{"id":7351,"date":"2020-05-12T15:50:38","date_gmt":"2020-05-12T18:50:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=7351"},"modified":"2020-05-12T15:50:38","modified_gmt":"2020-05-12T18:50:38","slug":"a-pandemia-nossa-de-cada-dia-errados-equivocados-e-enredados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/a-pandemia-nossa-de-cada-dia-errados-equivocados-e-enredados\/","title":{"rendered":"A pandemia nossa de cada dia: errados, equivocados e enredados"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/A-pandemia-nossa-de-cada-dia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-7352\" src=\"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/A-pandemia-nossa-de-cada-dia-300x187.jpg\" alt=\"A pandemia nossa de cada dia\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/A-pandemia-nossa-de-cada-dia-300x187.jpg 300w, https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/A-pandemia-nossa-de-cada-dia-220x137.jpg 220w, https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/A-pandemia-nossa-de-cada-dia.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u201cUma sociedade que precisa proteger a natureza de si mesma, s\u00f3 pode estar errada.\u201d Essa \u00e9 uma frase famosa atribu\u00edda a Jos\u00e9 Lutzenberger, um dos primeiros ambientalistas do pa\u00eds, que morreu no come\u00e7o deste mil\u00eanio. N\u00e3o sei em que ano Lutzenberger teria dito essa frase, mas independente do momento, ela \u00e9 mais verdadeira a cada instante. Sem dizer que j\u00e1 estamos pagando o pre\u00e7o do nosso fracasso em proteger a natureza, em vidas cobradas nessa pandemia nossa de cada dia.<\/p>\n<p>Historicamente, o instrumento mais usado para proteger a natureza de n\u00f3s mesmos tem sido a cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o, como parques nacionais. H\u00e1 in\u00fameros casos de espa\u00e7os anteriormente reservados para finalidades espec\u00edficas, como a ca\u00e7a, mas o primeiro parque nacional estabelecido, usando esse modelo que seguimos at\u00e9 hoje, foi o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, em 1872. Entre suas muitas atra\u00e7\u00f5es, est\u00e1 a caldeira, um vulc\u00e3o inativo que teria tido suas \u00faltimas erup\u00e7\u00f5es h\u00e1 cerca de 2 milh\u00f5es de anos. O vulcanismo presente no parque pode ser visto na grande presen\u00e7a de fontes termais e g\u00eaiseres.<\/p>\n<p>S\u00e3o os microorganismos presentes nessas fontes termais que possibilitaram o desenvolvimento de uma t\u00e9cnica da biotecnologia, respons\u00e1vel, entre diversos outros avan\u00e7os, pelos testes de detec\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus. Famosa entre os pesquisadores da biologia molecular, a hist\u00f3ria mostra como uma pesquisa centrada apenas na descri\u00e7\u00e3o de novos organismos e das condi\u00e7\u00f5es em que eles vivem pode acabar revolucionando todo um campo de pesquisas. Na d\u00e9cada de 1960, o microbiologista Thomas Brock identificou uma bact\u00e9ria nas fontes termais de Yellowstone que vivia na temperatura mais alta jamais registrada para um ser vivo: 75\u00baC. Vale dizer que depois outros organismos que vivem em temperaturas extremas foram identificados. Mas, naquele momento, essa era uma descoberta muito instigante e, na sequ\u00eancia, come\u00e7aram os estudos para entender os mecanismos biol\u00f3gicos que permitiam essa bact\u00e9ria viver nessa temperatura.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas depois, dessas pesquisas nasceu uma t\u00e9cnica que usa uma enzima presente nessa bact\u00e9ria, a TAQ polimerase, para promover uma r\u00e1pida multiplica\u00e7\u00e3o do DNA, produzindo milhares de c\u00f3pias. Um dos gargalos do processo era a necessidade de uma enzima que resistisse a altas temperaturas, problema resolvido pela TAQ polimerase. Com essa t\u00e9cnica em m\u00e3os, conhecida como PCR, sigla, em ingl\u00eas, para \u201crea\u00e7\u00e3o em cadeia de polimerase\u201d, as an\u00e1lises de DNA para diversos fins se tornaram vi\u00e1veis e hoje est\u00e3o presentes desde testes de paternidades at\u00e9 aqueles de identifica\u00e7\u00e3o de agentes patog\u00eanicos. <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-52539425\">Uma reportagem recente da BBC conta detalhes da hist\u00f3ria.<\/a><\/p>\n<h3><strong>Solu\u00e7\u00f5es vindas da natureza<\/strong><\/h3>\n<p>O que ela revela \u00e9 algo que sempre soubemos, mas preferimos esquecer: muitas das solu\u00e7\u00f5es para os dilemas humanos residem na natureza. Os exemplos s\u00e3o in\u00fameros e podem come\u00e7ar com um dos mais usados medicamentos de todos os tempos, a aspirina. Comercializada a partir de 1899, a aspirina \u00e9 resultado de um processo de pesquisa qu\u00edmica a partir da salicina, subst\u00e2ncia derivada da casca do salgueiro, \u00e1rvore tamb\u00e9m conhecida como chor\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde a \u00e9poca dos gregos, o p\u00f3 da casca do salgueiro era usado para aliviar dores e combater a febre. Sum\u00e9rios, eg\u00edpcios, ass\u00edrios e nativos da Am\u00e9rica do Norte tamb\u00e9m usavam a casca de salgueiro contra dores de cabe\u00e7a, reumatismo e febres. Ao longo do s\u00e9culo XIX, na Europa, foram feitas muitas pesquisas com a casca do salgueiro e a salicina foi identificada como o princ\u00edpio ativo. A partir da\u00ed, seguiram-se outras experi\u00eancias e, no final do s\u00e9culo, um laborat\u00f3rio farmac\u00eautico alem\u00e3o conseguiu juntar a salicina com outras subst\u00e2ncias, produzindo o \u00e1cido acetilsalic\u00edlico, que \u00e9 o que conhecemos hoje como aspirina. Tal subst\u00e2ncia n\u00e3o tem tantos efeitos colaterais como aqueles que a salicina, sozinha, tinha, tais como o gosto desagrad\u00e1vel e a irrita\u00e7\u00e3o no est\u00f4mago. A aspirina virou um sucesso imediato, foi o primeiro rem\u00e9dio a ser sintetizado em laborat\u00f3rio, ao inv\u00e9s de coletado na natureza, e o primeiro medicamento a ser vendido em comprimidos.<\/p>\n<h3><strong>Morfina, botox, veneno da jararaca e jaborandi<\/strong><\/h3>\n<p>Outras subst\u00e2ncias populares tamb\u00e9m vieram da natureza, como a morfina, derivada dos frutos verdes da papoula, e o botox, nome comercial da toxina botul\u00ednica, usada para suavizar rugas, produzida por uma bact\u00e9ria. H\u00e1 ainda muitos exemplos de medicamentos que ajudaram milhares de pessoas que, muitas vezes, sequer sabiam da origem dessas subst\u00e2ncias, como \u00e9 o caso de um famoso rem\u00e9dio contra press\u00e3o alta, o Captotril, e um medicamento contra o glaucoma, a Pilocarpina. O princ\u00edpio ativo do Captotril, identificado por pesquisadores brasileiros, \u00e9 derivado do veneno da jararaca e a pilocarpina, princ\u00edpio ativo de um dos col\u00edrios mais usados no mundo contra glaucoma, est\u00e1 presente nas folhas de uma esp\u00e9cie brasileira, o jaborandi.<\/p>\n<p>No entanto, essa natureza, que pode nos prover tanto, \u00e9 cada vez mais destru\u00edda e empurrada para dentro de \u00e1reas protegidas para dar lugar a uma ocupa\u00e7\u00e3o cada vez mais predat\u00f3ria, com cole\u00e7\u00f5es de monoculturas agr\u00edcolas, f\u00e1bricas de animais confinados, \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o e pastos sem fim. Por algum tempo, ainda conseguimos fazer o que Lutzenberger apontava como prova do nosso equ\u00edvoco como sociedade, protegemos parte da natureza de n\u00f3s mesmos. Esse projeto, por\u00e9m, parece muito amea\u00e7ado e a maior prova vem daqui mesmo, da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Unidades de conserva\u00e7\u00e3o e terras ind\u00edgenas protegem parte significativa da regi\u00e3o. Para evitar a emerg\u00eancia de novas doen\u00e7as, para aproveitar o potencial de inova\u00e7\u00e3o que a natureza nos oferece, para ajudar na manuten\u00e7\u00e3o da estabilidade clim\u00e1tica e para preservar povos ind\u00edgenas, comunidades locais e suas formas diversas de estar no mundo, a manuten\u00e7\u00e3o da integridade da floresta \u00e9 fundamental. Deveria ser parte fundante de um projeto de pa\u00eds. Por\u00e9m \u00e9 o contr\u00e1rio o que se verifica. O desmatamento que, com poucos anos de exce\u00e7\u00e3o, sempre foi escandaloso na Amaz\u00f4nia, aumenta cada vez mais, adentrando as \u00e1reas protegidas, estimulado pelo enfraquecimento dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o e pelo discurso oficial que promove a grilagem, a invas\u00e3o de terras e a viol\u00eancia.<\/p>\n<h3><strong>Desmatamento aumenta 51% no primeiro trimestre<\/strong><\/h3>\n<p>No primeiro trimestre deste ano, a destrui\u00e7\u00e3o da floresta na regi\u00e3o foi 51% maior que o mesmo per\u00edodo do ano passado e 50% dele ocorreu em terras p\u00fablicas que est\u00e3o sob a guarda da Uni\u00e3o e dos Estados, como as unidades de conserva\u00e7\u00e3o e as terras ind\u00edgenas (<a href=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/desmate-por-grilagem-explode-e-pode-alimentar-temporada-de-fogo-na-amazonia\/\">saiba mais<\/a>).<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 que, enquanto nos debatemos com a ideia de que o presente \u00e9 uma m\u00e1quina de fazer futuros, j\u00e1 se desenha um futuro sem Amaz\u00f4nia, sem floresta, sem natureza, com mais doen\u00e7as, mais desigualdades e com menos oportunidades. Quem sabe que inspira\u00e7\u00f5es a exuber\u00e2ncia da floresta poderia trazer \u00e0 humanidade? Quem sabe que mundo poderia emergir dessa pandemia se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos todos j\u00e1 irremediavelmente imersos em um presente sem horizontes? Quem sabe se \u00e9 poss\u00edvel ainda pegar carona no \u00faltimo rabo de cometa e sonhar com novos mundos?<\/p>\n<p>Nurit Bensusan, especialista em Biodiversidade do ISA<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUma sociedade que precisa proteger a natureza de si mesma, s\u00f3 pode estar errada.\u201d Essa \u00e9 uma frase famosa atribu\u00edda a Jos\u00e9 Lutzenberger, um dos primeiros ambientalistas do pa\u00eds, que morreu no come\u00e7o deste mil\u00eanio. 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