Grosso, é fundamental que haja disponibilidade de testes, medicamentos, itens de higiene e alimentos para que os indígenas possam permanecer nas aldeias, evitando o contágio nas cidades. “A preocupação é muito grande, na medida em que há um aumento de casos. Se isso se espalhar pelas aldeias, corremos um risco de extinção, de genocídio de um povo”, concluiu.

Esta semana o STF (Supremo Tribunal Federal) confirmou a importante decisão de exigir providências imediatas do Governo Federal para frear o avanço da pandemia entre os povos originários. Por unanimidade –nove votos a zero– o Plenário da Corte manteve as seguintes determinações, definidas dia 8 de julho em caráter liminar pelo ministro Luís Roberto Barroso: Instalação de uma sala de situação, elaboração de um plano para retirar invasores dos territórios, acesso de todos os indígenas ao sistema indígena de saúde, mesmo aqueles que vivam fora de terras homologadas, e a instalação de barreiras sanitárias em 31 terras indígenas, com o objetivo de impedir a entrada de invasores.

Para Bruno Taitson, analista de políticas públicas do WWF-Brasil, embora não haja razões para comemorar este 9 de agosto, é fundamental enaltecer a resistência indígena. “Esses povos vêm lutando pela sobrevivência há mais de 500 anos e esta luta se torna ainda mais árdua diante de uma pandemia e de um governo que não cumpre o papel constitucional de proteger os indígenas e seus territórios. Não à toa, ministros do Supremo, o Ministério Público Federal, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e outras entidades mencionam o risco de genocídio, o que requer ações concretas e urgentes por parte do Estado”, afirmou.

Fonte: WWF Brasil

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