COP15: Sítios Ramsar na Amazônia reforçam papel estratégico na proteção de espécies migratórias
1 de abril de 2026 às 14:30h
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é o maior de águas pretas do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares, e foi pauta na COP15 sobre Espécies Migratórias
As zonas úmidas da Amazônia estiveram no centro das discussões sobre estratégias para a conservação de espécies migratórias no Brasil. Durante dois debates realizados na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, realizada em Campo Grande, especialistas reforçaram que proteger esses territórios exige fortalecer a governança local e reconhecer o papel das populações que vivem nessas áreas.
Realizados nos dias 26 e 27 de março, os encontros abordaram desde a governança territorial até os desafios enfrentados por espécies migratórias em paisagens aquáticas cada vez mais pressionadas. Em comum, as discussões apontaram que a conservação depende da integridade dos ecossistemas e da participação ativa das comunidades.
O primeiro painel, realizado no Espaço Brasil (Zona Azul), trouxe experiências de Sítios Regionais da Amazônia, os sítios Ramsar no Rio Negro, no Juruá e no estuário da foz do Amazonas, evidenciando que a governança territorial é um dos pilares da conservação.
Nessas experiências, o monitoramento comunitário tem sido fundamental não apenas para registrar mudanças ambientais, mas também para fortalecer a autonomia dos territórios.

As falas também evidenciaram que as mudanças nos padrões das espécies migratórias já são perceptíveis localmente. Alterações no comportamento de peixes e aves têm sido observadas com maior frequência, reforçando a urgência de ações integradas.
Neste contexto, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (AIMA) Tiago Pacheco apresentou pesquisa intercultural na região do Rio Negro sobre aves migratórias nos ciclos anuais, onde se tem observado a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas.
Participaram da mesa Renata Alves, ecóloga e analista de geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU), Gabriela Soeiro, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT/ICMBio), Selma Ribeiro, do Centro Nacional de Pesquisa em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC/ICMBio), Tiago Pacheco, AIMA do Rio Negro, e Guillermo Estupiñán, da Wildlife Conservation Society (WCS)
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas de importância internacional do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares. A área abrange um mosaico de oito terras indígenas e unidades de conservação municipal, estadual e federal, localizados no noroeste amazônico, formando um dos maiores contínuos de florestas e rios preservados do planeta. A alta diversidade biológica da região inclui animais em extinção como o peixe-boi-da-Amazônia e o boto-cor-de-rosa.
Segundo Renata Alves, o processo de governança do sítio está diretamente relacionado à articulação com os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas que compõem esse território. Esses instrumentos, elaborados pelos povos indígenas, orientam o uso, a proteção e o manejo dos recursos naturais.
“A governança neste sítio não começa do zero, ela se baseia em instrumentos que já existem e que expressam como os povos querem cuidar dos seus territórios”, destaca.

Conectividade ecológica
No segundo painel, que discutiu paisagens aquáticas e suas vulnerabilidades e oportunidades, realizado pelo ISA, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), especialistas destacaram que espécies migratórias dependem de grandes áreas conectadas para sobreviver.

A fragmentação de habitats, causada por desmatamento, mudanças hidrológicas e grandes obras de infraestrutura, foi apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade. “As espécies migratórias precisam de continuidade. Quando você rompe essa conectividade, você compromete todo o ciclo de vida dessas espécies”, alerta Jochen Schongart, pesquisador do INPA.
Ao mesmo tempo, os Sítios Ramsar foram apresentados como uma oportunidade estratégica para integrar conservação, ciência e políticas públicas, ampliando a visibilidade internacional dessas áreas e organizando esforços de conservação em larga escala.
Nesse contexto, especialistas também chamaram atenção para o papel das florestas públicas não destinadas na Amazônia, que somam cerca de 50 milhões de hectares e ainda aguardam definição fundiária por parte dos governos. Sem destinação, essas áreas permanecem altamente vulneráveis à grilagem e ao desmatamento.
“A destinação dessas florestas é uma agenda urgente. É uma oportunidade concreta de reduzir a pressão sobre a Amazônia e, ao mesmo tempo, garantir conectividade ecológica em larga escala”, destacou Carlos Durigan, pesquisador do Ipam.
Segundo ele, a criação de unidades de conservação, o reconhecimento de territórios tradicionais, como indígenas e quilombolas, e outras formas de uso sustentável podem transformar essas áreas em corredores ecológicos estratégicos, fundamentais para a manutenção dos fluxos das espécies migratórias e para a proteção das zonas úmidas no país.
Os Sítios Ramsar são áreas úmidas reconhecidas internacionalmente por sua importância para a conservação da biodiversidade. O título é concedido no âmbito da Convenção de Ramsar, um acordo global criado em 1971 para promover a proteção e o uso sustentável desses ecossistemas.
As zonas úmidas incluem ambientes como rios, lagos, áreas alagadas, manguezais e florestas inundáveis, que são ecossistemas fundamentais para a conservação da água, do clima e da vida silvestre.
Fonte: ISA – Por Vanessa Fernandes