Salve a Amazonia
23 de junho de 2016
publicado às 17h34
O que os assassinatos da onça Juma, dos jacarés do parque da Disney e dos animais considerados “de consumo” têm em comum

assassinatos da onça Juma, dos jacarés do parque da DisneyÉ um preconceito que, além de “justificar” matanças de animas, faz você acreditar que o bife do almoço e a pizza do jantar valem mais que a vida dos animais que “fornecem” carne e leite

Os assassinatos recentes da onça Juma, pelo mesmo Exército brasileiro que a explorava como “mascote”, e de cinco jacarés num parque da Disney nos Estados Unidos levaram boa parte dos brasileiros a uma totalmente justificável indignação. Afinal, são mais animais não humanos violentamente mortos em situação de injustiça, submissão e exploração por humanos. Esses casos, se percebermos bem, têm aspectos essenciais em comum com o abate de animais considerados “de consumo” nos matadouros do Brasil e do restante do mundo, e vale refletirmos sobre essas semelhanças.

A semelhança mais óbvia é que ambos os casos foram assassinatos injustificáveis de animais inocentes, impossíveis de serem considerados casos de legítima defesa. Mas há uma outra ainda mais profunda, que eu quero focar aqui. É um preconceito que a grande maioria dos seres humanos possui sobre os animais não humanos em geral: o especismo.

O que é esse tal de especismo? – muitos se perguntam quando se deparam com essa palavra cada vez mais usada. Respondo: é o preconceito de considerar animais não humanos em geral moralmente inferiores aos seres humanos, e também acreditar que animais de algumas espécies (cães, gatos, animais selvagens) são “menos inferiores” que outros (animais “de consumo”, “de pesquisa”, “de entretenimento” etc.).

É a crença moral especista que faz as pessoas crerem, sem questionamento, que, enquanto o cão e o gato merecem o afeto dos humanos, os bovinos, porcos, búfalos, coelhos, aves “comestíveis”, peixes, insetos etc. não têm esse mesmo direito e, portanto, “merecem” ser usados de modo que “forneçam” carne, leite, ovos, mel, couro, lã, sebo etc.

O mesmo especismo induz os seres humanos a opiniões contraditórias sobre os animais supostamente “menos inferiores”. Ele faz muitos acreditarem e até falarem abertamente que foi um absurdo a onça e os jacarés terem tido suas vidas ceifadas, mas não haveria grandes absurdos em mantê-los submissos aos humanos, desde que vivos e sem serem tratados com muita crueldade.

É por isso que muitas pessoas têm mantido uma postura de aceitação perante a existência dos zoológicos, desde que eles não promovam abertamente os “maus tratos” nem matem os animais presos. O que as chocou foi o assassinato dos animais em questão, não tanto a vida de cativeiro perpétuo que eram forçados a viver antes de morrerem sangrentamente, tampouco o estado de dominação a que se encontravam sujeitados.

E é pela mesma linha de “raciocínio” preconceituosa que a grande maioria dos seres humanos acredita piamente que temos o direito natural de explorar os animais considerados “fornecedores de matéria-prima” e matá-los no final da sua “vida útil”, já que eles nos “pertencem” por serem “inferiores” a nós. Isso faz com que o abate de literalmente milhões de animais por dia ao redor do mundo seja aceito e mesmo invisibilizado, enquanto o de Juma, dos jacarés da Disney e do gorila Harambe sejam objetos de um raivoso repúdio.

O especismo nos faz acreditar que matar onças e jacarés não pode, mas não é absurdo mantê-los presos em zoológicos e parques temáticos, e que o sabor da carne do almoço, do hambúrguer, da pizza de queijo e calabresa e do omelete importa muito mais do que a vida dos animais que os “forneceram”. Ele é o responsável por perpetuar todas as violências contra não humanos as quais indignam a muitos e também aquelas que a maioria das pessoas aceita e não liga.

Se queremos realmente viabilizar um mundo em que os animais não sofram nas mãos dos humanos, o melhor a se fazer é expulsar o especismo de nossa consciência. Esse mesmo processo de desmontar esse preconceito contra os animais nos fará também enxergar muitas violências que, apesar de tão absurdas quanto o assassinato da onça Juma, acontecem sem que tenhamos conhecimento – e ocorrem com nosso apoio financeiro e moral – em fazendas, granjas, tanques e matadouros. Só assim o mundo será melhor para os animais não humanos – e também para nós humanos.

Robson Fernando De Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do vlog Canal Veganagente. Articulista desde 2007, blogueiro desde 2008, vlogueiro desde 2011. Atualmente estuda Ciências Sociais na UFPE
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