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16 de novembro de 2018
publicado às 13h45
Novo ministro de Relações Exteriores do Brasil acredita que as mudanças climáticas são “conspiração marxista”

Novo ministro de Relaoces Exteriores do Brasil acredita que as mudancas climaticas sao conspiracao marxistaÉ estarrecedora a escolha do embaixador Ernesto Araújo como ministro de Relações Exteriores. Sua nomeação contraria uma longa tradição da política externa brasileira e traz o risco de tornar o Brasil um anão diplomático e um pária global. O radicalismo ideológico manifesto nos escritos do futuro ministro cria, ainda, uma ameaça para o planeta, ao negar a mudança do clima e, presumivelmente, os esforços internacionais para combatê-la.

Araújo tem expressado posições fortes contra a globalização e contra o multilateralismo. Em nome dessa ideologia, e contrariando as evidências mais rasteiras, chama em seu blog Metapolítica 17 o combate à mudança climática de perversão da esquerda. Invoca uma teoria conspiratória segundo a qual existe um projeto “globalista” de transferir o poder do Ocidente para a China (uma contradição em termos). Parte desse grande complô seria o “climatismo”, que é como ele chama o esforço mundial para reduzir emissões de carbono – empreendido por líderes de todas as faixas do espectro político e com base em décadas de conhecimento científico acumulado.

Tal pensamento, caso prevaleça sobre o ofício do chanceler, será prejudicial ao Itamaraty e ao papel do Brasil no mundo. A diplomacia brasileira tem na defesa do multilateralismo um de seus pilares e, nos últimos 46 anos, vem se valendo do multilateralismo para projetar o Brasil na cena internacional em um dos poucos espaços nos quais o país é líder nato: a agenda ambiental.

O Itamaraty foi o primeiro ministério a entender como o patrimônio natural brasileiro é um dos ativos mais importantes dos tempos modernos. O Brasil foi protagonista na Conferência de Estocolmo, em 1972; foi berço das grandes convenções de ambiente e desenvolvimento sustentável da ONU e da Agenda 21, em 1992; liderou na defesa dos países em desenvolvimento no Protocolo de Kyoto, em 1997; foi o parteiro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em 2012; e negociador fundamental do Acordo de Paris, em 2015. Agora, está escalado para sediar a próxima conferência do clima, a COP25, em 2019.

Abdicar essa liderança em nome de uma ideologia de tons paranoicos contrariaria diretamente o interesse nacional, que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, prometeu colocar “acima de tudo” em sua campanha. Sendo o Brasil o sétimo maior emissor de gases efeito estufa do planeta, também poria em risco enormes porções da população global – inclusive no Ocidente, como demonstram os recentes incêndios florestais na Califórnia– num momento em que a melhor ciência nos diz que temos apenas 12 anos para prevenir os piores efeitos da crise do clima.

Resta esperar que o cargo e suas responsabilidades tornem o chanceler Ernesto Araújo muito diferente do blogueiro Ernesto Araújo.

*Texto publicado originalmente em 15/11/2018 no site do Observatório do Clima

*Nota da redação do Conexão Planeta: em matéria de grande destaque, escrita pelo editor de meio ambiente, o britânico The Guardian ressalta também a surpresa com a indicação de Ernesto Araújo. O jornal relata que o futuro chanceler brasileiro, que representará o país no exterior, considera as mudanças climáticas um “dogma”, além de criticar o que chama de “criminalização do consumo da carne vermelha, do petróleo e do sexo heterossexual”. 

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Fotos Públicas – Conexão Planeta

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