{"id":7869,"date":"2020-12-21T09:18:06","date_gmt":"2020-12-21T12:18:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=7869"},"modified":"2021-05-12T21:09:49","modified_gmt":"2021-05-13T00:09:49","slug":"apagao-causa-ao-menos-8-mortes-em-meio-ao-descaso-das-autoridades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/apagao-causa-ao-menos-8-mortes-em-meio-ao-descaso-das-autoridades\/","title":{"rendered":"Apag\u00e3o causa ao menos 8 mortes em meio ao descaso das autoridades"},"content":{"rendered":"<p><em>Pelo menos 8 pessoas morreram direta ou indiretamente por conta do blecaute que atingiu o Amap\u00e1 \u2013 agora, fam\u00edlias aguardam o ressarcimento prometido pelo presidente Bolsonaro<\/em><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Apag%C3%A3o-Macap%C3%A1-9.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Morador de Mazag\u00e3o Velho (AP) passa a noite \u00e0 espera de energia, sofrendo com os mosquitos e \u00e0 luz de velas<\/figcaption><\/figure>\n<p>A manicure Danielle Silva, de 23 anos, s\u00f3 queria um ventilador naquela noite quente de novembro. Na verdade, ela queria energia el\u00e9trica para ligar o seu. Moradora da Comunidade Quilombola Lagoa dos \u00cdndios, na regi\u00e3o metropolitana de Macap\u00e1 (AP), Silva estava h\u00e1 cinco dias sem energia el\u00e9trica em casa. Como n\u00e3o conseguia dormir por conta do calor, saiu de moto para passar a noite na casa de um parente \u201csortudo\u201d que tinha internet, televis\u00e3o e ventiladores em funcionamento. Nunca mais voltou.<\/p>\n<p>Sua moto foi atingida na estrada de acesso ao bairro Goiabal, onde a escurid\u00e3o dominava e n\u00e3o havia nenhum tipo de sinaliza\u00e7\u00e3o para o tr\u00e2nsito, j\u00e1 que os sem\u00e1foros estavam desligados por conta do blecaute. Morreu na hora. \u201cEla batalhava muito para estudar e trabalhar. Estava se formando em F\u00edsica, tinha muitos sonhos. Disse em casa que n\u00e3o conseguia mais ficar sem dormir e precisava encontrar descanso\u201d, conta Danielson Nascimento Padilha, uma das lideran\u00e7as da comunidade. Seu corpo s\u00f3 n\u00e3o foi velado no escuro porque familiares alugaram um gerador.<\/p>\n<p>A manicure n\u00e3o foi a \u00fanica. Pelo menos outras 7 pessoas morreram direta ou indiretamente por conta do apag\u00e3o que atingiu o Amap\u00e1 em 3 de novembro, quando uma explos\u00e3o comprometeu tr\u00eas transformadores da Subesta\u00e7\u00e3o Macap\u00e1 e deixou 13 cidades no escuro. Se Danielle morreu na busca por um ventilador, duas das outras v\u00edtimas estavam trabalhando na manuten\u00e7\u00e3o da rede el\u00e9trica para garantir servi\u00e7os b\u00e1sicos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em meio ao blecaute.<\/p>\n<ol>\n<li class=\"wp-block-image\">Moradores que ficaram sem energia fizeram protestos e pediram ajuda das autoridades, que demoraram quase um m\u00eas para resolver o problema<\/li>\n<\/ol>\n<p>Foi o caso de Jehoash Vitor Monteiro, de 24 anos. Nos primeiros dias do apag\u00e3o que deixou 90% da popula\u00e7\u00e3o do Amap\u00e1 no escuro, Jehoash ficou respons\u00e1vel por garantir acesso \u00e0 internet de parte dos moradores de Porto Grande (102 km da capital). Sua fun\u00e7\u00e3o era cuidar do gerador de energia da empresa de fibra \u00f3tica Webflash. Gra\u00e7as a Jehoash, a cidade estava conectada, apesar de sem energia.<\/p>\n<p>No dia 6 de novembro, o t\u00e9cnico de inform\u00e1tica chegou em casa \u00e0s 20h, pediu dinheiro emprestado \u00e0 m\u00e3e e saiu dizendo que precisaria trabalhar, pois estava de plant\u00e3o. Nunca mais voltou. O corpo de Jehoash foi encontrado na sede da empresa, na manh\u00e3 seguinte, ao lado do gerador e em uma sala sem ventila\u00e7\u00e3o. No atestado de \u00f3bito, consta morte por asfixia qu\u00edmica.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o tivesse acontecido o apag\u00e3o, meu filho estaria vivo\u201d, lamenta Euzelia Maria Martins da Costa, m\u00e3e do jovem e professora do munic\u00edpio de 20 mil habitantes. N\u00e3o houve tempo para socorro, mesmo porque boa parte dos hospitais locais tamb\u00e9m estava sem luz. O dinheiro que Jehoash havia pedido era para comprar combust\u00edvel para o gerador da pr\u00f3pria empresa.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Apag%C3%A3o-Macap%C3%A1-10.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Fam\u00edlia de uma das v\u00edtimas do apag\u00e3o no Amap\u00e1 mostra o \u00e1lbum de fotografia da formatura recente de Jehoash Vitor Monteiro, de 24 anos<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma segunda v\u00edtima tamb\u00e9m trabalhava para garantir servi\u00e7os b\u00e1sicos aos amapaenses. Trata-se de Sergio Cley, de 50 anos, que morreu quando realizava manuten\u00e7\u00e3o na rede de distribui\u00e7\u00e3o de energia na \u00e1rea rural de Macap\u00e1. Cley era funcion\u00e1rio do Cons\u00f3rcio Amap\u00e1 Energia (CAE), que presta servi\u00e7o \u00e0 Eletronorte, e n\u00e3o resistiu depois de tomar um choque el\u00e9trico no transformador e cair de uma altura de seis metros.<\/p>\n<p>\u201cEle ficou quase duas horas sem socorro. O acidente foi por volta das 16h e eu cheguei l\u00e1 primeiro que o socorro, que s\u00f3 veio \u00e0s 18h30. Ele j\u00e1 estava morto. A empresa alega que ele estava fazendo bico, mas isso era mentira. Ele estava mexendo no transformador e estava em servi\u00e7o com todos os Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPI). Temos testemunhas disso\u201d, diz Wesley Almeida, 24 anos, um dos quatro filhos de Cley, que tamb\u00e9m era l\u00edder da Comunidade Quilombola de S\u00e3o Francisco de Matapi, na \u00e1rea rural de Macap\u00e1. \u201cA empresa nega que tenha sido acidente de trabalho, mas custeou o vel\u00f3rio. Na hora do acerto pagaram apenas o sal\u00e1rio dele, e disseram que a vi\u00fava n\u00e3o tinha sequer direito ao seguro-desemprego, pois n\u00e3o foi acidente de trabalho\u201d, completa Almeida.<\/p>\n<p>Procurados pela\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil,<\/strong>\u00a0tanto Eletronorte quanto Cons\u00f3rcio Amap\u00e1 Energia n\u00e3o retornaram sobre a morte de Sergio Cley. J\u00e1 a Companhia de Eletricidade do Amap\u00e1 (CEA), respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o de energia ao Estado, disse que \u201cidentificou que o caso se tratou de interven\u00e7\u00e3o na rede el\u00e9trica sem autoriza\u00e7\u00e3o\u201d e que a v\u00edtima n\u00e3o pertencia ao quadro de colaboradores de nenhuma empresa que presta servi\u00e7o \u00e0 companhia.<\/p>\n<p>Segundo assessoria jur\u00eddica da Webflash, o acidente de Jehoash seria de responsabilidade da empresa Ap Import LTDA, da qual era funcion\u00e1rio. A Ap Import LTDA afirmou, em nota, que \u201d houve o custeio integral de todas as despesas funer\u00e1rias do funcion\u00e1rio, e que, em respeito \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o atualmente conduzida pela Pol\u00edcia Civil do Estado do Amap\u00e1, n\u00e3o comentar\u00e1 as circunst\u00e2ncias do ocorrido\u201d. Um inqu\u00e9rito policial investiga se houve omiss\u00e3o por parte da empresa.<\/p>\n<h1>A crise sem fim e as promessas em v\u00e3o<\/h1>\n<p>As autoridades demoraram a prestar aten\u00e7\u00e3o na crise energ\u00e9tica que assolou o Estado. Durante mais de 20 dias, cerca de 765 mil pessoas ficaram isoladas sem acesso \u00e0 internet e \u00e0 telefonia. Foram mais de tr\u00eas semanas de incertezas, novos blecautes e um rod\u00edzio de energia em 13 cidades.<\/p>\n<p>Apesar da demora em reagir, promessas de ressarcimento dos danos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o foram feitas tanto pelo governo estadual quanto federal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da promessa de ressarcimento aos amapaenses, Jair Bolsonaro ligou um gerador termoel\u00e9trico de 2MW\/h movido a combust\u00edvel f\u00f3ssil em uma das subesta\u00e7\u00f5es que distribuem energia para o Estado. Seria o marco do fim da crise. Mas a a\u00e7\u00e3o era simb\u00f3lica. Para resolver a crise energ\u00e9tica, foram ligadas 180 MW\/h de energia fixa, por\u00e9m a demanda segura seria de 240 MW\/h, segundo relat\u00f3rio do senador Randolfe Rodrigues (Rede).<\/p>\n<p>\u201cFoi tudo feito de forma muito improvisada. Eles instalaram 180 MW\/h apenas. Ainda n\u00e3o h\u00e1 um gerador secund\u00e1rio caso os que est\u00e3o l\u00e1 entrem em pane novamente. Outra quest\u00e3o que nunca nos responderam \u00e9 se o sistema ir\u00e1 conseguir suprir um pico de demanda\u201d, alerta o senador Randolfe Rodrigues , que moveu uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica contra o governo federal e tamb\u00e9m pediu o afastamento dos diretores da Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel) e do Operador Nacional o Sistema (ONS), \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pela gest\u00e3o da energia no Brasil.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Apag%C3%A3o-Macap%C3%A1-12.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Senador Randolfe Rodrigues (Rede) em entrevista a equipe do Rep\u00f3rter Brasil no Amap\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<p>Apesar das promessas, o governo federal se recusou pagar duas parcelas de aux\u00edlios emergenciais (para compensar as perdas geradas pelo isolamento social da pandemia) \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do Amap\u00e1 solicitado em a\u00e7\u00e3o judicial pelo partido Rede. A Advocacia-Geral da Uni\u00e3o entrou com recurso para negar o pedido ainda em novembro. Por\u00e9m, no dia 11 de dezembro, a Justi\u00e7a determinou que o governo e a Caixa Econ\u00f4mica Federal t\u00eam dez dias para efetuar o pagamento da primeira parcela.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a visita do presidente ao Estado, foi publicada uma Medida Provis\u00f3ria, que definiu o plano de apoio a v\u00edtimas do apag\u00e3o \u2013 que \u00e9 basicamente isentar os amapaenses da conta de luz de novembro.<\/p>\n<p>Outra medida anunciada oficialmente pela Aneel foi incluir cerca de dois mil moradores do Amap\u00e1 no programa Luz Para Todos. Mas nenhum aux\u00edlio direto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o foi executado para compensar perdas e, especialmente, as mortes. Nenhum dos \u00f3rg\u00e3os questionados respondeu sobre as vidas perdidas durante o apag\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO que mais o choca nessa situa\u00e7\u00e3o toda s\u00e3o as mortes. J\u00e1 vi muitas. Gente precisando de tratamento m\u00e9dico intensivo e o hospital sem luz. As estradas p\u00e9ssimas pra levar o povo at\u00e9 a capital. E o mais triste \u00e9 que as mortes s\u00e3o sempre entre os mais carentes\u201d, lamenta Manoel Jorge da Concei\u00e7\u00e3o das Merc\u00eas, funcion\u00e1rio p\u00fablico e morador de Serra do Navio, cidade a 209 km da capital que, junto a Pedra Branca do Amapari, a 189 km de Macap\u00e1, , h\u00e1 anos sofre com constantes apag\u00f5es energ\u00e9ticos.<\/p>\n<h1>Um problema antigo<\/h1>\n<p>As duas cidades foram fundadas ap\u00f3s 1957 com a constru\u00e7\u00e3o das Vilas de Oper\u00e1rios da minera\u00e7\u00e3o de mangan\u00eas da empresa Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio de Min\u00e9rios (Icomi) \u2013 parte dos grandes projetos de minera\u00e7\u00e3o que est\u00e3o no Amap\u00e1 h\u00e1 mais de 60 anos. A riqueza mineral n\u00e3o evitou o abandono da popula\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 mais de cinco anos sofre com a falta de energia. \u00c9 comum as duas cidades ficarem sem luz por at\u00e9 cinco dias \u2013 inclusive com falta energia no hospital municipal.<\/p>\n<p>\u201cAqui \u00e9 assim, ficamos sempre, e por dias. A rede \u00e9 antiga, tem 60 anos, e falta manuten\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 sempre a desculpa\u201d, diz Merc\u00eas. \u201c\u00c9 um crime contra a humanidade, temos um munic\u00edpio t\u00e3o rico e vivemos abaixo da pobreza, n\u00e3o temos nem as necessidades b\u00e1sicas atendidas.\u201d<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Apag%C3%A3o-Macap%C3%A1-7.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Manoel Jorge da Concei\u00e7\u00e3o das Merc\u00eas, funcion\u00e1rio p\u00fablico e morador de Serra do Navio<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em Pedra Branca do Amapari, uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica exige o ressarcimento das perdas materiais da popula\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos dois anos. O Minist\u00e9rio P\u00fablico do Amap\u00e1 entrou na Justi\u00e7a contra a Companhia de Eletricidade do Amap\u00e1 (CEA) por causa das constantes interrup\u00e7\u00f5es no fornecimento de energia el\u00e9trica na cidade. A CEA foi condenada a fornecer energia el\u00e9trica de forma eficiente, regular e cont\u00ednua, sob pena de multa de R$ 2 mil reais por hora de interrup\u00e7\u00e3o e pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o aos moradores lesados por essas interrup\u00e7\u00f5es no fornecimento de energia el\u00e9trica, conforme previsto no C\u00f3digo de Defesa do Consumidor.<\/p>\n<p>\u201cMesmo com a decis\u00e3o [favor\u00e1vel ao consumidor], o pedido segue ignorado. Agora estamos requerendo judicialmente que a companhia cumpra a senten\u00e7a condenat\u00f3ria\u201d, diz a promotora de Justi\u00e7a Thaysa Assum, autora da a\u00e7\u00e3o. \u201cMesmo com a a\u00e7\u00e3o, desde 2019, a CEA descumpriu a obriga\u00e7\u00e3o de fornecer energia el\u00e9trica de forma eficiente, cont\u00ednua e regular. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, sempre falta luz. A companhia alega que houve problemas na empresa subcontratada para manuten\u00e7\u00e3o na linha\u201d, completa a promotora.<\/p>\n<p>Outra a\u00e7\u00e3o investiga o CEA por responsabilidade direta em quatro mortes. Um casal e seus dois filhos teriam morrido devido \u00e0 falta de manuten\u00e7\u00e3o na rede de energia. Eles estavam em uma moto na estrada da comunidade de Sete Ilhas, em Pedra Branca do Amapari, quando passaram em cima de um fio de energia que estava jogado na pista. A descarga el\u00e9trica matou Gilson Cruz da Silva, de 33 anos, os filhos Gerson, de 5 anos, e Graziele, de 2 anos, na hora.<\/p>\n<p>A m\u00e3e das crian\u00e7as, Gleice Kelle Gomes da Silva, de 26 anos, morreu ap\u00f3s tr\u00eas dias internada no Hospital de Emerg\u00eancia (HE) de Macap\u00e1. Ela sofreu queimaduras de 3\u00ba grau em 70% do corpo e n\u00e3o resistiu aos ferimentos.<\/p>\n<p>A CEA alega que o cabo que encostou na moto em movimento, onde estavam as quatro pessoas, fazia parte de uma rede clandestina. Um inqu\u00e9rito policial investiga a responsabilidade dos \u00f3bitos.<\/p>\n<p>No que tange ao problema de fornecimento de energia \u00e0 Serra do Navio e Pedra Branca do Amapari, a companhia afirmou que \u201cas linhas de transmiss\u00e3o perpassam, em grande parte, por regi\u00f5es de mata fechada e de dif\u00edcil acesso\u201d, o que \u201cocasiona problemas constantes de falta de energia\u201d. Disse ainda que \u201ctem intensificado o trabalho de manuten\u00e7\u00e3o preventiva e corretiva na rede el\u00e9trica que atende esta regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h1>Rod\u00edzio nos hospitais<\/h1>\n<p>O apag\u00e3o tamb\u00e9m comprometeu o funcionamento dos hospitais. Foram tantos dias sem luz, que no hospital central de Macap\u00e1 os m\u00e9dicos tiveram que tomar a decis\u00e3o entre ligar as m\u00e1quinas de hemodi\u00e1lise e as Unidades de Terapia Intensiva (UTI).<\/p>\n<p>A falta de luz fez com que pacientes precisassem revesar a m\u00e1quina de hemodi\u00e1lise, necess\u00e1ria para manter vivo as v\u00edtimas de doen\u00e7as renais graves. Rubens Neves de Albuquerque J\u00fanior, de 59 anos, estava com covid-19 e sofria de doen\u00e7as renais e diabetes. Ele teria sido um dos que se submeteu ao rod\u00edzio na hemodi\u00e1lise. Morreu em 10 de novembro, no Hospital Universit\u00e1rio, na capital.<\/p>\n<p>Durante o apag\u00e3o, a Secretaria de Sa\u00fade do Estado tamb\u00e9m chegou a parar de contabilizar as v\u00edtimas do novo coronav\u00edrus. A Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o do governo do Amap\u00e1 n\u00e3o respondeu aos questionamentos da\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>\u00a0sobre o problema nos hospitais e sobre a morte de Albuquerque J\u00fanior.<\/p>\n<p>A Companhia de Eletricidade do Amap\u00e1 afirmou que \u201cdesde os primeiros dias de apag\u00e3o realizou manobras para atender os circuitos onde est\u00e3o localizados hospitais, maternidade, centros de tratamento \u00e0 pacientes com Covid-19 e Unidades de Pronto Atendimento com energia 24 horas\u201d. E que, em todas as mortes mencionadas, \u201cem nenhum dos casos foi comprovado que houve neglig\u00eancia por parte da companhia\u201d, que est\u00e1 prestando todos os esclarecimentos aos \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores.<\/p>\n<h1>Perda de estoques e de esperan\u00e7a<\/h1>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Apag%C3%A3o-Macap%C3%A1-11.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Regina Souza, pouco antes de mais uma queda de energia durante o trabalho em sua pequena venda h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas em Mazag\u00e3o Velho (a 40 km da capital)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os amapaenses tamb\u00e9m relatam que os pre\u00e7os subiram excessivamente por causa da falta de luz. Um garraf\u00e3o de \u00e1gua chegou a custar R$ 30. As velas tiveram uma infla\u00e7\u00e3o de quase 100%. Os comerciantes n\u00e3o tiveram outra alternativa a n\u00e3o ser passar os custos para os clientes.<\/p>\n<p>A vela foi o principal produto dos pequenos com\u00e9rcios no Amap\u00e1. A fam\u00edlia de Regina Souza administra uma pequena venda h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas em Mazag\u00e3o Velho (a 40 km da capital). Com menos de dez mil habitantes, a cidade \u00e9 a mais antiga do Estado, com 250 anos, e foi fundada por portugueses para abrigar fam\u00edlias vindas da regi\u00e3o do Mazag\u00e3o, no Marrocos, no continente africano.<\/p>\n<p>A falta de energia fez Souza perder grande parte do seu estoque. No dia do primeiro apag\u00e3o, em 3 de novembro, a fam\u00edlia ficou quase 24 horas sem saber o que acontecia. Apenas quando conseguiram acesso \u00e0 internet souberam que se tratava de uma crise no Estado todo. A incerteza durou cinco dias.<\/p>\n<p>Muitos foram para as ruas protestar. No bairro Rem\u00e9dios, no munic\u00edpio de Santana, a popula\u00e7\u00e3o fechou ruas e ateou fogo em pneus em revolta. Demorou 15 dias at\u00e9 os governantes come\u00e7arem a dar alguma satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cFicamos quase um m\u00eas sem poder vender carne. Quem tinha alguma distribuiu logo e os a\u00e7ougues pararam de fornecer. Depois, passamos mais de vinte dias na correria entre ligar e desligar todos eletrodom\u00e9sticos. Minha vizinha perdeu o freezer. Aqui criamos um rod\u00edzio entre o pessoal de casa pra ficar de olho nas tomadas\u201d, conta Souza que n\u00e3o sabe ao certo o quanto perdeu em mercadorias e vendas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das perdas materiais e humanas, o apag\u00e3o trouxe aos moradores o medo. Com as ruas no escuro, a inseguran\u00e7a voltou a ser uma quest\u00e3o. Na Comunidade Quilombola Lagoa dos \u00cdndios, foram dias de p\u00e2nico. Isso porque a comunidade foi atacada por um grupo armado, em 2019, que tentou remover os moradores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNosso receio maior era que essas pessoas pudessem se aproveitar do apag\u00e3o para voltar. As crian\u00e7as pareciam sentir nosso temor. Elas acordavam desesperadas, gritando com medo da escurid\u00e3o, e n\u00e3o pod\u00edamos fazer nada. Essa dor moral ningu\u00e9m vai nos ressarcir\u201d, conclui Danielson, ainda em luto pela morte de Danielle Silva.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Apag%C3%A3o-Macap%C3%A1-24.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Danielson Nascimento Padilha, l\u00edder da comunidade quilombola Lagoa dos Ind\u00edos, em Macap\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por: Juliana Arini,<br \/>\nFonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2020\/12\/crise-no-amapa-apagao-causa-ao-menos-8-mortes-em-meio-ao-descaso-das-autoridades\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Rep\u00f3rter Brasil (abre numa nova aba)\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Fonte: Amaz\u00f4nia.org<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo menos 8 pessoas morreram direta ou indiretamente por conta do blecaute que atingiu o Amap\u00e1 \u2013 agora, fam\u00edlias aguardam o ressarcimento prometido pelo presidente Bolsonaro Morador de Mazag\u00e3o Velho (AP) passa a noite \u00e0 espera de energia, sofrendo com os mosquitos e \u00e0 luz&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7887,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27,20,2],"tags":[1604],"class_list":["post-7869","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-amapa","category-area-3","category-slideshow","tag-crise-no-amapa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7869"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7869\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8081,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7869\/revisions\/8081"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7887"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}