{"id":1187,"date":"2015-07-09T13:57:52","date_gmt":"2015-07-09T16:57:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=1187"},"modified":"2015-07-09T13:57:52","modified_gmt":"2015-07-09T16:57:52","slug":"quadrilhas-juninas-do-arraial-flor-do-maracuja-de-porto-velho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/quadrilhas-juninas-do-arraial-flor-do-maracuja-de-porto-velho\/","title":{"rendered":"Quadrilhas juninas do Arraial Flor do Maracuj\u00e1 de Porto Velho"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Quadrlha-RO_os-matutos-do-socialista-jpg-e1436461002503.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1188\" src=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Quadrlha-RO_os-matutos-do-socialista-jpg-e1436461002503.jpg\" alt=\"Quadrlha-RO_os-matutos-do-socialista-jpg\" width=\"700\" height=\"466\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao p\u00fablico, a modernidade presente na alegoria do Arraial Flor do Maracuj\u00e1 n\u00e3o deixa passar impercept\u00edvel a saga de antigos brincantes de periferia.\u00a0Em depoimentos emocionados, eles contam como funcionavam as quadrilhas nos terreiros e quintais de Porto Velho entre os anos 1950 e 1980. Alguns nomes est\u00e3o completos, sobram apelidos.<\/p>\n<p>Vivendo uma realidade bem diferente da atual, fundadores de antigos bois e quadrilhas juninas tiravam dinheiro do bolso para confeccionar vestimentas, promoviam feijoada e bingo de frango assado e bolo de fub\u00e1. Dois deles, not\u00e1veis, namoraram e se casaram nas quadrilhas.<\/p>\n<p>No final da semana passada, o jornalista S\u00edlvio Santos, o Z\u00e9 Katraka, amo do boi [dono da fazenda e pai de sinhazinha] demorou quase uma hora para chegar da avenida Migrantes ao arraial, na avenida Lauro Sodr\u00e9. O tr\u00e2nsito estava congestionado. Cerca de 50 mil pessoas concentraram-se no arraial e no seu entorno. O evento j\u00e1 \u00e9 considerado o maior do norte do Brasil.<\/p>\n<p>Quais os bois famosos de ontem? \u201cO Corre Campo \u00e9 um recordista: \u00e9 detentor de 16 t\u00edtulos em 34 anos de Flor do Maracuj\u00e1. Surgiu nos anos 1950 e foi reativado em 1989 para abrilhantar o arraial\u201d, responde o jornalista.<\/p>\n<p>S\u00edlvio Santos tamb\u00e9m lembra a participa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as: \u201cPorto Velho tem quatro bois mirins, que foram criados para passar a tradi\u00e7\u00e3o dos pais para os filhos, e isso marcou muito a cultura da \u00e9poca\u201d. \u201cNo Brasil, o bicho Folharal s\u00f3 existe em Porto Velho e se tornou grande atra\u00e7\u00e3o no arraial: \u00e9 um personagem criado pelo brincante Acr\u00edsio; exibe folhas de bananeira costuradas na roupa, n\u00e3o mostra o rosto, n\u00e3o fala, s\u00f3 se movimenta\u201d.<\/p>\n<p>Em sua casa na rua das Faveiras, bairro Eletronorte [zona sul de Porto Velho], Jo\u00e3o Batista Gomes da Silva, 62 anos, tr\u00eas filhas e cinco netos, fundou um dos primeiros grupos infantis no in\u00edcio dos anos 1980: Estrelinha de S\u00e3o Jo\u00e3o [35 pares], surgido no \u00e2mbito da quadrilha adulta Beija-flor do Norte, por ele fundada no Bairro Nova Floresta.<\/p>\n<p>\u201cIsso aqui [o bairro] estava sendo povoado, havia disputa de terra com empresas imobili\u00e1rias, e n\u00e3o tinha outro lugar pra ensaiar, al\u00e9m de quintais. A gente queimava \u00f3leo na lata de tinta para ter luz suficiente, porque n\u00e3o tinha energia el\u00e9trica\u201d.<\/p>\n<p>AMOR NA QUADRILHA<\/p>\n<p>Fundador do boi-mirim Mimosinho, Jo\u00e3o Batista acumulou sete t\u00edtulos. \u201cForam sete vit\u00f3rias e ningu\u00e9m venceria se n\u00e3o se unisse para fazer almo\u00e7os, feijoadas e bingos. Cada 50 centavos valia ouro\u201d, ele conta.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Batista come\u00e7ou aos 17 anos no boi Malhadinho. Na ponta da l\u00edngua, menciona os padrinhos: o comerciante Manuel Mendon\u00e7a, Manel\u00e3o, fundador da banda carnavalesca Vai Quem Quer, professora Nazar\u00e9 Silva, a escritora Y\u00eadda Borzacov, deputados estaduais Arnaldo Martins e Valderedo Paiva, entre outros.<\/p>\n<p>Ele conheceu a esposa Francelina ainda jovem, dan\u00e7ando na quadrilha Beija-flor do Norte. Junto com ela, prestigiou a vizinhan\u00e7a e apoiou outros bois: Flor do Campo, Pai do Campo, Corre Campo e Tira Cisma. J\u00e1 o mais antigo, Tira Teima, anteriormente denominara-se Tira Prosa, liderado pelo brincante Sardinha.<\/p>\n<p>Outra recorda\u00e7\u00e3o: nos anos 1960, o ent\u00e3o prefeito Antonio Serpa do Amaral foi o patrocinador do Boi Flor do Campo. E outros nomes para ele inesquec\u00edveis: \u201cO Raimundo Nonato\u00a0 Silva foi o melhor cazumb\u00e1 do boi Corre Campo; ele tem hoje o boi Az de Ouro\u201d, cujo presidente \u00e9 seu filho Silfarney Silva.<\/p>\n<p>Cazumb\u00e1 \u00e9 um personagem h\u00edbrido, misterioso e cercado de magia que se apresenta com m\u00e1scara. Usa bata pintada ou bordada que, na altura dos quadris, \u00e9 armada por um cofo de palha, usado para dar mais mobilidade e gra\u00e7a ao personagem em seus rebolantes volteios. Na m\u00e3o leva um chocalho, que badala marcando o ritmo, ou chicote para espantar o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Diferen\u00e7a daquela \u00e9poca para hoje? \u201cO boi tinha que ser de perna manca e com capim; hoje t\u00e1 meio carnavalesco. O Catirina tinha que ser forte para carregar peso. A brincadeira era mais alinhada para fazer a tradi\u00e7\u00e3o nos bairros bem animadinhos\u201d.\u00a0No folclore, Catirina \u00e9 tamb\u00e9m conhecida por esposa de Pai Francisco, figura burlesca da lenda do Bumba Meu Boi.<\/p>\n<p>Outra recorda\u00e7\u00e3o de S\u00edlvio Santos: \u201cNo improviso, os mascarados Cazumb\u00e1 e Pai Francisco cativavam o p\u00fablico fazendo versos que satirizavam os acontecimentos pol\u00edticos e sociais, dando \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o car\u00e1ter tamb\u00e9m humor\u00edstico; o embate entre cutubas [partid\u00e1rios do ent\u00e3o deputado federal, coronel Alu\u00edzio Ferreira] e pele-curtas [seguidores do m\u00e9dico Renato Medeiros] esteve presente\u201d.<\/p>\n<p>ANIVERS\u00c1RIO COM BOI<\/p>\n<p>Alvo de algumas homenagens, Jo\u00e3o Batista n\u00e3o frequenta o arraial dos anos 2000. Ele n\u00e3o esconde que estranhou algumas mudan\u00e7as conceituais, algumas delas determinadas pela forma de patroc\u00ednio, a exemplo de quadrilhas juninas, do carnaval e do futebol. \u201cPrest\u00edgio mesmo, ele diz, era ver o boi convidado para animar festas de anivers\u00e1rio\u201d. Evidentemente, a cidade aumentou de tamanho e a popula\u00e7\u00e3o cresceu. J\u00e1 n\u00e3o se fazem mais quadrilhas bem feitas nos quintais. O jornalista S\u00edlvio Santos explica: \u201cOs conhecidos categas contratavam o boi para anivers\u00e1rios e festas juninas e a\u00ed a gente fazia algum dinheiro. Era assim: Nego Chico matava o boi, tirava a l\u00edngua e a Catirina a vendia para o dono da casa. Isso justificava o pagamento do cach\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Tem saudades dos companheiros, entre eles, Louren\u00e7o e Pedro Gomes Maia, o Galego \u2013 pioneiros falecidos. A cada nome mencionado, ele sorri com gratid\u00e3o. \u201cFui amigo de inf\u00e2ncia de alguns deles\u201d, diz.<\/p>\n<p>O boi evoluiu muito. Nos tempos de Jo\u00e3o Batista, batuqueiros andavam com jornal e f\u00f3sforo para aquecer o couro de boi, on\u00e7a, queixadas, cobra e veado. Hoje, os instrumentos plastificados s\u00e3o \u00e0 prova de chuva. Pontificava nessa \u00e9poca a loja especializada, do comerciante Jos\u00e9 Oceano Alves, que comprava e vendia couro de animais silvestres, com propaganda de r\u00e1dio e ainda livre da fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>CORA\u00c7\u00c3O NO TRI\u00c2NGULO<\/p>\n<p>Dez vezes jurado do arraial, Silv\u00e9rio do Carmo, o Chore, 77 anos, cinco filhos, 16 netos e alguns bisnetos mudou-se para Goi\u00e2nia (GO) h\u00e1 20 anos, mas o cora\u00e7\u00e3o parece ter ficado no bairro do Tri\u00e2ngulo. Ali, foi vizinho do ex-vereador [falecido] e presidente da C\u00e2mara Municipal, Joventino Ferreira Filho, que com ele e outros moradores fundou a quadrilha Flor de Maracuj\u00e1.<\/p>\n<p>Silv\u00e9rio fez hist\u00f3ria nesse bairro, aonde chegou no dia 12 de dezembro de 1949, procedente de sua terra natal, Manicor\u00e9 (AM). De cara, recebeu as b\u00ean\u00e7\u00e3os do bispo salesiano dom Jo\u00e3o Batista Costa e se tornou amigo de um guarda territorial conhecido por Caterpillar \u2013 alus\u00e3o \u00e0 f\u00e1brica americana de m\u00e1quinas pesadas. \u201cO sujeito era muito forte, um trator, da\u00ed o apelido\u201d, comenta. J\u00e1 o bispo gostava muito de Gabriel, irm\u00e3o dele, que o religioso achava \u201cparecido\u201d com um amigo de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A exemplo de Jo\u00e3o Batista do boi Mimosinho, Silv\u00e9rio tamb\u00e9m se enamorou, casando-se na beira do maior afluente da margem direita do Rio Amazonas, com o testemunho dos amigos mais pr\u00f3ximos, notadamente aqueles do Tri\u00e2ngulo, Morro do Querosene, Baixa da Uni\u00e3o, Alto do Bode e Cai n\u2019\u00c1gua.<\/p>\n<p>A felizarda foi a professora Elisa Corsino, que lecionou e tamb\u00e9m dirigiu as Escolas Franklin Delano Roosevelt, Get\u00falio Vargas, Homero Kang Tourinho, John Kennedy, Jo\u00e3o XXIII e Estudo e Trabalho.<\/p>\n<p>\u201cO romance come\u00e7ou num ambiente bonito, de amor verdadeiro; a gente se reunia a\u00ed nesses trilhos e na beira do rio. O curral do boi Dominante ficava ao lado da Escola Franklin Roosevelt\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Explica a raz\u00e3o do nome da quadrilha com 60 pares [120 pessoas]: \u201cMoradores esticavam varais de flores que exalavam o cheiro do maracuj\u00e1 e cada quadrilheiro levava uma flor no chap\u00e9u, um encanto. O troller vinha l\u00e1 da esta\u00e7\u00e3o trazendo na frente o sanfoneiro Bananeira, o pandeirista Bara, o Ant\u00f4nio Lopes (Maria Pretinha) e o Navegante com banjos e o zabumbeiro Paulo\u201d, conta.<\/p>\n<p>Mais relatos: \u201cFoi numa aula de 13 de maio [Aboli\u00e7\u00e3o da escravatura] que come\u00e7amos o boi Estrelinha, em 1983. O primeiro marcador [quem organiza o movimento da quadrilha] foi Jorge Canavarros\u201d.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, a mem\u00f3ria lhe traz nomes, situa\u00e7\u00f5es e alegrias ao rememorar os feitos dos bois Caprichoso e Dominante: \u201cOs fundadores do Dominante foram Ant\u00f4nio do Carmo Barros, o Ant\u00f4nio da Mangueira, e Raimundo Pereira Lima, o Cabo Fuma\u00e7a, que serviu na extinta 3\u00aa Companhia de Fronteira do Ex\u00e9rcito Brasileiro. Todos ensaiavam ali embaixo [apontando a barranca do rio]\u201d.<\/p>\n<p>Na tarde de segunda-feira (6), ele atendeu a pedidos e se dirigiu \u00e0 beira do rio Madeira, na \u00e1rea onde maquinistas manobravam o trem da Estrada de Ferro Madeira-Mamor\u00e9.<\/p>\n<p>Duas \u00e1rvores \u2013 uma castanholeira, ou sete copas, e uma embaubeira \u2013 ainda est\u00e3o em p\u00e9, e ao lado delas ficava a casa de madeira de fam\u00edlia, destru\u00edda na enchente de 2014. \u201cMeus filhos cresceram neste lugar, banhando no rio e brincando no barro\u201d, conta.<\/p>\n<p>Vers\u00e1til compositor e tocador de banjo, bateria, cavaquinho e pandeiro, ele tamb\u00e9m foi percussionista da conhecida \u201cFuriosa\u201d, banda musical da extinta Guarda Territorial, corpora\u00e7\u00e3o que antecedeu a Pol\u00edcia Militar de Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cO som do banjo e a voz do cantor, no gog\u00f3 [sem microfone], ressonavam na multid\u00e3o. O Wilson do pandeiro, o Antero Soares, o Galego, o Caboclo do Areal e Jos\u00e9 do Vale foram grandes nisso\u201d, assinala. Dos mais admirados banjo\u00edstas, ele menciona Elton Eug\u00eanio Bleckman, barbadiano, conhecido por\u00a0<em>nego<\/em>\u00a0Bleckman.<\/p>\n<p>Ainda toca, seu Silv\u00e9rio? \u201cS\u00f3 para mim e pra fam\u00edlia\u201d, ele responde com ar nost\u00e1lgico.<\/p>\n<p>Texto: Montezuma Cruz<br \/>\nFotos: Bruno Corsino e \u00c9sio Mendes<br \/>\nDecom &#8211; Governo de Rond\u00f4nia<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao p\u00fablico, a modernidade presente na alegoria do Arraial Flor do Maracuj\u00e1 n\u00e3o deixa passar impercept\u00edvel a saga de antigos brincantes de periferia.\u00a0Em depoimentos emocionados, eles contam como funcionavam as quadrilhas nos terreiros e quintais de Porto Velho entre os anos 1950 e 1980. 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