{"id":4745,"date":"2017-11-08T15:18:52","date_gmt":"2017-11-08T18:18:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=4745"},"modified":"2017-11-08T15:18:52","modified_gmt":"2017-11-08T18:18:52","slug":"na-fronteira-do-cerrado-com-a-amazonia-a-realidade-dos-impactos-da-soja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/na-fronteira-do-cerrado-com-a-amazonia-a-realidade-dos-impactos-da-soja\/","title":{"rendered":"Na fronteira do Cerrado com a Amaz\u00f4nia, a realidade dos impactos da soja"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Na-fronteira-do-Cerrado-com-a-Amaz\u00f4nia-a-realidade-dos-impactos-da-soja.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4746\" src=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Na-fronteira-do-Cerrado-com-a-Amaz\u00f4nia-a-realidade-dos-impactos-da-soja-e1510164901601.jpg\" alt=\"Soybeans (Glycine soja); Paran\u00e1, Brazil\" width=\"700\" height=\"440\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para conhecer a realidade \u00e9 preciso v\u00ea-la de perto, longe da frieza dos n\u00fameros, do conforto dos escrit\u00f3rios, al\u00e9m da velocidade exponencial das timelines das redes sociais. Para conhecer a realidade \u00e9 preciso sentir a temperatura, ver as varia\u00e7\u00f5es da paisagem, conversar olho no olho com os moradores locais. Para saber como a produ\u00e7\u00e3o de soja e outras commodities afeta realmente a vida das pessoas, a din\u00e2mica das cidades, a preserva\u00e7\u00e3o dos biomas, \u00e9 preciso ver ao vivo e sentir a realidade na pele.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente esse o objetivo das viagens de campo do projeto CFA (Colabora\u00e7\u00e3o Floresta e Agricultura) que, na \u00faltima semana de outubro, levou seis representantes de empresas, bancos e organiza\u00e7\u00f5es do terceiro setor para visitar cidades no norte do Tocantins e sul do Maranh\u00e3o, na fronteira agr\u00edcola do Matopiba, um dos principais centros de produ\u00e7\u00e3o de soja e de conflitos fundi\u00e1rios do Brasil atual, onde o Cerrado come\u00e7a a se confundir com a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>L\u00e1, os representantes da BRF, Rabobank, Caixa Econ\u00f4mica Federal, Field to Market e The Forest Trust puderam conversar com grandes e m\u00e9dios produtores de abordagens diferentes sobre a sua atua\u00e7\u00e3o e entender melhor como os conflitos gerados pela expans\u00e3o do plantio da soja atinge diretamente agricultores de comunidades tradicionais que est\u00e3o h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Lucas Paschoal, supervisor de commodities da BRF, conhecer a situa\u00e7\u00e3o dos agricultores familiares foi um choque de realidade muito grande. Segundo ele, acompanhar de longe pela cobertura da m\u00eddia, que costuma defender a expans\u00e3o da soja exclusivamente como ponto positivo, ignorando as pessoas que vivem l\u00e1 e dependem dos seus peda\u00e7os de terra e ver isso in loco fez toda diferen\u00e7a. \u201c\u00c9 importante trazer o setor privado para esse tipo de experi\u00eancia para que as grandes empresas possam voltar o olhar para essa situa\u00e7\u00e3o, enxergando a rela\u00e7\u00e3o entre a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os e as comunidades que vivem l\u00e1, buscando um ponto de equil\u00edbrio\u201d, afirma Paschoal.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de Raimunda Pereira dos Santos, agricultora de uma comunidade tradicional que vive h\u00e1 d\u00e9cadas em Barra do Ouro (TO) \u00e9 s\u00edmbolo de resist\u00eancia para toda a regi\u00e3o: sua casa e sua planta\u00e7\u00e3o foram destru\u00eddas, seus animais sequestrados e Raimunda foi diversas vezes amea\u00e7ada de morte por se negar a vender sua terra para o produtor que acabou por cercar mais de 17 mil hectares entre lotes comprados e \u00e1rea grilada, produzindo soja no meio de uma disputa desigual que j\u00e1 se arrasta desde 1994. \u00a0\u201cEu n\u00e3o vendo porque aqui \u00e9 a minha terra, onde minha fam\u00edlia vive desde os anos 50. O que n\u00f3s queremos apenas \u00e9 paz para ter nossa planta\u00e7\u00e3o e seguir a nossa vida\u201d, diz Raimunda, que criou 12 filhos na comunidade e hoje mora em uma casa de terra batida e teto de palha, ao lado da casa original que foi derrubada pelo grileiro que saiu de Santa Catarina para o Tocantins.<\/p>\n<p>\u00c9 este tipo de situa\u00e7\u00e3o que atingiu em cheio Rodney Snyder, diretor executivo da Field to Market, associa\u00e7\u00e3o americana com dezenas de membros que trabalha por uma cadeia sustent\u00e1vel de commodities. \u201cAprendi muito nesta viagens. Ver os desafios que o Cerrado enfrenta, tanto social quanto ambiental, foi fundamental. \u00c9 responsabilidade de todo o mercado buscar solu\u00e7\u00f5es para resolver este problema\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Cerrado em xeque, mercado em alerta<\/strong><br \/>\nNesta cadeia, os financiadores ocupam papel central. Para Bianca Larussa, analista de responsabilidade socioambiental do Rabobank, banco holand\u00eas que trabalha diretamente com cr\u00e9dito agr\u00edcola, foi chocante ver pessoas que vivem sem saneamento b\u00e1sico, energia el\u00e9trica e \u00e1gua pot\u00e1vel, j\u00e1 que todo o seu ecossistema ao redor foi destru\u00eddo ou contaminado. \u201cEu mudei muito minha concep\u00e7\u00e3o sobre um grande produtor e um pequeno. E ir em um assentamento, algo que nunca tinha feito, com certeza foi uma coisa que mexeu comigo emocionalmente e eu vou levar para o pessoal do banco, que precisam saber dessa realidade\u201d, diz Larussa.<\/p>\n<p>O engenheiro agr\u00f4nomo da Caixa Econ\u00f4mica Federal, Rafael Brugger, faz coro. \u201cN\u00f3s ficamos muito distantes da realidade do campo, o que \u00e9 grave j\u00e1 que nas cidades \u00e9 que as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas. Fazer essa imers\u00e3o nos problemas das pessoas que vivem aqui realmente faz pensar diferente. Talvez eu nunca tivesse essa oportunidade de ver problemas sociais t\u00e3o intensos e comuns, at\u00e9 banalizados pela sociedade. A oportunidade foi excelente para poder conscientizar os tomadores de decis\u00e3o\u201d, afirma Brugger.<\/p>\n<p>\u00c9 isto o que espera Pedro Ribeiro, agente da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra em Aragua\u00edna (TO), entidade que h\u00e1 d\u00e9cadas luta pela popula\u00e7\u00e3o do campo e tenta mediar conflitos. \u201cEspero que essas pessoas, conhecendo a realidade, possam se sensibilizar e cobrar dos respons\u00e1veis maneiras de evitar ou amenizar o dano que \u00e9 causado\u201d, diz Ribeiro. A analista de sustentabilidade da BRF, Gabriele C\u00e2ndido, reconhece: sair de S\u00e3o Paulo fez toda a diferen\u00e7a. \u201cEstar aqui abriu muito minha cabe\u00e7a para buscar formas de melhorar nosso trabalho. Saio renovada e com mais vontade de contribuir para evitar o desmatamento no Cerrado\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Em Carolina (MA), os participantes do reality tour puderam conhecer o santu\u00e1rio ecol\u00f3gico de Pedra Ca\u00edda, especialmente a cachoeira Santu\u00e1rio, uma queda de 47 metros cercada por rochas milenares do Cerrado maranhense, que mostra o que est\u00e1 em risco com o acelerado desmatamento do bioma, que est\u00e1 perdendo sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa cerca de cinco vezes mais r\u00e1pido que a Amaz\u00f4nia. Para Rachel Backer, da ONG The Forest Truth, a hora \u00e9 agora para que a\u00e7\u00f5es sejam tomadas. \u201cO governo, as empresas e as ONG\u2019s precisam tomar atitudes decisivas para que esta bel\u00edssima parte da Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o seja completamente destru\u00edda pela soja e pecu\u00e1ria. Precisamos encontrar caminhos para equilibrar a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com as necessidades das pessoas que vivem aqui\u201d, acredita Backer.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 25 de outubro, empresas l\u00edderes no mercado internacional lan\u00e7aram uma carta reconhecendo a import\u00e2ncia do Cerrado por seu papel na mitiga\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e apoiaram o <strong>Manifesto do Cerrado<\/strong>, documento em que organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas pedem que as empresas que compram soja e carne do Cerrado defendam o bioma. Entre 2013 e 2015 o Brasil destruiu 18.962 km\u00b2 de Cerrado, uma perda equivalente \u00e0 \u00e1rea da cidade de S\u00e3o Paulo a cada dois meses. Esse ritmo de destrui\u00e7\u00e3o coloca o Cerrado entre os ecossistemas mais amea\u00e7ados do planeta. (<em>Por Maur\u00edcio Angelo do IPAM &#8211; WWF-Brasil).<\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para conhecer a realidade \u00e9 preciso v\u00ea-la de perto, longe da frieza dos n\u00fameros, do conforto dos escrit\u00f3rios, al\u00e9m da velocidade exponencial das timelines das redes sociais. 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