Salve a Amazônia
19 de agosto de 2020
publicado às 19h39
A Pandemia Nossa de Cada Dia. Ex-floresta: um guia básico
Em tempos onde todos procuram aprender algo novo, usando a pandemia nossa de cada dia como oportunidade, eu proponho aproveitarmos as lições do governo federal para aprendermos como fazer ex-florestas. Neste momento, é importante participar dos processos produtivos do país, gerando produtos que podem movimentar a economia.

Primeiro, é fundamental compreender que há vários tipos de ex-florestas e não apenas aquele clássico, que vemos nas imagens do garimpo na Amazônia, também chamado de terra arrasada. A floresta não é um coletivo de árvores, é um conjunto de relações. Há árvores, sim, claro, mas há mamíferos, aves, peixes, insetos, bactérias, fungos, vírus e muitos outros seres vivos, cada um interagindo com diversos outros criando uma complexa teia de conexões. Mesmo sem destruir todas as árvores, é possível produzir uma ex-floresta, tirando algumas espécies, como os madeireiros fazem com o ipê, cuja a remoção leva muitas outras árvores juntas, ou colocando fogo em suas imediações e transformando, consequentemente, toda a dinâmica do ambiente, ou ainda mudando a vazão dos rios, como fazem as barragens, e modificando completamente a forma pela qual o ecossistema se organiza. Ou seja, antes de se lançar ao trabalho, é preciso escolher qual dessas opções de ex-floresta é a mais desejável.

Em segundo lugar, é também importante saber que as florestas são, muitas vezes, habitadas por povos indígenas e por outras comunidades locais que tendem a protegê-las e podem atrapalhar o processo de produção de uma ex-floresta. Para isso, as melhores técnicas são as disseminadas pelo governo federal, elas podem ser reunidas sob o título de “alucinações negativas”. São técnicas que partem da ideia de que esses guardiões da floresta na verdade não querem proteger a floresta e, sim, estão loucos para abandonar seus modos de vida para se dedicar ao garimpo, às atividades madeireiras, ao plantio de monoculturas e à criação intensiva de gado ou desejam se mudar, com urgência, para a periferia de uma cidade qualquer. A “alucinação negativa” permite que quem quer que diga o contrário não seja nem visto, nem ouvido, ou seja, é negada sua existência. Usando essa técnica, é possível evitar esse problema e construir sua ex-floresta com mais eficiência.

No momento atual, a produção de ex-florestas tem sido bastante encorajada e resulta, na maior parte dos casos, em brindes e elogios. Os brindes são medidos, em geral, em hectares de terras griladas, autorizações tácitas para atividades ilegais e graus centígrados no clima do planeta. A profusão de elogios que ganha as redes sociais eleva os produtores de ex-florestas a “homens de bem”. Além disso, há um contingente de pessoas e autoridades envolvidas com essa atividade, garantindo que ela seguirá em alta no país.

Apesar de alguns dizerem que a floresta tropical úmida não pega fogo, os incêndios na Amazônia mostram que não é bem assim. Eles derivam de uma das técnicas mais populares de produção de ex-florestas: trata-se de retirar da área as árvores com madeiras de interesse econômico, na sequência derrubar o resto da vegetação e deixar lá por alguns meses, secando. Após esse tempo decorrido, uma caixa de fósforo pode ser suficiente para provocar uma bela queimada, garantindo, ao final, uma ex-floresta bem consolidada.

Terras Indígenas e Covid-19

Para quem gosta de desafios mais radicais, existem também ex-florestas mais valiosas e mais difíceis de produzir, como por exemplo, as ex-florestas dentro de Terras Indígenas (TIs). Os brindes para os produtores dessas ex-florestas não são, ainda, terras, mas há pepitas de ouro e até mesmo diamantes e, sempre, aqueles graus centígrados no clima planetário. Em geral, esses produtores de ex-florestas também distribuem mercúrio pelos rios, ajudando outros produtores de ex-florestas. Trata-se de uma atividade onde há muita cooperação. Por exemplo, recentemente, esses produtores de ex-florestas passaram também a distribuir Covid-19, minando a resistência dos povos indígenas, e abrindo caminho para mais produtores de ex-florestas.

Essa atividade é vista com muito carinho pelo governo federal, em especial pelo presidente Jair Bolsonaro, que tem se dedicado a promovê-la desde que chegou ao poder no começo de 2019. Isso porque, como qualquer atividade produtiva, a produção de ex-florestas também sofre algumas críticas. Essas críticas, no passado, foram traduzidas em fiscalização dos órgãos ambientais, mais atenção e políticas públicas para os guardiões da floresta, resultando numa queda sistemática na atividade de produção de ex-florestas. Imagine quantas ex-florestas deixaram de ser produzidas entre os anos de 2004 e 2012!

A disseminação da Covid-19 pelo interior da Amazônia, a falta de empenho do governo em retirar os invasores das TIs, o desmonte dos órgãos ambientais, o descaso com a vida das pessoas, com a ciência e com a crise do clima, além da apologia governamental às ex-florestas, transformou essa atividade – a produção de ex-florestas – numa das oportunidade para quem procura novos horizontes na pandemia nossa de cada dia.

Um bom exemplo da valorização dessa atividade é que, mesmo quando as ex-florestas ameaçam outras atividades econômicas, até mesmo essenciais, como a distribuição de energia elétrica, os clamores dos contrários são ignorados e os produtores de ex-florestas podem seguir tranquilos. Outro exemplo são os 20 mil garimpeiros, ativos produtores de ex-florestas, que estão dentro da TI Yanomami (RR/AM), contaminando os índios com o novo coronavírus, poluindo suas águas com mercúrio, numa atividade descaradamente ilegal, mas que conta com o beneplácito do governo. Em outras TIs, como a Trincheira de Bracajá (PA), os índios Xikrin também enfrentam o avanço dos produtores de ex-florestas, mas não parece haver nenhuma ação para detê-los. Ou seja, não há limites para as oportunidades de produção de ex-florestas!

Por fim, vale dizer que se você resolver se dedicar a essa nobre atividade, além dos brindes já mencionados acima, como hectares de terras griladas e graus centígrados no clima global, você pode tirar a sorte grande. Como hoje sabemos que a produção de ex-florestas está fortemente ligada à emergência de novas zoonoses, ou seja, doenças que têm sua origem nos animais, você pode conseguir o prêmio máximo que a produção de ex-florestas pode gerar: uma nova doença que cause uma nova pandemia global!

Nurit Bensusan, assessora do ISA e especialista em Biodiversidade

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