Salve a Amazônia
9 de outubro de 2020
publicado às 12h38
Pantanal bate recorde de queimadas, enquanto o governo nega as evidências

Enquanto o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursava na abertura da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) –que gera os dados oficiais de queimadas no território nacional– registrava  recordes de fogo no Pantanal –a maior planície inundável do Planeta.

Em seu discurso na ONU, Bolsonaro tratou de dar números imprecisos, culpar indígenas e ONGs em uma tentativa de confundir a audiência internacional.  O presidente brasileiro preferiu dizer que o país é vítima de “uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”. Não é que o dizem os dados do monitoramento por satélite.

Segundo o Inpe, nos 30 dias de setembro, o Pantanal acumulou 8.106 focos de calor, superando em 35% o recorde histórico de 5.993 focos registrado em agosto de 2005. Foi o maior número de focos desde que o Inpe começou o monitoramento em 1998. Em 2020, os focos de calor na região já somam 18.259, o triplo do que foi observado em 2019.

As chamas no Pantanal já consumiram cerca de 3,4 milhões de hectares desde o início do ano, o que corresponde a 23% do bioma. Espécies endêmicas de animais e plantas podem ter se perdido para sempre.
“Foi uma reprise do que já tinha ocorrido no ano passado, uma tragédia anunciada pelos especialistas em um cenário de altas temperaturas, seca, desmatamento e desobediência às leis ambientais”, avalia Mariana Napolitano, Gerente de Ciências do WWF-Brasil.

No Pantanal, os focos de calor começaram a crescer antes da temporada seca –desde março. E mesmo com a proibição de uso do fogo decretada pelo governo no início do segundo semestre, os números de focos por mês só aumentaram. A proibição vale também para a Amazônia.

Sem lei
O fogo iniciado em apenas nove fazendas do Pantanal –mesmo proibido– consumiu 141 mil hectares do bioma, segundo a Polícia Federal no âmbito da Operação Matáá, em um ensaio para tentar punir os infratores.

Na Amazônia não foi diferente. A região que foi notícia no mundo inteiro em 2019 por causa dos incêndios criminosos também apresenta elevado número de queimadas em 2020. Em agosto deste ano, foram cerca 30 mil queimadas. Setembro ficou no mesmo patamar (32 mil), ou seja, um valor 60% acima do registrado em setembro de 2019.

Na Amazônia, o fogo vem como consequência do desmatamento, que produz farto material (árvores derrubadas e outros tipos de biomassa). Na maioria das vezes, alguém inicia a combustão –normalmente uma forma de “limpeza” da área para receber sementes de capim, e depois o gado.

Sem controle, o fogo da queimada pode se tornar um incêndio e atingir grandes áreas. Foi o que houve em 2019 e se repetiu em 2020, mesmo com o uso das Forças Armadas para conter desmatamento e crimes ambientais. A presença dos militares na região –que deve seguir até 2022– não entregou os resultados prometidos, apesar dos volumosos recursos destinados pelo Congresso Nacional para a atuação das Forças Armadas no combate aos ilícitos na região.

Os dados apontam que desmatamento e queimadas seguem em níveis altos na Amazônia quando se olha toda a série histórica de monitoramento pelo Inpe ou pelos sistemas externos –incluindo a Nasa e outras plataformas internacionais que fornecem dados que confirmam o que diz o instituto oficial brasileiro. Dados de satélite monitorados pela Nasa mostram que, neste ano, 54% dos focos na Amazônia tiveram como origem o desmatamento.

Impactos sobre a biodiversidade
As imagens de araras-azuis, jacarés e onças calcinados nos incêndios do Pantanal este ano rodaram o mundo. A triste imagem, porém, não traduz a extensão dos impactos do fogo sobre a biota e os recursos hídricos. Os prejuízos serão dimensionados com o apoio do WWF-Brasil que apoia estudos de um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) para avaliar o impacto do fogo na fauna do Pantanal. O trabalho será desenvolvido por pesquisadores a partir de metodologia científica adotada pela Embrapa-Pantanal, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e que desde a década de 1980 desenvolve pesquisas para entender a complexidade socioeconômica e ambiental da região.

“A quantidade de animais encontrados mortos surpreende até mesmo os especialistas mais experientes, contudo também são observados muitos animais de pequeno porte abrigados em cavidades no solo e áreas menos afetadas pelo fogo, assim como animais de grande porte que conseguiram fugir, abrigando-se em áreas não queimadas, que agora circulam em busca de abrigo e alimento”, resume Mariana Napolitano.

Segundo ela, o solo muito rico em matéria orgânica no Pantanal pode continuar queimando por vários dias, causando acidentes com animais e pessoas, e podendo ressurgir, caso haja combustível para propagar o fogo.
Animais que conseguiram se abrigar ou fugir do fogo sofrem ainda com a falta de alimentos, pois a vegetação provedora de folhas e frutos está seca, ou definitivamente morta, no caso das espécies mais sensíveis a temperaturas excepcionalmente altas.

Fonte: WWF Brasil

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