Salve a Amazônia
10 de agosto de 2020
publicado às 09h11
Riscos à saúde após explosão incluem poeira tóxica e chuva ácida

O rescaldo da megaexplosão causada por nitrato de amônio que devastou Beirute, capital do Líbano, pode causar sérios riscos à saúde da população, alerta um especialista ouvido pela BBC News Brasil.

Segundo Gabriel da Silva, professor do Departamento de Engenharia Química e Biomolecular na Universidade de Melbourne, na Austrália, o principal dele é a inalação de gases tóxicos.

“Uma explosão de nitrato de amônio produz grandes quantidades de óxidos de nitrogênio. O dióxido de nitrogênio (NO₂) é um gás vermelho com mau cheiro. Imagens de Beirute revelam uma cor avermelhada distinta na nuvem de gases que se formou a partir da explosão”, diz ele em entrevista à BBC News Brasil por telefone.

“Os óxidos de nitrogênio estão geralmente presentes na poluição do ar urbano e podem irritar o sistema respiratório. Níveis elevados desses poluentes são particularmente preocupantes para pessoas com problemas respiratórios”, acrescenta.

Silva lembra que a fumaça deve apresentar um risco à saúde dos moradores da capital libanesa “até que ela se dissipe naturalmente, o que pode levar vários dias, dependendo do clima”.

Ele acrescenta que outro risco para a saúde é a inalação de poeira das construções que desabaram devido à magnitude da explosão.

Vale lembrar que essa nuvem de poeira foi a causa de problemas respiratórios, quando não de morte, de muitos após o atentado às Torres Gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

Vários deles inalaram nos dias que se seguiram ao ataque partículas microscópicas resultantes de materiais de construção moído, muitos deles altamente tóxicos, como amianto, chumbo, fibra de vidro e mercúrio.

‘Chuva ácida’

Silva acrescenta ainda que esses gases expelidos pela explosão poderiam causar chuva ácida.

Isso ocorre “quando os óxidos de nitrogênio lançados na atmosfera reagem com a água das chuvas nas nuvens, produzindo o fenômeno”, explica.

A chuva ácida pode desencadear vários estragos ambientais, causando problemas para as plantas, para o solo, para os animais, para as águas de rios e lagos, além de contaminar também o lençol freático. Oferece, assim, um perigo também aos seres humanos.

Vista aérea mostra destruição após megaexplosão no porto de Beirute, no LíbanoDireito de imagemAFP
Image captionPorto de Beirute foi reduzido a cinzas após megaexplosão

Fertilizante

Silva explica que o nitrato de amônio é usado, primordialmente, como fertilizante em forma de grânulos, altamente solúveis em água e que os agricultores compram em grandes quantidades. Também é um dos principais componentes de explosivos usados em minas, onde é misturado com óleo combustível e detonado por carga explosiva.

Mas ele ressalva que para que ocorra “uma tragédia com nitrato de amônio, muita coisa precisa dar errado”.

Silva lembra que a substância “não queima por conta própria”.

“Em vez disso, atua como uma fonte de oxigênio que pode acelerar a combustão (queima) de outros materiais”, diz.

“Para que ocorra combustão, o oxigênio deve estar presente. Os comprimidos de nitrato de amônio fornecem um suprimento de oxigênio muito mais concentrado do que o ar ao nosso redor. É por isso que é eficaz na mineração de explosivos, onde é misturado com petróleo e outros combustíveis”, acrescenta.

Segundo autoridades locais, a megaexplosão deixou pelo menos 100 pessoas mortas e milhares de feridas. Muitas outras seguem desaparecidas. Cerca de 300 mil estão desabrigadas.

A explosão teria sido causada por 2.570 toneladas de nitrato de amônio armazenadas de forma perigosa no porto de Beirute, após terem sido confiscadas de um navio que saiu da Geórgia com destino a Moçambique há mais de seis anos.

O governo libanês decretou Estado de emergência por duas semanas. Três dias de luto oficial também foram anunciados.

O Líbano vem sofrendo com uma grave crise econômica, política e de saúde, com a pandemia do coronavírus.

Fonte: BBC News Brasil

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