Salve a Amazonia
6 de fevereiro de 2017
publicado às 11h44
Para povos tradicionais, Matopiba é sinônimo de destruição

Para povos tradicionais, Matopiba é sinônimo de destruição

Estudantes da Licenciatura Intercultural Indígena denunciam os impactos do projeto de desenvolvimento em curso na região 

Texto: Patrícia da Veiga

Fotos: Adriana Silva

Matopiba, “última fronteira agrícola do Brasil”, é um território que compreende parte dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. São cerca de 73 milhões de hectares que envolvem 337 municípios e 25 milhões de habitantes. A região foi “descoberta” – por assim dizer – pelo capital estrangeiro e pelo setor agroalimentar na ocasião da crise econômica de 2008. Desde então, povos tradicionais – indígenas, quilombolas, vazanteiros, geraizeiros, etc. – têm observado uma ofensiva às suas terras, vistas pelos interesses do capital como “ociosas”. Para completar, o Estado decidiu intervir. Em 2013, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) passou a realizar investigações sobre a região e em 2015 o decreto presidencial n° 8.447 criou o Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba.

Interessados em denunciar as consequências dessa realidade, estudantes da Licenciatura Intercultural Indígena se reuniram para uma roda de conversa na noite da última quarta-feira (1/2), no Núcleo Takinahakỹ de Formação Superior de Professores Indígenas, localizado no Câmpus Samambaia.  Na ocasião, representantes das etnias Xerente e Kanela, cujos territórios habitados estão, respectivamente, nos estados de Tocantins e Maranhão, foram convidados a expor suas experiências.

“Não é de hoje o que vem acontecendo em nossos territórios. No Tocantins, por exemplo, já temos empreendimentos de cana de açúcar e soja, além das hidrelétricas. Agora com esse Matopiba as coisas se complicam ainda mais”, iniciou Alexandre Chaparzane Xerente. Em sua fala, Alexandre demonstrou preocupação com o avanço de empreendimentos sobre terras outrora demarcadas e citou como exemplo a construção da Unidade Hidrelétrica do Lajeado, no Rio Tocantins. “Como pode a área ter sido delimitada por lei e, mesmo assim, o Estado intervir com uma grande obra dessas em nossas terras?”, questionou.

Da plateia, Daniel Juruna aproveitou a oportunidade para denunciar: “a reserva indígena já está sendo reserva de fazendeiro”. E questionou a todos: “para onde vai tanta soja?”. O argumento de que a produção de grãos para a exportação é importante para equilibrar a economia brasileira não é aceito pelos indígenas, que denunciam a miséria instalada nos territórios. “Em lugares onde se vive da caça, por exemplo, os animais estão morrendo e as pessoas estão passando fome”, argumentou Rafael Dakuke Xerente.

De acordo com o texto do decreto n° 8.447/2015, o Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba tem como objetivo “promover e coordenar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico sustentável fundado nas atividades agrícolas e pecuárias que resultem na melhoria da qualidade de vida da população”. Para os indígenas, porém, essa intenção fica apenas no papel. Sara Wokwyj Canela lembrou o que mudou no território Memõrtumre, onde vive, desde que o agronegócio avançou para o estado do Maranhão. “Dizem que esse projeto de desenvolvimento não vai impactar o bioma Cerrado, mas sabemos que para que ele aconteça é preciso desmatar. E o desmatamento está provocando fortes mudanças climáticas. Na minha aldeia já não chove no tempo certo e isso vem prejudicando nossas colheitas”, explicou.

A mediação foi feita pelo professor Pedro Vasconcelos, do curso de Ciências Políticas. Buscando dialogar com os relatos, ele apresentou sua leitura sobre o tema, destacando a insuficiência da política desenvolvimentista em tempos de colapso ambiental. “Intervenções nesse sentido foram marcantes no período militar. O que acontece no caso do Matopiba? Criam-se fronteiras, criam-se objetivos de mercado, mas talvez não se tenha mais para onde crescer”, analisou.

Cosmovisão

Unânime entre os presentes foi a constatação de que no cerne do problema está a diferença entre visões de mundo. Quando os indígenas questionam a ideia de desenvolvimento vigente, baseada nas relações de produção engendradas pelo capital, apontam para outra forma de se relacionar com a terra que pressupõe outros modos de compreender a vida. Isso é justamente o que vem sendo desconsiderado e, portanto, gerando violência. “Há vários fins de mundo em curso, vários povos morrendo e perdendo suas terras, suas culturas. E o que temos com isso? O que a universidade está fazendo em relação a isso?”, provocou o professor Alexandre Herbetta, coordenador do Núcleo Takinahakỹ.

O evento foi organizado pelo Núcleo de Etnologia Indígena (Impej), projeto de extensão vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS). O objetivo foi aprofundar um debate iniciado em sala de aula, durante a realização das disciplinas – chamadas de temas contextuais – da etapa 2017/1. Na próxima quarta-feira (8/2), às 18h, a roda de conversa será sobre o uso do audiovisual como método de pesquisa e intervenção narrativa.

Fonte : Ascom UFG

Compartilhar
Comentários 
0
Escreva um comentário

Portal da Amazônia Legal © Todos direitos reservados 2014