{"id":8332,"date":"2021-11-28T10:57:04","date_gmt":"2021-11-28T13:57:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=8332"},"modified":"2021-11-28T10:57:04","modified_gmt":"2021-11-28T13:57:04","slug":"a-corrida-do-ouro-no-rio-madeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/a-corrida-do-ouro-no-rio-madeira\/","title":{"rendered":"A corrida do ouro no rio Madeira"},"content":{"rendered":"<p>Imagens de balsas espalhadas em trecho proibido de um dos principais afluentes do Amazonas correram o mundo. Uma afronta ao Estado, segundo ativistas, e um reflexo do momento que o pa\u00eds vive.<\/p>\n<p>Autazes, cidade de 41 mil habitantes a pouco mais de 100 quil\u00f4metros da capital Manaus (AM), pode ter entrado para o mapa informal da minera\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. \u00c0s margens do rio Madeira, o munic\u00edpio n\u00e3o tinha um hist\u00f3rico de explora\u00e7\u00e3o de ouro at\u00e9 que viu surgir, subitamente, uma cidade flutuante formada por balsas emparelhadas na \u00faltima semana.<\/p>\n<p>A corrida teria se iniciado a partir de um boato, ap\u00f3s uma embarca\u00e7\u00e3o ter encontrado ouro na regi\u00e3o. A not\u00edcia correu e atraiu centenas de balsas para o ponto, como\u00a0conta \u00e0 DW um morador das redondezas. Ele passou dois dias com os garimpeiros e prefere n\u00e3o ter o nome identificado na reportagem.<\/p>\n<p>&#8220;L\u00e1 tem fam\u00edlia, tem crian\u00e7a, adulto, jovens, adolescentes. Eu vi todo o processo de extra\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio l\u00e1 dentro\u201d, disse\u00a0ele por telefone \u00e0 DW nesta sexta-feira (26\/11), ap\u00f3s deixar uma das balsas.<\/p>\n<p>Os garimpeiros come\u00e7aram a se dispersar. A retirada ocorre depois das declara\u00e7\u00f5es do vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o no Pal\u00e1cio do Planalto, que disse que uma opera\u00e7\u00e3o estava em &#8220;processo de planejamento\u201d para fiscalizar a atividade no Madeira. Pol\u00edcia Federal e Marinha participariam da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No estado do Amazonas, garimpo de ouro no rio Madeira \u00e9 ilegal.<\/p>\n<p>Para Danicley de Aguiar, porta-voz da Campanha Amaz\u00f4nia do Greenpeace, o an\u00fancio pr\u00e9vio de Mour\u00e3o deu tempo suficiente para que os garimpeiros organizassem uma fuga. &#8220;O Estado n\u00e3o foi capaz de colocar de p\u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o\u201d, disse \u00e0 DW.<\/p>\n<p>Na \u00faltima quarta-feira, um avi\u00e3o fretado pela organiza\u00e7\u00e3o sobrevoou o local e divulgou imagens que rodaram o mundo das centenas de embarca\u00e7\u00f5es garimpeiras. &#8220;A pergunta \u00e9 essa: vai ficar o dito pelo n\u00e3o dito? Qual vai ser a posi\u00e7\u00e3o das autoridades federais agora? Os garimpeiros saem do lugar e fica tudo bem?\u201d, questiona Aguiar.<\/p>\n<p>Procurado, o gabinete da vice-presid\u00eancia n\u00e3o comentou o assunto at\u00e9 o fechamento dessa reportagem.<\/p>\n<h2>Impacto ambiental da minera\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Segundo relatos de moradores, a presen\u00e7a dos garimpeiros dividiu opini\u00f5es na cidade. Alguns comerciantes relataram vendas recordes em poucos minutos para os forasteiros. Houve quem se aproximasse em pequenos barcos das balsas para oferecer produtos.<\/p>\n<p>&#8220;A parte contra \u00e9 por cauda da degrada\u00e7\u00e3o do ambiente. Nessa parte, fica todo mundo ressabiado. Por que a balsa fica mexendo o solo debaixo da \u00e1gua rio\u201d, disse um morador ouvido pela DW.<\/p>\n<p>Dragas chegavam a trabalhar 48 horas na regi\u00e3o ininterruptamente em busca do ouro. &#8220;Imagine 400 dragas fazendo isso ao mesmo tempo\u201d, diz o morador que acompanhou os garimpeiros.<\/p>\n<p>Movidas por motores a diesel, as dragas sugam um grande volume de sedimento acumulado no fundo do rio, que \u00e9 despejado sobre um esp\u00e9cie de carpete. Os fragmentos de ouro sugados junto com a terra s\u00e3o recuperados com a ajuda do merc\u00fario, que tem a capacidade de se unir a outros metais e formar am\u00e1lgamas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa etapa, basta o calor de um ma\u00e7arico para separar os dois metais, j\u00e1 que o merc\u00fario se liquidifica e evapora numa temperatura inferior do que o ouro. No fim do processo, normalmente, as partes que n\u00e3o interessam, como os restos contaminados, s\u00e3o jogados de volta ao rio.<\/p>\n<p>Um dos maiores problemas do uso merc\u00fario \u00e9 o impacto causado no ambiente e na sa\u00fade: ele contamina peixes que podem virar alimento e se acumula no corpo humano. Os sistemas nervoso e imunol\u00f3gico podem ser afetados, assim como pulm\u00f5es e rins, com sintomas que v\u00e3o de tremores a perda de mem\u00f3ria &#8211; e, em casos extremos, morte.<\/p>\n<h2>Hist\u00f3rico de degrada\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Com mais de 3 mil quil\u00f4metros de extens\u00e3o, o rio Madeira \u00e9 um dos principais afluentes do rio Amazonas, e corta os estados de Rond\u00f4nia e Amazonas. Ele \u00e9 uma via de transporte hidrovi\u00e1rio importante na regi\u00e3o Norte, al\u00e9m de sua import\u00e2ncia ambiental e na pesca.<\/p>\n<p>Os relatos de presen\u00e7a de ouro no Madeira datam de 1826, com intensifica\u00e7\u00e3o da atividade de garimpo registrada a partir da d\u00e9cada de 1970. Um relat\u00f3rio publicado em 1982 pelo ent\u00e3o Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral estimava a presen\u00e7a de 1.200 garimpeiros no leito do rio com uma produ\u00e7\u00e3o de 817 quilos do metal. Naquela \u00e9poca, a opera\u00e7\u00e3o era semimecanizada, e as balsas dependiam de mergulhadores que posicionavam os tubos suc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas seguintes, a corrida do ouro atraiu habitantes de outros estados a Rond\u00f4nia. Com o passar dos anos, a extrac\u0327a\u0303o do metal em toda a Amazo\u0302nia passou a ser feita com maquina\u0301rio pesado: balsas, dragas, pa\u0301s-carregadeiras e escavadeiras hidra\u0301ulicas que custam milho\u0303es de reais.<\/p>\n<p>&#8220;Os i\u0301ndices de ilegalidade na atividade sa\u0303o alarmantes. O ouro, ativo financeiro de enorme importa\u0302ncia estrate\u0301gica para as financ\u0327as nacionais, esvai-se pelas fronteiras com pouco ou nenhum controle das age\u0302ncias pu\u0301blicas, ao mesmo tempo que recursos hi\u0301dricos sa\u0303o contaminados por mercu\u0301rio e parcelas da floresta sa\u0303o postas abaixo na busca por novos veios, e o ta\u0303o prometido desenvolvimento econo\u0302mico na\u0303o chega&#8221;, ressalta o documento publicado em 2020 produzido pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal.<\/p>\n<p>Em Rond\u00f4nia, um decreto estadual de janeiro liberou o garimpo no rio Madeira. Segundo o texto, o licenciamento ambiental \u00e9 feito pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental, e as embarca\u00e7\u00f5es devem ter cadastro na Capitania dos Portos ou na Marinha.<\/p>\n<p>No curso do mesmo rio no estado do Amazonas, por outro lado, a atividade \u00e9 proibida. Em 2017, o governo estadual chegou a liberar a explora\u00e7\u00e3o do ouro sem os estudos pr\u00e9vios, concedendo licen\u00e7as de opera\u00e7\u00e3o. Naquele mesmo ano, uma liminar ca\u00e7ou as licen\u00e7as e, em agosto de 2021, a Justi\u00e7a Federal condenou o Instituto de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam) a anular as licen\u00e7as dadas irregularmente.<\/p>\n<h2>&#8220;Licen\u00e7a pol\u00edtica&#8221;<\/h2>\n<p>Para Danicley de Aguiar, do Greenpeace, a aglomera\u00e7\u00e3o das balsas onde elas s\u00e3o proibidas \u00e9 um reflexo simb\u00f3lico do momento que o pa\u00eds vive. &#8220;Os infratores ficam \u00e0 vontade pra fazerem o que quiserem porque n\u00e3o ser\u00e3o punidos. Eles n\u00e3o t\u00eam licen\u00e7a ambiental, mas t\u00eam licen\u00e7a pol\u00edtica\u201d, afirma, mencionando o discurso pr\u00f3-garimpo do presidente Jair Bolsonaro e dos governadores.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Aguiar, opera\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o suficientes para resolver a quest\u00e3o. &#8220;A crise econ\u00f4mica levou para pobreza milhares de pessoas. Precisamos de um debate s\u00e9rio que promova a reorienta\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico brasileiro, que considere a floresta e seus rios como um ativo, e n\u00e3o como problema\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Ao que tudo indica, diz Aguiar, as balsas de garimpo que estavam em Autazes e que agora se dispersam est\u00e3o subindo o rio no sentido de Humait\u00e1, considerada ref\u00fagio hist\u00f3rico dessas embarca\u00e7\u00f5es no estado. Foi l\u00e1 que, em 2017, pr\u00e9dios do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade, Icmbio, e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renov\u00e1veis, Ibama, foram incendiados por garimpeiros.<\/p>\n<p>&#8220;O que aconteceu em Autazes foi uma afronta ao Estado. Ningu\u00e9m coloca 300 balsas num lugar sem organiza\u00e7\u00e3o. O Estado tem que entender o que est\u00e1 acontecendo&#8221;, finaliza Aguiar.<\/p>\n<p>Fonte: DW &#8211; Por <a class=\"sc-dlfnbm sc-hKgILt bcaJjD gTLZXx sc-fXoxut bLSmTI author author-link\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/n%C3%A1dia-pontes\/person-35926801\"><span class=\"sc-crrsfI iDhzRL\">N\u00e1dia Pontes<\/span><\/a><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagens de balsas espalhadas em trecho proibido de um dos principais afluentes do Amazonas correram o mundo. Uma afronta ao Estado, segundo ativistas, e um reflexo do momento que o pa\u00eds vive. 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