{"id":10018,"date":"2025-08-26T14:03:54","date_gmt":"2025-08-26T17:03:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=10018"},"modified":"2025-08-31T14:12:42","modified_gmt":"2025-08-31T17:12:42","slug":"projetos-que-autorizam-garimpo-e-exploracao-economica-em-terras-indigenas-avancam-no-senado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/projetos-que-autorizam-garimpo-e-exploracao-economica-em-terras-indigenas-avancam-no-senado\/","title":{"rendered":"Projetos que autorizam garimpo e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em Terras Ind\u00edgenas avan\u00e7am no Senado"},"content":{"rendered":"<p>Apib e ISA alertam que medidas aprovadas atropelam a Constitui\u00e7\u00e3o e podem aprofundar a destrui\u00e7\u00e3o ambiental e impor crise humanit\u00e1ria para povos ind\u00edgenas<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o de Direitos Humanos e Legisla\u00e7\u00e3o Participativa (CDH) do Senado aprovou, nos dias 13 e 20 de agosto, dois Projetos de Lei (PLs) que abrem as Terras Ind\u00edgenas a atividades econ\u00f4micas como minera\u00e7\u00e3o, garimpo, explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s, gera\u00e7\u00e3o de energia, agricultura comercial e turismo. As medidas (o PL 6.050\/2023 e o PL 1.331\/2022) representam uma viola\u00e7\u00e3o direta da Constitui\u00e7\u00e3o Federal e dos tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Ambos os PLs s\u00e3o ataques aos direitos constitucionais dos povos ind\u00edgenas, vez que relativizam quest\u00f5es como o usufruto exclusivo dos territ\u00f3rios, colocando em risco as comunidades que ir\u00e3o sofrer com aliciamento de terceiros n\u00e3o ind\u00edgenas&#8221;, afirma Ricardo Terena, coordenador do departamento jur\u00eddico da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (Apib).<\/p>\n<p>No dia 13, a comiss\u00e3o aprovou o <a href=\"https:\/\/legis.senado.leg.br\/sdleg-getter\/documento?dm=9529004&amp;ts=1755780144443&amp;disposition=inline\">PL 6.050\/2023<\/a>, originado da CPI das ONGs, em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/live\/dH3TcCfh-3Q?si=SI7hTyF4EJja0fFO&amp;t=3564\">vota\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica<\/a> que durou menos de um minuto. O texto legaliza a explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais em territ\u00f3rios ind\u00edgenas e permite que comunidades firmem parcerias com empresas p\u00fablicas, privadas ou cooperativas de garimpeiros. O projeto segue agora para as Comiss\u00f5es de Servi\u00e7os de Infraestrutura, Meio Ambiente e Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a antes de chegar ao Plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 20 de agosto, a CDH aprovou o <a href=\"https:\/\/legis.senado.leg.br\/sdleg-getter\/documento?dm=9160990&amp;ts=1755714942267&amp;disposition=inline\">PL 1.331\/2022<\/a>, de autoria do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), que autoriza a pesquisa e a lavra garimpeira em Terras Ind\u00edgenas por terceiros, mediante consentimento das comunidades. Embora o texto pro\u00edba a minera\u00e7\u00e3o industrial em \u00e1reas de povos isolados, especialistas apontam que ele abre brechas graves ao fragilizar o usufruto exclusivo garantido pela Constitui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o oferecer salvaguardas efetivas para a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>O projeto tem car\u00e1ter terminativo, ou seja, se aprovado nas comiss\u00f5es designadas, pode seguir diretamente para a C\u00e2mara dos Deputados sem passar pelo Plen\u00e1rio do Senado. Ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o na CDH, a proposta foi encaminhada \u00e0 Comiss\u00e3o de Meio Ambiente (CMA).<\/p>\n<p>Para Renata Vieira, advogada do Instituto Socioambiental (ISA), a aprova\u00e7\u00e3o dos projetos pela CDH revela um conflito central: sob o argumento de promover autonomia e desenvolvimento econ\u00f4mico, as propostas acabam submetendo os povos ind\u00edgenas a regras impostas de fora, alinhadas sobretudo a interesses empresariais e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>\u201cSem garantias efetivas de consulta pr\u00e9via, fortalecimento da Funai e respeito ao regime constitucional, a regulamenta\u00e7\u00e3o pode abrir caminho para a legaliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas que hoje destroem Terras Ind\u00edgenas e colocam em risco a sobreviv\u00eancia f\u00edsica e cultural dessas comunidades\u201d, explica. Al\u00e9m disso, a advogada aponta que a regulamenta\u00e7\u00e3o de garimpo em Terra Ind\u00edgena \u00e9 inconstitucional, pois possui veda\u00e7\u00e3o expressa no texto constitucional.<\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/apiboficial.org\/files\/2025\/08\/2023.pdf\">nota t\u00e9cnica<\/a>, a Apib classificou os dois projetos como inconstitucionais. Para a entidade, as propostas desrespeitam o Artigo 231 da Constitui\u00e7\u00e3o, que garante aos povos ind\u00edgenas o usufruto exclusivo das riquezas de suas terras, al\u00e9m de violarem a Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), que obriga a consulta livre, pr\u00e9via e informada \u00e0s comunidades afetadas.<\/p>\n<p>A Apib ressalta ainda que h\u00e1 um v\u00edcio formal grave: os projetos tratam de temas que a Constitui\u00e7\u00e3o determina que sejam regulamentados por lei complementar \u2014 que exige maioria absoluta no Congresso e debate mais rigoroso \u2014, mas est\u00e3o sendo apresentados como leis ordin\u00e1rias, de tramita\u00e7\u00e3o simplificada. Essa escolha, segundo a entidade, fere o devido processo legislativo e compromete a validade jur\u00eddica das propostas.<\/p>\n<p>Outro ponto destacado \u00e9 a tentativa de justificar a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sob a ret\u00f3rica de conferir \u201cautonomia\u201d \u00e0s comunidades, o que para a Apib constitui uma falsa autonomia: a decis\u00e3o, na pr\u00e1tica, seria condicionada a interesses de empresas e investidores externos. As propostas \u201cacentuam os conflitos nos territ\u00f3rios, fragilizam os instrumentos de prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade e da gest\u00e3o territorial e ambiental ind\u00edgena, e abrem caminho para viola\u00e7\u00f5es generalizadas aos direitos humanos\u201d, afirma a organiza\u00e7\u00e3o em Nota T\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Os dados citados pela Apib refor\u00e7am a gravidade da amea\u00e7a. Estima-se que <a href=\"https:\/\/climainfo.org.br\/2024\/04\/08\/fiocruz-detecta-alto-nivel-de-contaminacao-por-mercurio-no-povo-yanomami\/\">90% dos Yanomami de nove aldeias j\u00e1 estejam contaminados por merc\u00fario<\/a> decorrente da atividade garimpeira. Entre 2019 e 2022, 570 crian\u00e7as Yanomami morreram por causas diretamente ligadas ao avan\u00e7o do garimpo ilegal, como desnutri\u00e7\u00e3o, mal\u00e1ria e falta de atendimento m\u00e9dico.<\/p>\n<p>No sul da Bahia, o povo Patax\u00f3 <a href=\"https:\/\/apoinme.org\/contra-a-extracao-de-areia-e-por-defender-as-nascentes-dos-rios-barrinha-rio-do-peixe-grande-rio-do-peixe-pequeno-e-represa-de-cumuruxatiba-indigenas-da-ti-comexatiba-recebem-ameacas-por-grileiro\/\">denuncia a destrui\u00e7\u00e3o de nascente<\/a>s e cursos d\u2019\u00e1gua causada pela extra\u00e7\u00e3o de terras raras. No Par\u00e1, comunidades Munduruku <a href=\"https:\/\/apiboficial.org\/2024\/02\/26\/indigenas-do-povo-munduruku-tem-niveis-alarmantes-de-mercurio-no-corpo-aponta-fiocruz\/\">enfrentam viol\u00eancia armada, presen\u00e7a de fac\u00e7\u00f5es criminosas e desestrutura\u00e7\u00e3o cultural<\/a> ligada \u00e0 invas\u00e3o de garimpeiros. Impactos como esses\u00a0 demonstram que a legaliza\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o e de outras atividades econ\u00f4micas dificilmente resolveria os problemas do garimpo ilegal, mas poderia agrav\u00e1-los ao dar apar\u00eancia de legalidade a pr\u00e1ticas j\u00e1 devastadoras.<\/p>\n<p>Durante as vota\u00e7\u00f5es, defensores dos projetos argumentaram que a regulamenta\u00e7\u00e3o poderia trazer mais transpar\u00eancia e reduzir a atividade clandestina. Mecias de Jesus afirmou que o PL 1.331\/2022 garante \u201cbenef\u00edcios diretos\u201d \u00e0s comunidades ind\u00edgenas, enquanto a presidente da CDH, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), defendeu que o Grupo de Trabalho sobre a Regulamenta\u00e7\u00e3o da Minera\u00e7\u00e3o em Terras Ind\u00edgenas, criado em abril de 2025 e coordenado pela senadora Tereza Cristina (Progressistas-MS), deveria articular todas as propostas sobre o tema. At\u00e9 o momento o GT n\u00e3o foi institu\u00eddo formalmente.<\/p>\n<p>Durante a vota\u00e7\u00e3o, os senadores Augusta Brito (PT-CE) e Paulo Paim (PT-RS) fizeram duras cr\u00edticas ao PL 1331\/2022. Brito alertou que a minera\u00e7\u00e3o em Terras Ind\u00edgenas comprovadamente impacta de forma devastadora mulheres e crian\u00e7as, citando casos de abortos espont\u00e2neos e mortes infantis ligadas \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, al\u00e9m das 570 crian\u00e7as Yanomami mortas entre 2019 e 2022 em meio \u00e0 crise humanit\u00e1ria agravada pelo garimpo. Ela refor\u00e7ou que n\u00e3o h\u00e1 urg\u00eancia em aprovar a proposta sem antes ouvir os povos diretamente afetados, pedindo que o debate seja aprofundado no grupo de trabalho criado no Senado.<\/p>\n<p>J\u00e1 Rog\u00e9rio Carvalho (PT-SE) destacou, em seu voto separado lido pelo senador Paulo Paim (PT-RS), que qualquer atividade mineral em territ\u00f3rios ind\u00edgenas tem impacto irrevers\u00edvel sobre comunidades e ecossistemas, lembrando que o garimpo ilegal tem provocado envenenamento por merc\u00fario, viol\u00eancia, prostitui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de meninas, avan\u00e7o do crime organizado e lavagem de dinheiro com ouro ilegal. Para ele, a proposta falha em garantir salvaguardas aos direitos humanos, ignora a diversidade dos povos ind\u00edgenas e incorre em inconstitucionalidades, raz\u00e3o pela qual defendeu sua rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a Apib, os PLs 6.050\/2023 e 1.331\/2022 n\u00e3o apenas colocam em risco a prote\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m afrontam o princ\u00edpio da veda\u00e7\u00e3o ao retrocesso em direitos fundamentais \u201cuma vez que violam o usufruto exclusivo dos territ\u00f3rios e autorizam atividades de elevado impacto socioambiental no interior dos territ\u00f3rios, colocando as comunidades ind\u00edgenas em risco\u201d, alerta Ricardo Terena.<\/p>\n<p>Fonte: ISA &#8211; Por Carolina Fasolo &#8211; Foto &#8211; Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apib e ISA alertam que medidas aprovadas atropelam a Constitui\u00e7\u00e3o e podem aprofundar a destrui\u00e7\u00e3o ambiental e impor crise humanit\u00e1ria para povos ind\u00edgenas A Comiss\u00e3o de Direitos Humanos e Legisla\u00e7\u00e3o Participativa (CDH) do Senado aprovou, nos dias 13 e 20 de agosto, dois Projetos de&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10019,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19,1614,35,31,33,2],"tags":[1195],"class_list":["post-10018","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-area-2","category-indigenas","category-meio-ambiente","category-para","category-roraima","category-slideshow","tag-destruicao-ambiental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10018","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10018"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10018\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10020,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10018\/revisions\/10020"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10019"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}