{"id":10992,"date":"2026-09-01T21:06:02","date_gmt":"2026-09-02T00:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=10992"},"modified":"2026-09-01T21:06:02","modified_gmt":"2026-09-02T00:06:02","slug":"cop-da-desertificacao-falha-em-criar-mecanismo-global-contra-seca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/cop-da-desertificacao-falha-em-criar-mecanismo-global-contra-seca\/","title":{"rendered":"COP da Desertifica\u00e7\u00e3o falha em criar mecanismo global contra seca"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Maristela Crispim*<\/strong><\/p>\n<p>Frequ\u00eancia e dura\u00e7\u00e3o das secas aumentaram 29% em todo mundo desde 2000. At\u00e9 2050, tr\u00eas em cada quatro pessoas poder\u00e3o ser afetadas pelo problema<\/p>\n<p><strong>Ulaanbaatar, Mong\u00f3lia\u00a0<\/strong>\u2013 Em um cen\u00e1rio marcado por extremos clim\u00e1ticos, a diplomacia multilateral testou seus limites nas \u00faltimas semanas para tra\u00e7ar o destino das terras secas globais durante a 17\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o (COP17), finalizada na sexta-feira (28) na capital da Mong\u00f3lia.<\/p>\n<p>Entre calor intenso, chuvas fortes e ventos frios, cerca de 23 mil participantes reuniram-se em uma regi\u00e3o que sente diretamente os desafios da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, com cerca de 77% de suas terras afetadas pela desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar de ter historicamente recebido menos aten\u00e7\u00e3o que sua irm\u00e3 focada no clima, a Confer\u00eancia da ONU sobre Desertifica\u00e7\u00e3o nada tem de secund\u00e1ria: atualmente, cerca de 40% das terras do mundo est\u00e3o degradadas e, por isso, mais vulner\u00e1veis \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o. Em um mundo mais seco \u2013 desde 2000, a frequ\u00eancia e a dura\u00e7\u00e3o das estiagens no mundo aumentaram 29% e at\u00e9 2050 tr\u00eas em cada quatro pessoas poder\u00e3o ser afetadas por epis\u00f3dios de seca \u2013 enfrentar este cen\u00e1rio se torna urgente.<\/p>\n<p>O encontro de Ulaanbaatar, no entanto, colocou em evid\u00eancia as fragilidades do multilateralismo ecol\u00f3gico. Enquanto o El Ni\u00f1o ganha intensidade e agrava estiagens em todo mundo, os negociadores n\u00e3o conseguiram chegar a um acordo sobre uma estrutura global de combate \u00e0 seca, de forma a mudar a gest\u00e3o do problema de uma resposta \u00e0 crise para uma abordagem de preven\u00e7\u00e3o. O tema vinha sendo negociado h\u00e1 dois anos, mas a resolu\u00e7\u00e3o foi empurrada para a pr\u00f3xima confer\u00eancia, em 2028, no Egito.<\/p>\n<p>O quadro global para seca\u00a0 \u2013 na forma de um protocolo juridicamente vinculativo ou volunt\u00e1rio \u2013 tinha o objetivo de ajudar cada pa\u00eds a desenvolver, atualizar e implementar planos nacionais para o problema, ao inv\u00e9s de tratar a seca puramente como uma crise que deve ser endere\u00e7ada quando ela ocorre. A \u00fanica decis\u00e3o concreta e estrutural tomada foi tornar o tema da seca um item de agenda independente na COP18 e nas COPs futuras, garantindo-lhe um lugar permanente em vez de um tratamento pontual.<\/p>\n<p>A culpa para esta falta de avan\u00e7o recai em um pequeno grupo de pa\u00edses, liderados pelos EUA, que bloqueou a cria\u00e7\u00e3o de instrumentos vinculativos \u2013 ou mesmo volunt\u00e1rios \u2013 alegando que os epis\u00f3dios de seca ao redor do mundo s\u00e3o problemas internos ou regionais, e n\u00e3o um desafio global que exige respostas neste mesmo n\u00edvel.<\/p>\n<p>Outro balde de \u00e1gua fria que a COP17 lan\u00e7ou sobre seus participantes foi em rela\u00e7\u00e3o ao principal tema de entrave comum \u00e0s confer\u00eancias da ONU: dinheiro. Durante o evento, foi anunciado um portf\u00f3lio de financiamento de US$ 1,3 bilh\u00e3o para restaura\u00e7\u00e3o de terras e resili\u00eancia \u00e0 seca em 23 pa\u00edses. Apesar de bem-vinda, a soma representa apenas uma fra\u00e7\u00e3o da lacuna de financiamento anual para tais a\u00e7\u00f5es, estimada em US$278 bilh\u00f5es.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-41951\" src=\"https:\/\/oc.eco.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/AFP__20260824__C6CK764__v1__HighRes__MongoliaEnvironmentDiplomacyClimateCop17-1024x683.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/oc.eco.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/AFP__20260824__C6CK764__v1__HighRes__MongoliaEnvironmentDiplomacyClimateCop17-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/oc.eco.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/AFP__20260824__C6CK764__v1__HighRes__MongoliaEnvironmentDiplomacyClimateCop17-300x200.jpg 300w, https:\/\/oc.eco.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/AFP__20260824__C6CK764__v1__HighRes__MongoliaEnvironmentDiplomacyClimateCop17-768x512.jpg 768w, https:\/\/oc.eco.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/AFP__20260824__C6CK764__v1__HighRes__MongoliaEnvironmentDiplomacyClimateCop17-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/oc.eco.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/AFP__20260824__C6CK764__v1__HighRes__MongoliaEnvironmentDiplomacyClimateCop17-2048x1365.jpg 2048w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" data-od-added-loading=\"\" data-od-replaced-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" data-od-xpath=\"\/HTML\/BODY\/DIV[@id='app']\/*[2][self::MAIN]\/*[8][self::FIGURE]\/*[1][self::IMG]\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">M\u00fasicos participam da cerim\u00f4nia de abertura da 17\u00aa Sess\u00e3o da Confer\u00eancia das Partes (COP17) da Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o (UNCCD), em Ulaanbaatar, em 24 de agosto de 2026. Foto: Hector RETAMAL \/ AFP<\/figcaption><\/figure>\n<p>Falando em dinheiro, tamb\u00e9m foi lan\u00e7ado em Ulaanbaatar um Mecanismo de Investimento para a Resili\u00eancia \u00e0 Seca, capitaneado pela UNCCD (Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o) e o governo de Luxemburgo, com o objetivo de mobilizar at\u00e9 US$ 400 milh\u00f5es em capital p\u00fablico e privado para a resili\u00eancia \u00e0 seca.<\/p>\n<p><strong>Protagonismo brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>No tabuleiro diplom\u00e1tico da COP17, o Brasil refor\u00e7ou o papel de lideran\u00e7a que tem assumido nas conven\u00e7\u00f5es da ONU ao apresentar sua meta volunt\u00e1ria de Neutralidade da Degrada\u00e7\u00e3o da Terra (LDN) para 2030.<\/p>\n<p>O plano brasileiro estabelece o compromisso de alcan\u00e7ar a neutralidade em 367 milh\u00f5es de hectares, o equivalente a mais de 43% do territ\u00f3rio nacional. Desse total, a imensa maioria das a\u00e7\u00f5es destina-se a evitar novos processos de degrada\u00e7\u00e3o em \u00e1reas preservadas, enquanto 16,3 milh\u00f5es de hectares ser\u00e3o objeto de recupera\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o ativa at\u00e9 o fim da d\u00e9cada.<\/p>\n<p>O chefe da delega\u00e7\u00e3o brasileira, ministro do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima, Jo\u00e3o Paulo Capobianco, defendeu de forma contundente que \u201capresentar esta meta \u00e9 um gesto de fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es globais\u201d de combate \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Capobianco alertou para a gravidade do problema ao indicar que se o Brasil falhar em proteger suas terras produtivas, poder\u00e1 comprometer gravemente sua pr\u00f3pria economia e a seguran\u00e7a alimentar de cerca de 190 na\u00e7\u00f5es parceiras que dependem das exporta\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas brasileiras.<\/p>\n<p>Em suas manifesta\u00e7\u00f5es, Capobianco tamb\u00e9m afirmou que o Brasil pretende liderar a quebra de hierarquia entre as confer\u00eancias da ONU, de forma a conferir maior destaque \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o da Desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Caatinga como destaque na atua\u00e7\u00e3o Brasileira<\/strong><\/p>\n<p>Uma das principais vitrines brasileiras para alcan\u00e7ar sua LDC \u00e9 o Programa Recaatingar, elaborado pelo governo federal com apoio da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO) para restaurar os 10 milh\u00f5es de hectares da Caatinga atualmente em alto est\u00e1gio de degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Adotando a \u00f3tica da restaura\u00e7\u00e3o socioprodutiva, o programa visa aliar a recupera\u00e7\u00e3o florestal \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda na base dos territ\u00f3rios. O diretor de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o do MMA, Alexandre Pires, explicou que a filosofia do programa \u201cn\u00e3o \u00e9 para pensar na restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica apenas, mas sim na restaura\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva dessas terras degradadas\u201d para garantir que as comunidades locais permane\u00e7am e prosperem em seus territ\u00f3rios de origem com sustentabilidade.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o \u00e9 salvaguarda para a degrada\u00e7\u00e3o, diz o bi\u00f3logo e professor da Universidade Federal do Vale do S\u00e3o Francisco (Univasf), Renato Garcia Rodrigues. \u201cA gente tem que pegar os conhecimentos que existem para trabalhar com a Caatinga com ela de p\u00e9, com ela manejada, com ela sustentada\u201d, disse.<\/p>\n<p>A Caatinga \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o semi\u00e1rida mais biodiversa e populosa do mundo, com mais de 4 mil esp\u00e9cies vegetais com adapta\u00e7\u00f5es evolutivas sofisticadas para enfrentar a seca.<\/p>\n<p>Para financiar essa transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica de larga escala, o Brasil presenciou a articula\u00e7\u00e3o de um ecossistema financeiro clim\u00e1tico focado na resili\u00eancia. O diretor de planejamento do Banco do Nordeste (BNB), Jos\u00e9 Aldemir Freire, detalhou que a institui\u00e7\u00e3o projeta aplicar R$ 5,1 bilh\u00f5es em 2026 por meio de linhas de cr\u00e9dito como o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) Verde.<\/p>\n<p>Por outro lado, ele apontou que o grande gargalo burocr\u00e1tico para que esse capital alcance os pequenos produtores \u00e9 a inseguran\u00e7a fundi\u00e1ria. Sem a titularidade formal de suas terras, a agricultura familiar \u00e9 impedida de fornecer garantias banc\u00e1rias tradicionais. Para contornar essa barreira, o BNB destinar\u00e1 R$ 120 milh\u00f5es em recursos n\u00e3o reembols\u00e1veis para subsidiar sistemas agroflorestais e mitigar os extremos clim\u00e1ticos nas propriedades mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a parceria do BNB com o BNDES estruturou um edital conjunto de R$ 60 milh\u00f5es para projetos de restaura\u00e7\u00e3o da Caatinga, de forma a pavimentar o caminho para a consolida\u00e7\u00e3o do Fundo Caatinga no \u00e2mbito do Cons\u00f3rcio Nordeste.<\/p>\n<p>A meta volunt\u00e1ria de Neutralidade da Degrada\u00e7\u00e3o da Terra do Brasil passar\u00e1 por escrut\u00ednio de um Comit\u00ea Intermedi\u00e1rio na S\u00e9rvia, em 2027, antes da realiza\u00e7\u00e3o da COP18, no Egito.<\/p>\n<p><em>* Maristela Crispim \u00e9 jornalista do Observat\u00f3rio do Clima e viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articula\u00e7\u00e3o no Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA)<\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maristela Crispim* Frequ\u00eancia e dura\u00e7\u00e3o das secas aumentaram 29% em todo mundo desde 2000. 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