{"id":8259,"date":"2021-09-21T21:16:53","date_gmt":"2021-09-22T00:16:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=8259"},"modified":"2021-09-21T21:16:53","modified_gmt":"2021-09-22T00:16:53","slug":"secas-frequentes-ameacam-a-capacidade-de-recuperacao-do-pantanal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/secas-frequentes-ameacam-a-capacidade-de-recuperacao-do-pantanal\/","title":{"rendered":"Secas frequentes amea\u00e7am a capacidade de recupera\u00e7\u00e3o do Pantanal"},"content":{"rendered":"<div><em>Apesar da estiagem extrema deste ano, bioma mostra boa capacidade de regenera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s recorde de queimadas em 2020. Mas especialistas alertam que equil\u00edbrio pode n\u00e3o resistir \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/em><\/div>\n<div>\nCom a seca extrema enfrentada pelo Pantanal em 2021, o fogo no bioma \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o para os especialistas. Embora o n\u00famero de queimadas no primeiro semestre tenha sido bem mais baixo que no mesmo per\u00edodo do ano passado, o bioma est\u00e1 enfrentando uma estiagem ainda mais severa, que deixa a comunidade cient\u00edfica em alerta para evitar que se repita a trag\u00e9dia de 2020. Depois de uma temporada excepcionalmente seca em 2019, os inc\u00eandios bateram recordes inimagin\u00e1veis no ano passado, produzindo a maior devasta\u00e7\u00e3o j\u00e1 registrada na hist\u00f3ria do Pantanal.<\/p>\n<p>O fogo provocado pela estiagem faz parte da din\u00e2mica natural do bioma, cujo equil\u00edbrio depende da altern\u00e2ncia entre per\u00edodos de alagamento e de seca. As esp\u00e9cies que prosperam na temporada \u00famida t\u00eam estrat\u00e9gias que lhes permitem sobreviver \u00e0 esta\u00e7\u00e3o seca, recuperando rapidamente o espa\u00e7o perdido quando cessam as queimadas e voltam as chuvas. Mas esse ciclo de regenera\u00e7\u00e3o natural pode ser comprometido, alertam especialistas, caso queimadas t\u00e3o intensas quanto as de 2020 ocorram por v\u00e1rios anos consecutivos &#8211; um risco bastante real, considerando as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Um estudo feito pelos Minist\u00e9rios P\u00fablicos de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso estima que quase 60% dos 22 mil focos de queimadas detectados pelo Inpe no Pantanal em 2020 foram provocados por atividades agropastoris. O ano passado foi especialmente catastr\u00f3fico para o bioma porque o n\u00famero de focos superou a soma de 2019, 2018 e 2017. Nunca se viu nada igual. At\u00e9 ent\u00e3o, o recorde, alcan\u00e7ado em 2005, era de 12,5 mil focos.<\/p>\n<p>A \u00e1rea afetada pelo fogo em 2020 tamb\u00e9m n\u00e3o tem precedentes: mais de 40 mil km\u00b2 ou mais de 27% da cobertura vegetal do bioma no Brasil. O recorde anterior havia sido tamb\u00e9m em 2005, quando 27 mil km\u00b2 foram destru\u00eddos. O impacto na fauna ainda n\u00e3o foi inteiramente mensurado, mas estimativas realizadas ainda no auge das queimadas do ano passado sugeriam que, em setembro, o fogo j\u00e1 havia atingido ao menos 65 milh\u00f5es de animais vertebrados e 4 bilh\u00f5es de invertebrados.<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s um impacto dessa magnitude, de acordo com especialistas, o Pantanal tem grande capacidade de regenera\u00e7\u00e3o &#8211; ao menos em algumas partes do bioma, que tem ambientes com caracter\u00edsticas muito diversas, como explica Christine Str\u00fcssmann, professora de Ecologia e Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). &#8220;A fauna do Pantanal tem grande capacidade de recupera\u00e7\u00e3o em alguns ambientes, como as \u00e1reas de campo inund\u00e1vel, que s\u00e3o sujeitas anualmente aos ciclos de cheias e seca acompanhada de fogo. Ali, a fauna se regenera com muita rapidez. Em outras \u00e1reas que n\u00e3o est\u00e3o sujeitas ao fogo recorrente, como as matas ciliares, dificilmente haver\u00e1 recupera\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Segundo ela, muitos animais t\u00eam estrat\u00e9gias para escapar, mesmo onde h\u00e1 o chamado &#8220;fogo subterr\u00e2neo&#8221;, que arde sob a cobertura de turfa quando as chamas j\u00e1 parecem ter cessado. Christine relata que \u00e9 comum observar roedores em atividade dentro de buracos onde o ch\u00e3o ainda est\u00e1 fumegante &#8211; um exemplo dessas estrat\u00e9gias. Ainda assim, uma enorme quantidade de animais n\u00e3o resiste.<\/p>\n<p>&#8220;O problema \u00e9 que o tempo de dura\u00e7\u00e3o do fogo foi muito grande em algumas \u00e1reas e, nesses casos, tanto a fauna quanto a flora t\u00eam mais dificuldades de recupera\u00e7\u00e3o. Nos campos inund\u00e1veis, logo ap\u00f3s os inc\u00eandios, observamos intensa atividade de peixes, sapos e caranguejos. Mas em cada \u00e1rea do bioma a resposta \u00e9 diferente&#8221;, afirma a professora.\n<\/p><\/div>\n<h2>Impactos na fauna<\/h2>\n<div>Christine coordenou uma das equipes de campo que realizou o primeiro grande invent\u00e1rio sobre a magnitude do impacto das queimadas de 2020 na fauna vertebrada pantaneira. O trabalho, resultado de uma parceria entre diversas institui\u00e7\u00f5es de pesquisa que atuam no Pantanal \u2013 incluindo a UFMT, que teve apoio do WWF-Brasil \u2013, permitiu estimar a mortalidade de animais em grandes \u00e1reas do Pantanal logo ap\u00f3s a passagem do fogo.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e1rias equipes de pesquisadores percorreram longos trechos atingidos por queimadas, em \u00e1reas que v\u00e3o do norte do Pantanal ao Mato Grosso do Sul, contando e registrando as carca\u00e7as de animais mortos, em per\u00edodos de 24 a 48 horas ap\u00f3s a passagem do fogo&#8221;, explica Christine.<\/p>\n<p>Nunca havia sido realizado um estudo dessa magnitude, com uma metodologia \u00fanica, em uma \u00e1rea t\u00e3o grande do Pantanal, salienta ela. Esse trabalho \u00e9 importante tamb\u00e9m porque fornece uma base para que novas pesquisas possam revelar a dimens\u00e3o do impacto global do fogo no ecossistema. Embora a falta de dados pr\u00e9vios impe\u00e7a uma an\u00e1lise precisa dos impactos sofridos pela fauna em 2020, os pesquisadores verificaram que algumas popula\u00e7\u00f5es foram mais atingidas.<\/p>\n<p>&#8220;O n\u00famero de serpentes que conseguimos ver foi maior que dos outros grupos. N\u00e3o temos uma base pr\u00e9via para compara\u00e7\u00e3o &#8211; e as popula\u00e7\u00f5es de serpentes podem ser muito maiores que as de outros grupos. Por\u00e9m, mesmo entre as serpentes, o impacto foi desigual. As aqu\u00e1ticas foram especialmente atingidas&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>De acordo com o estudo, a taxa de mortalidade foi alta principalmente entre os r\u00e9pteis, concentrando mais de 79% do total de animais mortos. Destes, mais de 95% eram serpentes, sendo que 97% delas eram aqu\u00e1ticas. Os mam\u00edferos foram pouco mais de 15% do total e os anf\u00edbios, 4%. O n\u00famero de aves mortas encontradas foi baixo.<\/p>\n<p>De acordo com a bi\u00f3loga Paula Valdujo, especialista em conserva\u00e7\u00e3o do WWF-Brasil que acompanhou a realiza\u00e7\u00e3o do estudo, a grande diversidade de ambientes do Pantanal, com determinadas esp\u00e9cies adaptadas a cada um deles, ajuda a explicar o impacto heterog\u00eaneo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c1reas que nos anos anteriores ficaram submersas est\u00e3o expostas por conta da estiagem. O Pantanal tem grande abund\u00e2ncia de esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas e semiaqu\u00e1ticas de vertebrados, que foram as mais impactadas. A seca extrema seguida de fogo foi uma receita pavorosa para os animais que vivem na \u00e1gua, alimentam-se de peixes, mas sobem para utilizar a vegeta\u00e7\u00e3o marginal&#8221;, destaca Paula.\n<\/p><\/div>\n<h2>Estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia<\/h2>\n<div>Apesar de o impacto na fauna ter sido imenso e preocupante, de acordo com Paula, n\u00e3o significa a extin\u00e7\u00e3o total. &#8220;Os ecossistemas pantaneiros t\u00eam grande resili\u00eancia. Assim como no Cerrado, a vegeta\u00e7\u00e3o retorna ap\u00f3s as queimadas e as esp\u00e9cies da fauna voltam a habit\u00e1-las, ainda que muitos fatores possam tornar esse processo demorado&#8221;, pondera.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que a fauna atingida pelo fogo em 2020 se regenere completamente, acredita Paula, mas tudo vai depender do que acontecer daqui em diante. &#8220;O impacto do fogo \u00e9 cumulativo. A vegeta\u00e7\u00e3o volta ap\u00f3s a queimada, mas, se a chuva for reduzida por mais um ou dois anos consecutivos, com grandes inc\u00eandios se repetindo, certamente essa resili\u00eancia pode ser comprometida &#8220;, alerta a bi\u00f3loga.<\/p>\n<p>Infelizmente, essa \u00e9 uma perspectiva real. O per\u00edodo de secas no Pantanal come\u00e7a em maio e tem seu auge em setembro. Mas, ap\u00f3s chuvas fracas em dezembro do ano passado e janeiro de 2021, a estiagem j\u00e1 teve in\u00edcio e a seca deste ano parece ainda mais severa que a de 2020. &#8220;Tivemos secas intensas por dois anos seguidos e a de 2021 \u00e9 recorde, com o Rio Paraguai pr\u00f3ximo ao n\u00edvel mais baixo da s\u00e9rie hist\u00f3rica iniciada em 2016. \u00c9 prov\u00e1vel que a seca seja pior que as dos \u00faltimos anos, que foram intensas\u201d, explica Paula. \u201c\u00c1reas que normalmente ficam submersas j\u00e1 est\u00e3o muito expostas. Com as secas intensas e repetidas, a vegeta\u00e7\u00e3o de \u00e1reas que normalmente j\u00e1 estariam inundadas se acumula, formando tufos secos de capim altamente inflam\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas representa uma grave amea\u00e7a ao bioma. Apesar da relev\u00e2ncia do fogo para o ecossistema pantaneiro e para o processo ecol\u00f3gico, as queimadas frequentes e em grande escala podem levar a impactos negativos cumulativos. Paula explica ainda que o desmatamento no Pantanal &#8211; mas tamb\u00e9m na Amaz\u00f4nia e no Cerrado \u2013 podem, de fato, tornar mais recorrentes os eventos extremos de estiagem, desequilibrando o complexo ciclo natural que garante o &#8220;pulso&#8221; de alagamento e seca caracter\u00edstico do bioma.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o adianta nada termos uma pol\u00edtica extremamente restritiva no Pantanal se as cabeceiras dos rios n\u00e3o forem conservadas no Cerrado&#8221;, afirma. Tudo o que acontece na Bacia do Alto Paraguai, salienta ela, afeta o Pantanal e altera\u00e7\u00f5es ambientais produzidas no planalto t\u00eam impacto nas partes baixas. &#8220;Por outro lado, sabemos que parte das chuvas do Pantanal dependem da Amaz\u00f4nia, onde o desmatamento tamb\u00e9m piora a situa\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Por isso, o planejamento territorial \u00e9 fundamental, assim como a conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas e o cumprimento do C\u00f3digo Florestal. As pol\u00edticas p\u00fablicas para o Pantanal n\u00e3o podem se limitar ao bioma&#8221;, frisa Paula.\n<\/p><\/div>\n<h2>Ciclos sobrepostos<\/h2>\n<div>Os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos ciclos do Pantanal certamente j\u00e1 est\u00e3o sendo sentidos, mas a complexidade desses fen\u00f4menos torna muito dif\u00edcil saber at\u00e9 que ponto eles determinaram a seca atual e os inc\u00eandios extremos de 2020, segundo a professora Catia Nunes da Cunha, especialista em ecologia de \u00e1reas alag\u00e1veis do Instituto de Bioci\u00eancias da UFMT.<\/p>\n<p>&#8220;O Pantanal \u00e9 uma moeda com duas caras, a fase seca e a fase inundada. Mas, al\u00e9m do ciclo anual que conhecemos, h\u00e1 tamb\u00e9m grandes varia\u00e7\u00f5es plurianuais. Isto \u00e9, a longo prazo, o ciclo anual se sobrep\u00f5e a grandes per\u00edodos mais \u00famidos, alternados por grandes per\u00edodos de estiagem mais forte, com muito fogo&#8221;, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>De acordo com ela, os \u00faltimos 40 anos corresponderam a um ciclo plurianual \u00famido. Em contrapartida, entre 1963 e 1973, houve um longo per\u00edodo seco, sem inunda\u00e7\u00f5es. &#8220;Sabemos que no per\u00edodo seco da d\u00e9cada de 1960, a vegeta\u00e7\u00e3o adaptada \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o regrediu, expandindo-se novamente nos \u00faltimos 40 anos e dominando a paisagem. Mas ainda n\u00e3o podemos afirmar com certeza se estamos entrando em um novo per\u00edodo de grandes estiagens&#8221;, pontua Catia.<\/p>\n<p>Essa hip\u00f3tese est\u00e1 sendo estudada. Catia coordena uma equipe de campo da UFMT que est\u00e1 avaliando o efeito do fogo sobre a vegeta\u00e7\u00e3o pantaneira. Os pesquisadores trabalham em nove parcelas permanentes que s\u00e3o estudadas desde 2006. As \u00e1rvores s\u00e3o etiquetadas e o grupo analisa o grau de mortalidade e a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o das diversas esp\u00e9cies da flora ap\u00f3s os inc\u00eandios.<\/p>\n<p>&#8220;Verificamos que, no Pantanal, apesar da presen\u00e7a ocasional do fogo, a vegeta\u00e7\u00e3o n\u00e3o era dramaticamente afetada, havia uma consider\u00e1vel capacidade de regenera\u00e7\u00e3o, mesmo nas matas secas e cerrad\u00f5es. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que, nos anos \u00famidos, algumas esp\u00e9cies, como o cambarazal, se expandem e ocupam grandes \u00e1reas que antes eram secas e come\u00e7aram a inundar&#8221;, explica.\n<\/p><\/div>\n<h2>Pr\u00f3s e contras<\/h2>\n<div>A seca e as queimadas de 2020, relata Catia, levaram muitas \u00e1rvores a morrerem com a falta de \u00e1gua, mesmo em \u00e1reas que n\u00e3o foram atingidas pelo fogo. Por outro lado, em \u00e1reas de florestas secas, h\u00e1 esp\u00e9cies que se beneficiam das chamas. &#8220;Vimos que nas \u00e1reas queimadas o impacto depende da intensidade do fogo. Uma antiga floresta de cambar\u00e1s, com \u00e1rvores grandes e bem estabelecidas que estud\u00e1vamos h\u00e1 v\u00e1rios anos &#8211; e que sempre se recuperava ap\u00f3s as queimadas -, foi totalmente destru\u00edda ap\u00f3s os inc\u00eandios de 2019 e 2020. Quando as labaredas s\u00e3o muito altas, em um hor\u00e1rio muito quente do dia, o impacto \u00e9 mais grave&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A altern\u00e2ncia entre a fase seca e \u00famida \u00e9 o que controla a vegeta\u00e7\u00e3o, destaca Catia. &#8220;Os per\u00edodos plurianuais fazem expandir ou regredir a tipologia da vegeta\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de quem tem afinidade com a umidade e quem n\u00e3o suporta a inunda\u00e7\u00e3o. O maior problema do fogo \u00e9 a reincid\u00eancia. Se realmente estivermos entrando em um longo per\u00edodo seco, muitas esp\u00e9cies v\u00e3o se alastrar e outras v\u00e3o se retrair, mudando a cara do Pantanal por v\u00e1rios anos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Embora a seca de 2021 esteja ainda pior que a de 2020, at\u00e9 o in\u00edcio de julho o n\u00famero de focos de queimadas no acumulado do ano era equivalente a um d\u00e9cimo do que foi detectado no mesmo per\u00edodo em 2020. Isso aconteceu provavelmente porque o tempo foi muito curto para que o emaranhado de vegeta\u00e7\u00e3o se desenvolvesse \u2013 e, portanto, h\u00e1 menos biomassa para ser queimada, de acordo com Catia.<\/p>\n<p>Para o professor Geraldo Damasceno, do Laborat\u00f3rio de Bot\u00e2nica e de Ecologia Vegetal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o que chamou a aten\u00e7\u00e3o em 2020 foi o tamanho da \u00e1rea queimada. &#8220;Foi um ano muito seco e \u00e1reas que dificilmente estariam dispon\u00edveis para pegar fogo acabaram se incendiando&#8221;, diz o bi\u00f3logo.<\/p>\n<p>Boa parte do Pantanal \u00e9 composta por vegeta\u00e7\u00e3o herb\u00e1cea, que tem uma din\u00e2mica resistente a queimadas. Quando o fogo passa, destr\u00f3i a vegeta\u00e7\u00e3o exposta, mas um &#8220;banco de sementes&#8221; de plantas terrestres e aqu\u00e1ticas permanece nas camadas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>Quando a inunda\u00e7\u00e3o volta, a tend\u00eancia \u00e9 que a vegeta\u00e7\u00e3o herb\u00e1cea se recupere. &#8220;Sempre h\u00e1 esp\u00e9cies mais sens\u00edveis que reduzir\u00e3o sua cobertura. Outras, beneficiam-se do fogo e se alastram, incluindo esp\u00e9cies arb\u00f3reas. Os bancos de sementes s\u00e3o muito resistentes e \u00e9 poss\u00edvel que esteja tudo verde novamente no ano que vem&#8221;, explica Damasceno.<\/p>\n<p>De acordo com ele, todo o sistema \u00e9 altamente resiliente, contanto que n\u00e3o se perca o pulso de cheias e secas. &#8220;Se um per\u00edodo seco permanecer por muitos anos, a\u00ed sim \u00e9 bastante complicado para a sobreviv\u00eancia de diversas plantas. Se o Pantanal parar de pulsar, temos realmente um problema. Esse pulso tamb\u00e9m \u00e9 afetado pelo desmatamento nas bordas do bioma.&#8221;\n<\/p><\/div>\n<h2>Manejo do fogo<\/h2>\n<div>O professor destaca a import\u00e2ncia do manejo integrado do fogo no bioma e menciona o estudo feito pelos Minist\u00e9rios P\u00fablicos (MPs) de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que atribui \u00e0 a\u00e7\u00e3o humana a maior parte das queimadas ocorridas no Pantanal em 2020. &#8220;Os pesquisadores do MP fizeram um levantamento das \u00e1reas onde os principais focos de fogo aconteceram, mapearam algumas fazendas e descobriram que a maior parte do fogo teve origem na pr\u00e1tica de limpeza do terreno. Esse manejo pode e deve ser feito, mas \u00e9 preciso ter cuidado. Provavelmente usaram o fogo como costumavam fazer sempre, mas devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da seca, os inc\u00eandios se espalharam. Se houvesse um sistema de preven\u00e7\u00e3o do fogo atuante, um alarme geral teria sido dado&#8221;, diz Damasceno.<\/p>\n<p>Colega de Damasceno, o agr\u00f4nomo Arnildo Pott, professor do Departamento de Biologia da UFMS que estuda a biologia vegetal do Pantanal h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, explica que, uma vez que os inc\u00eandios saem do controle, \u00e9 muito dif\u00edcil deter seu alastramento quando as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito secas. &#8220;As turfeiras, muitas vezes, formam mais de um metro de solo org\u00e2nico e inflam\u00e1vel, acumulado eventualmente por 20, 30 ou 40 anos. Nessas \u00e1reas, depois da passagem do fogo, quando o inc\u00eandio j\u00e1 parece debelado, tudo est\u00e1 queimando por baixo, como uma brasa de cigarro. Assim, o fogo que foi apagado em uma \u00e1rea, pode incandescer durante a noite e se espalhar por outras \u00e1reas&#8221;, explica Pott.<\/p>\n<p>Ele conta que, dependendo da for\u00e7a do fogo, ele n\u00e3o pode ser detido nem mesmo por aceiros &#8211; faixas nas quais a vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 suprimida de forma a isolar uma parte da floresta e evitar o alastramento de inc\u00eandios. &#8220;J\u00e1 vimos fagulhas atravessando o Rio Paraguai e incendiando a outra margem. Seria impratic\u00e1vel instalar um aceiro maior que o rio&#8221;, analisa.\n<\/p><\/div>\n<h2>Fogo at\u00e9 na \u00e1gua<\/h2>\n<div>O fogo planejado e controlado pode reduzir os inc\u00eandios, de acordo com Pott. &#8220;As queimadas diminu\u00edram depois que o fogo passou a ser regulamentado. O problema \u00e9 que, em condi\u00e7\u00f5es muito secas, \u00e9 preciso muito cuidado para fazer esse manejo. Dependendo das condi\u00e7\u00f5es, o fogo pode at\u00e9 mesmo passar por cima de corpos<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua. O rabo-de-burro, que \u00e9 um capim alto, cresce dentro das lagoas e fica com a parte superior seca acima da \u00e1gua, permitindo que o fogo se alastre sobre a lagoa&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Pott faz uma distin\u00e7\u00e3o entre a seca atmosf\u00e9rica e a seca no solo. &#8220;No ano passado, as duas se somaram. N\u00e3o choveu muito e n\u00e3o houve inunda\u00e7\u00f5es. O manejo do fogo n\u00e3o foi modificado e o resultado foi catastr\u00f3fico&#8221;, lembra.<\/p>\n<p>O professor come\u00e7ou a trabalhar no Pantanal no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 e conta que, naquela \u00e9poca, os moradores locais ainda estavam adaptados ao per\u00edodo seco que predominou at\u00e9 1974. &#8220;Eles contam que atravessavam o Rio Paraguai a p\u00e9, a cavalo, de jipe e de trator. A seca foi t\u00e3o prolongada que as pessoas constru\u00edram casas em locais que hoje s\u00e3o completamente alagados&#8221;, declara Pott.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber, segundo Pott, se essa situa\u00e7\u00e3o vai perdurar, como na d\u00e9cada seca iniciada em 1963, e se, com isso, inc\u00eandios como os de 2020 se tornar\u00e3o mais frequentes, comprometendo o equil\u00edbrio do bioma. Mas, pelo menos por enquanto, o Pantanal deve conseguir se regenerar. &#8220;Um m\u00eas ap\u00f3s a passagem do fogo em 2020 eu fui de carro at\u00e9 a ponte do Rio Paraguai para observar a regenera\u00e7\u00e3o. A rebrota e a germina\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam acontecendo em n\u00edveis impressionantes&#8221;, afirma.<\/p><\/div>\n<div>Fonte: WWF Brasil<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar da estiagem extrema deste ano, bioma mostra boa capacidade de regenera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s recorde de queimadas em 2020. Mas especialistas alertam que equil\u00edbrio pode n\u00e3o resistir \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas Com a seca extrema enfrentada pelo Pantanal em 2021, o fogo no bioma \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8260,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,29,35,2],"tags":[1632],"class_list":["post-8259","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-area-3","category-mato-grosso","category-meio-ambiente","category-slideshow","tag-estiagem-severa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8259"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8261,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8259\/revisions\/8261"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}