{"id":3393,"date":"2016-11-07T12:23:36","date_gmt":"2016-11-07T15:23:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=3393"},"modified":"2016-11-07T12:23:36","modified_gmt":"2016-11-07T15:23:36","slug":"incendios-florestais-da-ultima-estacao-seca-ainda-impactam-comunidades-da-regiao-de-barcelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/incendios-florestais-da-ultima-estacao-seca-ainda-impactam-comunidades-da-regiao-de-barcelos\/","title":{"rendered":"Inc\u00eandios florestais da \u00faltima esta\u00e7\u00e3o seca ainda impactam comunidades da regi\u00e3o de Barcelos"},"content":{"rendered":"<div class=\"summary\"><em><a href=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Inc\u00eandios-florestais-da-\u00faltima-esta\u00e7\u00e3o-seca-ainda-impactam-comunidades-da-regi\u00e3o-de-Barcelos-e1478532009414.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3394\" src=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Inc\u00eandios-florestais-da-\u00faltima-esta\u00e7\u00e3o-seca-ainda-impactam-comunidades-da-regi\u00e3o-de-Barcelos-e1478532009414.jpg\" alt=\"incendios-florestais-da-ultima-estacao-seca-ainda-impactam-comunidades-da-regiao-de-barcelos\" width=\"700\" height=\"525\" \/><\/a><\/em><\/div>\n<div class=\"summary\"><em>\u00c1rvores secas e queimadas, matas de beira de rio devastadas, ro\u00e7as destru\u00eddas, grande mortandade de peixes, s\u00e3o alguns dos estragos causados por extensos inc\u00eandios florestais na regi\u00e3o de Barcelos. Moradores das comunidades ind\u00edgenas relatam os impactos do descontrole do fogo<\/em><\/div>\n<div class=\"field field-name-body field-type-text-with-summary field-label-hidden\">\n<div class=\"field-items\">\n<div class=\"field-item even\">\n<p>Quem chega em Barcelos (AM) nesses dias, seja por via a\u00e9rea ou fluvial, fica intrigado ao ver tantas \u00e1rvores secas e sem folhas, mortas mesmo. De avi\u00e3o, no voo sobre as ilhas na frente da cidade, observa-se em algumas delas uma floresta totalmente seca e, ao contornar por tr\u00e1s da cidade antes de aterrissar, um grande n\u00famero de \u00e1rvores sem folhas pontua a mata de terra firme. Estamos falando de uma das regi\u00f5es mais preservadas da Amaz\u00f4nia, distante das principais frentes de desmatamento, estradas ou grande obras. No entanto, os efeitos da gradual destrui\u00e7\u00e3o desse bioma, associados a c\u00e2mbios clim\u00e1ticos mais amplos, parecem j\u00e1 estar atingindo essa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O come\u00e7o desse ano foi marcado por uma longa e intensa esta\u00e7\u00e3o seca (2015-16), como h\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o se via na regi\u00e3o de Barcelos, M\u00e9dio Rio Negro, segundo maior munic\u00edpio do pa\u00eds em extens\u00e3o territorial. Embora o n\u00edvel do rio tenha atingido n\u00edveis muito baixos, mais grave foram os inc\u00eandios florestais sem precedentes que se espalharam tanto nos igap\u00f3s como em terra firme, queimando extensas \u00e1reas e, em v\u00e1rios casos, amea\u00e7ando atingir comunidades. Fam\u00edlias perderam suas ro\u00e7as, seu principal meio de subsist\u00eancia. A pesca sofreu impacto significativo, com cardumes morrendo \u00e0 medida que o rio secava \u2013 presos em \u00e1guas rasas e aquecidas, e tamb\u00e9m dizimados pela pesca oportunista excessiva.<\/p>\n<p>\u201cO impacto foi muito extenso, a maioria dos parentes que tem ro\u00e7a sofreu as consequ\u00eancias, a maioria ficou sem nada. Viraram pedintes, porque n\u00e3o t\u00eam alternativas em outras atividades que lhes prov\u00eam uma renda\u201d \u2013 explica Clarindo Chagas Campos, lideran\u00e7a da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena de Barcelos (Asiba), ligada \u00e0 rede de organiza\u00e7\u00f5es e coordena\u00e7\u00f5es que formam a Federa\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas do Rio Negro (Foirn).<\/p>\n<p>O Sr. Clarindo, ind\u00edgena tariano do Alto Rio Negro que migrou para Barcelos h\u00e1 vinte anos, relata em detalhes sua situa\u00e7\u00e3o, que mostra bem o que se passa. \u201cOnde eu trabalho, de um lado tem uma terra arenosa, terra preta que d\u00e1 bem no tempo normal, abacaxi, banana, plantamos quase mil p\u00e9s de banana, muita banana. Vendemos muita banana, pessoal comprava no porto mesmo, na rua, acabava! Vendemos farinha tamb\u00e9m. Estava indo bem. A\u00ed do outro lado do rio encontrei uma terra bonita e abri tr\u00eas quadras de ro\u00e7a \u2013 agora vamos produzir mesmo, vamos torrar farinha, melhorar nossa casa &#8211; pens\u00e1vamos. N\u00f3s fizemos novamente, plantamos novamente, plantamos uns 700 a 800 p\u00e9s de banana, no ano retrasado. Da\u00ed o ver\u00e3o chegou quando as bananas come\u00e7avam a carregar e as manivas estavam ainda novas, verdes&#8230; o ver\u00e3o chegou e come\u00e7aram j\u00e1 a secar, definhar, morreram minhas pimentas, as bananeiras ficaram molezinhas e foram quebrando tudinho. Bom, at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o tinha tanto problema ainda, dava para salvar.\u201d<\/p>\n<p><a class=\"colorbox colorbox-insert-image init-colorbox-processed cboxElement\" title=\"Sr. Clarindo, lideran\u00e7a ind\u00edgena, benzedor e agricultor fala dos impactos que o fogo causou \u00e0 pequena agricultura|Aloisio Cabalzar-ISA\" href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/imagem-grande\/public\/nsa\/dsc073231.jpg?itok=G5An6lCT\" data-colorbox-gallery=\"gallery-all\"><br \/>\n<span class=\"image-caption-container image-caption-container-none\"><img decoding=\"async\" class=\"caption image-nsa-retrato caption-processed\" title=\"Sr. Clarindo, lideran\u00e7a ind\u00edgena, benzedor e agricultor fala dos impactos que o fogo causou \u00e0 pequena agricultura\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/nsa-retrato\/public\/nsa\/dsc073231.jpg?itok=CDI7klmF\" alt=\"\" \/><\/span><\/a><\/p>\n<p><span class=\"image-caption-container image-caption-container-none\"><span class=\"image-caption\">Sr. Clarindo, lideran\u00e7a ind\u00edgena, benzedor e agricultor fala dos impactos que o fogo causou \u00e0 pequena agricultura<\/span><\/span><a class=\"colorbox colorbox-insert-image init-colorbox-processed cboxElement\" title=\"Sr. Clarindo, lideran\u00e7a ind\u00edgena, benzedor e agricultor fala dos impactos que o fogo causou \u00e0 pequena agricultura|Aloisio Cabalzar-ISA\" href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/imagem-grande\/public\/nsa\/dsc073231.jpg?itok=G5An6lCT\" data-colorbox-gallery=\"gallery-all\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<p>O sr. Clarindo lembra que, na sequ\u00eancia, precisou fazer uma viagem e ao subir o rio, percebeu um inc\u00eandio para o lado de suas ro\u00e7as, com muita fuma\u00e7a escura subindo. S\u00f3 retornou alguns dias depois, e como ainda havia fuma\u00e7a do inc\u00eandio, apressou-se para ir checar o que acontecia, perguntando-se como estariam suas ro\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8220;Peguei rabeta (canoa com motor fluvial) e subi, s\u00e3o duas horas, fica no paran\u00e1 abaixo do Rio Quiuini. A\u00ed cheguei l\u00e1 e vi minha ro\u00e7a queimando, mas n\u00e3o pude salvar porque a fuma\u00e7a, e o calor do sol, e o fogo, e o ch\u00e3o n\u00e3o deixavam aproximar. Fiquei olhando, aquela fuma\u00e7a n\u00e3o deixava eu me aproximar. Aquela fumaceira era total. Bom, deixei queimar \u2013 acabou tudo! Sobrou ainda alguma coisa, mas a\u00ed vieram as lagartas e acabaram de acabar com o restinho. A\u00ed tem a outra ro\u00e7a de cima, que era madura, com a qual a gente torrava farinha para o nosso sustento. Depois de tudo isso, noutro dia minha esposa chamou para ir l\u00e1 arrancar mandioca para fazer farinha. \u2013 Bora, eu disse. Chegando l\u00e1 eu vi mandioca toda arrancada, jogada. Fui olhando&#8230; os porcos tinham comido. O resto o ver\u00e3o assou, assou mesmo. Os porcos comeram a maior parte, porque a queimada veio enxotando eles, o lugar que sobrou para eles foi esse. A\u00ed fazer o que? J\u00e1 tinham comido mesmo&#8230; O resto da maniva estava igual isopor, quando a gente bota para ralar, ela cai seco, igual peda\u00e7o de isopor.\u201d<\/p>\n<p>A queima de ro\u00e7as e capoeiras que produzem frutos se estendeu por v\u00e1rias comunidades. Algumas sentiram, como jamais acontecera antes, o fogo amea\u00e7ar casas e ro\u00e7as familiares. Os moradores, incluindo as crian\u00e7as, da comunidade Cauboris, a jusante da cidade de Barcelos, precisaram carregar \u00e1gua para impedir que o fogo chegasse em suas ro\u00e7as e casas. Por sorte, contam com uma moto-bomba e n\u00e3o foi preciso descer o barranco para buscar \u00e1gua no rio \u2013 mas o esfor\u00e7o foi grande e n\u00e3o conseguiram evitar a queimada de seus patauazais e capoeiras. Para impedir a passagem do fogo e salvar as ro\u00e7as foi preciso fazer aceiro em torno delas .<\/p>\n<p>Outro efeito da seca \u00e9 a falta de mudas de mandioca, perdidas com as queimadas e as pragas de lagartas e gafanhotos que se sucederam. Em certa medida, esse problema \u00e9 contornado com a colabora\u00e7\u00e3o entre parentes e vizinhos, que oferecem mudas e sementes para aqueles mais atingidos pelo fogo e pela seca. Muito se perguntam como adaptar suas pr\u00e1ticas de manejo das ro\u00e7as em condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas distintas do que est\u00e3o acostumados.<\/p>\n<h2>In\u00edcio do fogo<\/h2>\n<p>Os inc\u00eandios que aconteceram no ver\u00e3o passado come\u00e7aram com pequenas fogueiras, geralmente feitas para cozinhar peixe na beira do rio, ou em coivaras para limpeza das ro\u00e7as. Fazer fogo com tais finalidades \u00e9 uma pr\u00e1tica comum, jamais com as consequ\u00eancias desastrosas que se assistiu nesse ano. Com o forte ver\u00e3o, esses pequenos fogos, mal apagados, foram suficientes para desencadear vastos inc\u00eandios florestais fora de controle.<\/p>\n<p><a class=\"colorbox colorbox-insert-image init-colorbox-processed cboxElement\" title=\"Marcas dos inc\u00eandios florestais est\u00e3o presentes na viagem entre Barcelos e Santa Isabel|Aloisio Cabalzar-ISA\" href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/imagem-grande\/public\/nsa\/dsc07531.jpg?itok=oh3NFydf\" data-colorbox-gallery=\"gallery-all\"><br \/>\n<span class=\"image-caption-container image-caption-container-none\"><img decoding=\"async\" class=\"caption image-nsa-paisagem caption-processed\" title=\"Marcas dos inc\u00eandios florestais est\u00e3o presentes na viagem entre Barcelos e Santa Isabel\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/nsa-paisagem\/public\/nsa\/dsc07531.jpg?itok=gZOgjtB7\" alt=\"\" \/><\/span><\/a><\/p>\n<p><span class=\"image-caption-container image-caption-container-none\"><span class=\"image-caption\">Marcas dos inc\u00eandios florestais est\u00e3o presentes na viagem entre Barcelos e Santa Isabel<\/span><\/span><a class=\"colorbox colorbox-insert-image init-colorbox-processed cboxElement\" title=\"Marcas dos inc\u00eandios florestais est\u00e3o presentes na viagem entre Barcelos e Santa Isabel|Aloisio Cabalzar-ISA\" href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/imagem-grande\/public\/nsa\/dsc07531.jpg?itok=oh3NFydf\" data-colorbox-gallery=\"gallery-all\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<p>\u201cTem gente que vai fazer assado a\u00ed pelas beiras do rio e n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o no lugar onde vai fazer o fogo. Se tem a possibilidade de o fogo penetrar na terra. N\u00f3s prestamos aten\u00e7\u00e3o onde fazemos nosso fogo. Se tiver algo embaixo, a gente varre tudinho. Depois apaga o fogo e aquilo acabou ali. Mas tem gente que n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o, faz de qualquer jeito e o fogo reanima. De uma fa\u00edsca pode ser gerado um inc\u00eandio\u201d, afirma Pedro Joaquim, do Rio Caur\u00e9s,<\/p>\n<p>Com secas extremas se tornando mais frequentes \u2013 fen\u00f4meno geralmente associado \u00e0s consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Amaz\u00f4nia \u2013, os riscos para a floresta aumentam e as comunidades est\u00e3o mais atentas, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas pr\u00f3prias pr\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m daqueles que acessam essas \u00e1reas, como pescadores comerciais e barcos com turistas da pesca esportiva \u2013 muito comuns na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Leandro de Bacabau, no Rio Arac\u00e1, diz que em muitos e muitos lagos acabaram-se os peixes. \u201cAs palmeiras, os jauarizeiros na beira da praia agora que est\u00e3o se recuperando, porque n\u00e3o tinha mais nada.\u201d Ainda segundo ele, no ano passado, em Esleb\u00e3o (comunidade a montante, no mesmo Rio Arac\u00e1) n\u00e3o tinha pegado fogo, mas nesse ano, tr\u00eas dias depois de ter tido um inc\u00eandio em Bacabau, fizeram uma coivara e o fogo saiu do controle. \u201cL\u00e1 pegou fogo at\u00e9 na casa. Lamentaram isso a\u00ed, antes n\u00e3o pegava fogo, hoje em dia qualquer foguinho pode sair do controle.\u201d<\/p>\n<p>Ele conta que os inc\u00eandios atingiram tamb\u00e9m outra regi\u00e3o. \u201cO que aconteceu aqui foi pouco. Na semana passada estive em Daracu\u00e1 para pegar uma piaba (peixe ornamental) do sr Jos\u00e9, e l\u00e1 voc\u00ea quase n\u00e3o v\u00ea mais floresta em p\u00e9 n\u00e3o! L\u00e1 \u00e9 tudo queimado assim&#8230; some de vista! De l\u00e1 at\u00e9 o igarap\u00e9 Baruri, tudo t\u00e1 queimado! Os igarap\u00e9s e paran\u00e1s est\u00e3o tudo com os paus ca\u00eddos, queimados. Eu perguntei &#8211; parente, como aconteceu isso? Ele respondeu \u2013 parente, n\u00f3s v\u00ednhamos pra c\u00e1, os pescadores de Barcelos, e fazia fogo por aqui (para cozinhar), quando via o fogo j\u00e1 alastrava.\u201d<\/p>\n<h2>Impactos para os peixes e bichos-de-casco<\/h2>\n<p>A estiagem na regi\u00e3o de Barcelos come\u00e7ou em outubro de 2015 e se estendeu at\u00e9 fevereiro desse ano. Nos igap\u00f3s dos rios Arac\u00e1, Caur\u00e9s e do pr\u00f3prio Negro os inc\u00eandios se propagaram na espessa camada de ra\u00edzes, folhas e mat\u00e9ria org\u00e2nica, regionalmente chamada de bucha, que sustenta a vegeta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apagaram por tr\u00eas meses. Os bichos-de-casco, sobretudo os cabe\u00e7udos (quel\u00f4nios), que desovam e permanecem nos igap\u00f3s no ver\u00e3o foram amplamente atingidos.<\/p>\n<p>Segundo Ant\u00f4nio Santana (51 anos), lideran\u00e7a da comunidade S\u00e3o Roque, situada no Rio Caur\u00e9s, que desemboca mais a jusante da cidade de Barcelos, \u201co fogo fica na bucha, por baixo da terra. E vai queimando pela bucha e l\u00e1 na frente ele boia&#8230; a\u00ed j\u00e1 vai ficando destru\u00eddo tudo. No final das contas, eu acho que morreu muitas coisas. Porque os bichinhos na \u00e9poca de ver\u00e3o ficam nos buracos, naquelas ocas&#8230; assou tudo.\u201d Queimadas pelas ra\u00edzes, as \u00e1rvores tombavam e o estrondo delas caindo podia ser ouvido das comunidades. \u201cO barulheiro de pau caindo era grande. Parecia que estavam derrubando [a floresta].\u201d<\/p>\n<p>Ainda segundo Santana, \u201cos peixes n\u00e3o tinham para onde ir&#8230; Foi a \u00e9poca que [os pescadores de fora] aproveitaram. Foi a\u00ed que sentimos uma diferen\u00e7a muito grande. Foi uma diferen\u00e7a de 100% &#8211; porque mesmo quando o rio encheu, sa\u00eda para pescar, mas n\u00e3o tinha o peixe. Ficou devagar. Para onde a gente costumava ir pescar, era s\u00f3 queimada. Atingiu os igarap\u00e9s. Queimou onde a gente tirava as iscas para pescar, o daracubi, queimou tudo. A\u00ed desapareceu tudo.\u201d Ele e outros pescadores, que tem nessa atividade seu principal meio de subsist\u00eancia, relatam que os efeitos na pesca ainda s\u00e3o sentidos, meses depois de findado o ver\u00e3o.<\/p>\n<p><a class=\"colorbox colorbox-insert-image init-colorbox-processed cboxElement\" title=\"Marivelton Barroso, diretor da Foirn, em reuni\u00e3o na comunidade Bacabau, Rio Arac\u00e1, sobre o impacto dos inc\u00eandios e a situa\u00e7\u00e3o na comunidade|Aloisio Cabalzar-ISA\" href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/imagem-grande\/public\/nsa\/dsc07493.jpg?itok=S9AqSyz5\" data-colorbox-gallery=\"gallery-all\"><br \/>\n<span class=\"image-caption-container image-caption-container-none\"><img decoding=\"async\" class=\"caption image-nsa-paisagem caption-processed\" title=\"Marivelton Barroso, diretor da Foirn, em reuni\u00e3o na comunidade Bacabau, Rio Arac\u00e1, sobre o impacto dos inc\u00eandios e a situa\u00e7\u00e3o na comunidade\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/nsa-paisagem\/public\/nsa\/dsc07493.jpg?itok=5C7v69Gp\" alt=\"\" \/><\/span><\/a><\/p>\n<p><span class=\"image-caption-container image-caption-container-none\"><span class=\"image-caption\">Marivelton Barroso, diretor da Foirn, em reuni\u00e3o na comunidade Bacabau, Rio Arac\u00e1, sobre o impacto dos inc\u00eandios e a situa\u00e7\u00e3o na comunidade<\/span><\/span><a class=\"colorbox colorbox-insert-image init-colorbox-processed cboxElement\" title=\"Marivelton Barroso, diretor da Foirn, em reuni\u00e3o na comunidade Bacabau, Rio Arac\u00e1, sobre o impacto dos inc\u00eandios e a situa\u00e7\u00e3o na comunidade|Aloisio Cabalzar-ISA\" href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/styles\/imagem-grande\/public\/nsa\/dsc07493.jpg?itok=S9AqSyz5\" data-colorbox-gallery=\"gallery-all\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<p>\u201cNo igap\u00f3 (onde h\u00e1 mais alimentos para os peixes) queimado os peixes v\u00e3o embora, e foi isso que aconteceu. E quando o rio encheu n\u00e3o tinha mais o peixe. E da\u00ed come\u00e7ou a diferen\u00e7a. Porque a gente preservava isso bem, n\u00e3o consentia muitos pescadores de fora. A\u00ed nesse ver\u00e3o, como foi muito grande, eles aproveitaram, entraram com rabetinha, canoas que pegavam at\u00e9 6 mil quilos, e aproveitavam porque os peixes estavam ilhados. Tinha noite que a gente ia e focava com a lanterna nesses lagos e a gente s\u00f3 via as olhadas [de peixe] e depois dessa paulada que eles deram [sobrepesca no ver\u00e3o], voc\u00ea num ouvia mais nem bater um tucunar\u00e9\u201d, diz Santana.<\/p>\n<h2>Extens\u00e3o dos inc\u00eandios florestais<\/h2>\n<p>A extens\u00e3o dos inc\u00eandios florestais na regi\u00e3o de Barcelos e seus impactos nas atividades de subsist\u00eancia e na fauna ainda est\u00e3o sendo avaliados. Al\u00e9m das conversas com os moradores das comunidades, est\u00e1 sendo feito um trabalho de geoprocessamento visando dimensionar sua abrang\u00eancia, incluindo regi\u00f5es pouco habitadas. O Laborat\u00f3rio de Geoprocessamento do ISA, a partir de dados do Inpe de focos de fogo que s\u00e3o monitorados diariamente (<a href=\"https:\/\/queimadas.dgi.inpe.br\/queimadas\">https:\/\/queimadas.dgi.inpe.br\/queimadas<\/a>), identificou que houve um incremento consider\u00e1vel nesse ano em compara\u00e7\u00e3o com os anos anteriores:\u00a0<strong>em 2014 foram 178<\/strong>,\u00a0<strong>em 2015 foram 196 e em 2016, at\u00e9 outubro, foram 14.321.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/blog.socioambiental.org\/files\/nsa\/arquivos\/medio_negro2016_focos_nsa.pdf\">Clique aqui e visualize no mapa os focos de inc\u00eandio nesse per\u00edodo<\/a>.<\/p>\n<p>Entretanto para uma melhor avalia\u00e7\u00e3o de todos os focos e extens\u00e3o dos impactos ser\u00e1 necess\u00e1rio uma an\u00e1lise conjunta das imagens de sat\u00e9lite atuais e de anos anteriores com os dados de focos de calor e os relatos dos moradores.<\/p>\n<h2>Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/h2>\n<p>\u201cO resultado da quentura desse ano para mim \u00e9 resultado dessas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d \u2013 avalia Pedro Raimundo, morador do Rio Caur\u00e9s. N\u00e3o foi s\u00f3 na regi\u00e3o de Barcelos que esse longo e intenso ver\u00e3o gerou inc\u00eandios e preju\u00edzos diversos para as comunidades. Em Roraima aconteceu o mesmo, com o Rio Branco atingindo seu n\u00edvel mais baixo em Boa Vista, desde que tiveram in\u00edcio os registros. No M\u00e9dio e Alto Rio Negro, os munic\u00edpios de Santa Isabel do Rio Negro e S\u00e3o Gabriel da Cachoeira tamb\u00e9m foram atingidos, com problemas de desabastecimento de mercadorias vindas de Manaus por via fluvial, e inc\u00eandios em menor escala. Todos decretaram estado de calamidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cA natureza n\u00e3o \u00e9 a mesma\u201d \u2013 argumenta o sr.Clarindo. \u201cExistia um tempo em que nossos ancestrais faziam seus rituais, para que a energia da natureza segurasse essa mudan\u00e7a, para n\u00e3o existir mudan\u00e7a, tanto no ver\u00e3o, quanto no inverno, como na flora\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores frut\u00edferas, tempo de dar frutas, tudo era controlado, ajudado por esses rituais, e funcionava mesmo. No tempo das piracemas, acompanhando as constela\u00e7\u00f5es, purificava o ambiente com esses rituais. Isso funciona!\u201d<\/p>\n<p>E lamenta. &#8220;Depois que essa cultura foi reprovada pelos mission\u00e1rios, e foi visto como uma coisa m\u00e1, diab\u00f3lica&#8230; muitos morreram de depress\u00e3o, tristes por esse acontecimento&#8230; e levaram isso com eles. Ent\u00e3o toda essa prepara\u00e7\u00e3o, essa defesa, que nossos ancestrais colocaram, pouco a pouco vai perdendo poder, vai perdendo efeito, vamos dizer assim. Da\u00ed vem essa nova fase, que as pessoas est\u00e3o matando sua pr\u00f3pria m\u00e3e. Estamos massacrando a nossa pr\u00f3pria m\u00e3e, a m\u00e3e terra. Ela d\u00e1 tudo para n\u00f3s, d\u00e1 \u00e1gua, d\u00e1 vida, d\u00e1 ar&#8230; tudo quanto a gente precisa para sobreviver, pra viver bem, a terra d\u00e1! Mas a humanidade, pela ambi\u00e7\u00e3o que tem de ganhar muito dinheiro, vai matando e destruindo. O planeta \u00e9 um ser vivo, a natureza \u00e9 viva.\u201d<br \/>\nNo Rio Caur\u00e9s algumas fam\u00edlias j\u00e1 foram para a cidade depois de perderem suas ro\u00e7as e sentirem as dificuldades na pesca. (Fonte: Equipe Rio Negro &#8211; ISA).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1rvores secas e queimadas, matas de beira de rio devastadas, ro\u00e7as destru\u00eddas, grande mortandade de peixes, s\u00e3o alguns dos estragos causados por extensos inc\u00eandios florestais na regi\u00e3o de Barcelos. Moradores das comunidades ind\u00edgenas relatam os impactos do descontrole do fogo Quem chega em Barcelos (AM)&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28,35,2],"tags":[1174],"class_list":["post-3393","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-amazonas","category-meio-ambiente","category-slideshow","tag-amazonas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3393"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3393\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3395,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3393\/revisions\/3395"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}