Políticas de restauração da vegetação nativa no Mato Grosso do Sul
4 de janeiro de 2026 às 14:29h
O encontro reuniu representantes indígenas, quilombolas e de assentamentos de reforma agrária para discutir ações e o protagonismo das comunidades em projetos ambientais do estado
O WWF-Brasil realizou, nos dias 26 e 27 de novembro, o evento “A restauração que queremos – Encontro para Comunidades do Mato Grosso do Sul”. O evento reuniu representantes de seis das oito etnias indígenas (Guarani, Kaiowá, Terena, Kadiwéu, Guató e Ofayé) do MS de 15 territórios, oito quilombos, seis assentamentos da reforma agrária e duas comunidades ribeirinhas com o objetivo de trocar, discutir e indicar ações e oportunidades para dar escala à restauração da vegetação nativa no estado do MS, incluindo os saberes tradicionais locais. Por meio de dinâmicas participativas, foram coletadas informações valiosas que irão prover subsídios para elaboração de políticas públicas estaduais associadas ao Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e ao Plano Indígena de Restauração de Ecossistemas (PIRE).
A iniciativa faz parte de um esforço iniciado em 2022 para fortalecer a governança participativa e inclusiva da cadeia de restauração no MS, composta por governos, empresas, comunidades, organizações da sociedade civil e universidades. O Mato Grosso do Sul vive uma janela de oportunidade para construir políticas de restauração, integrando o conhecimento científico e o tradicional, com potencial para inspirar caminhos para o Brasil.
“O Planaveg é a principal política pública voltada à restauração da vegetação nativa, uma resposta concreta às crises do clima e da natureza. O WWF-Brasil desenvolve ações alinhadas aos objetivos estruturantes do plano, atuando em territórios prioritários e sempre buscando incluir as comunidades, as mulheres e os conhecimentos locais em todas as etapas de um projeto, da concepção à implementação das ações”, explica Veronica Maiolli, Especialista de Conservação do WWF-Brasil. “A articulação multissetorial que promovemos fortalece a estratégia nacional e subnacional de restauração, conectando políticas públicas, sociedade civil e setores econômicos”, complementa.
Comunidades no centro da construção da restauração
Consultas às comunidades e sua inclusão na tomada de decisão são essenciais em qualquer ação que envolva intervenções nos territórios. Com elas, o WWF-Brasil busca compreender as práticas, expectativas e prioridades locais em relação à restauração.
“Nesse encontro, diferentes povos e saberes foram reunidos em rodas de conversa sobre restauração da vegetação nativa, incluindo a restauração produtiva com pomares e quintais, produtos da sociobiodiversidade, além dos desafios, oportunidades e um plano de ação para ampliar os plantios em comunidades tradicionais e rurais do estado. Permitindo que suas vozes e desejos sejam ouvidos possibilitando assim, a integração e empoderamento das comunidades” acrescenta a especialista.
Para os representantes das comunidades tradicionais, dinâmicas como a do encontro deveriam ser utilizadas nas consultas para identificar a real necessidade de apoio de cada comunidade. Para Vergínia Justiniano Paz, presidente da Associação Comunidade Ribeirinha APA Baía Negra, o encontro foi importante para que as comunidades conhecessem experiências que podem ser replicadas ou servir de inspiração. “É o primeiro encontro que participo com várias comunidades , como quilombolas, indígenas, ribeirinhos e outras comunidades. Eu acredito que será o primeiro de muitos outros”. Segundo ela, o aprendizado do encontro será replicado no território. “Estou levando para a nossa comunidade conhecimento e a experiência de tudo isso que eu vivi hoje”.
Neiriel Pires Almeida, da Terra Indígena Cachoeirinha, afirma que as terras indígenas hoje no Brasil têm desenvolvido um papel importante na cadeia da restauração. Ele reforça que essas consultas e o diálogo constante fazem com que as ações tenham sucesso nesses territórios e até fora deles. “Esse mecanismo permite entender as especificidades e a diversidade de determinada terra indígena e faz com que os processos se fortaleçam ao longo da caminhada da cadeia da restauração”.
Para Veronica, a prática do WWF-Brasil de realizar eventos inclusivos com diferentes agentes e setores envolvidos na cadeia da restauração é a forma correta de contemplar todas as vozes. “A cadeia de restauração é feita por muitas mãos, e essas mãos precisam estar presentes em todas as etapas. As comunidades — principalmente as tradicionais, indígenas, rurais e de assentamento — precisam ser incluídas em todo o ciclo de um projeto, não apenas na implementação, na coleta de sementes ou no trabalho com viveiros”.
A especialista reforça que é importante que elas tenham voz em todas as fases, incluindo o planejamento e a definição do que será feito e onde. “Essa tomada de decisão precisa incluir as comunidades, e um evento como esse permite que elas sejam ouvidas, que troquem informações entre si, entre comunidades e entre etnias, promovendo diversidade, inclusão e uma troca verdadeira — não só de experiências, mas de conhecimento”.
Governança e colaboração na construção do plano estadual
O encontro deu continuidade a uma série de oficinas realizadas desde 2022, sendo a última em junho de 2025, que resultou em um diagnóstico técnico e socioeconômico sobre onde e como restaurar áreas no estado, feito em parceria com a Semadesc. A proposta é que tanto o diagnóstico quanto os resultados do encontro sirvam de base para a elaboração do plano estadual de restauração da vegetação nativa do MS, representando uma articulação multissetorial e servindo de subsídio para o Plano Indígena de Restauração de Ecológica.
Fonte: WWF Brasil – Por Roberta Rodrigues