{"id":8498,"date":"2022-05-12T13:33:55","date_gmt":"2022-05-12T16:33:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=8498"},"modified":"2022-05-12T13:43:52","modified_gmt":"2022-05-12T16:43:52","slug":"liderancas-indigenas-da-amazonia-denunciam-crimes-em-nome-do-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/liderancas-indigenas-da-amazonia-denunciam-crimes-em-nome-do-ouro\/","title":{"rendered":"Lideran\u00e7as ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia denunciam crimes em nome do ouro"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"description\">Povos ind\u00edgenas do Par\u00e1 buscam apoio contra invas\u00f5es de garimpeiros e mineradoras como a Belo Sun<\/h2>\n<p>Maria Leusa Munduruku nunca pensou que precisaria ir t\u00e3o longe para ajudar o seu povo. Na Su\u00ed\u00e7a, diante de representantes de refinarias que recebem ouro extra\u00eddo da Amaz\u00f4nia, ela relata como o consumo do metal precioso tem influ\u00eancia destrutiva no territ\u00f3rio onde vivem os munduruku, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;Eles perguntaram para a gente o que podem fazer para ajudar. A gente pede que eles parem de comprar o ouro e que consultem os povos ind\u00edgenas. Os pa\u00edses europeus que compram, que apoiam esse com\u00e9rcio com sangue ind\u00edgena, s\u00e3o culpados tamb\u00e9m&#8221;, diz Maria por telefone \u00e0\u00a0<strong>DW Brasil<\/strong>\u00a0ap\u00f3s a reuni\u00e3o na Su\u00ed\u00e7a,\u00a0na \u00faltima sexta-feira (06\/05).<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria, de 5 anos, acompanha a m\u00e3e. A crian\u00e7a \u00e9 uma das testemunhas do ataque que a aldeia onde vivia com a fam\u00edlia sofreu, h\u00e1 um ano, quando garimpeiros atearam fogo na tentativa de intimidar quem se op\u00f5e \u00e0 atividade ilegal dentro da Terra Ind\u00edgena (TI) Munduruku.<\/p>\n<p>&#8220;Eles queimaram nossas casas, atiraram pedras em nossos filhos. A vida dos nossos filhos est\u00e1 no meio dessa viol\u00eancia&#8221;, relembra Maria Leusa, que preside a Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Ind\u00edgenas Munduruku Wakobor\u0169n, cuja sede tamb\u00e9m foi atacada.<\/p>\n<p>S\u00f3 em 2019 e 2020,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/garimpo-ilegal-explode-em-territ%C3%B3rio-yanomami-e-amea%C3%A7a-ind%C3%ADgenas\/a-56983231\">garimpos ilegais<\/a>\u00a0levaram ao desmatamento de\u00a0pelo menos 1.925 hectares na TI Munduruku, apontou um estudo recente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Irregularidades est\u00e3o por toda a cadeia: segundo os pesquisadores, quase 49 toneladas de ouro brasileiro vendidas no per\u00edodo s\u00e3o ilegais, o que corresponde a 28% do total produzido.\u00a0Um levantamento feito pelo Instituto Escolhas neste ano encontrou um dado ainda mais preocupante: metade do ouro comercializado entre 2015 e 2020 t\u00eam ind\u00edcio de ilegalidade (229 toneladas).<\/p>\n<p>Al\u00e9m das den\u00fancias feitas a autoridades no pa\u00eds, lideran\u00e7as ind\u00edgenas e comunit\u00e1rias buscam mais aten\u00e7\u00e3o internacional. Ao longo de uma semana, uma comitiva se encontrou com parlamentares da Uni\u00e3o Europeia e representantes da ind\u00fastria na tentativa de obter\u00a0apoio.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos denunciando a participa\u00e7\u00e3o deles em projetos que destroem nossos territ\u00f3rios e a vida de muita gente, que deixam um lastro muito grande de problemas sociais e ambientais. N\u00f3s estamos dizendo para eles que s\u00e3o respons\u00e1veis tamb\u00e9m pelo o que est\u00e1 acontecendo no nosso territ\u00f3rio&#8221;, resume Ana Laide Soares Barbosa, do Movimento Xingu Vivo para Sempre.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Batalha judicial pelo\u00a0ouro<\/p>\n<p>Entre os compromissos na Su\u00ed\u00e7a, uma reuni\u00e3o com a Konwave Gold Equity Fonds era aguardada. Em cima da hora, no entanto, a reuni\u00e3o foi cancelada sem explica\u00e7\u00e3o, segundo a comitiva.<\/p>\n<p>O fundo \u00e9 um dos investidores da mineradora canadense Belo Sun, que tenta h\u00e1 anos iniciar na regi\u00e3o da Volta Grande do Xingu, no Par\u00e1, a maior mina de ouro a c\u00e9u aberto do Brasil. Com capacidade de produ\u00e7\u00e3o anual estimada em 5,8 toneladas, o empreendimento teria uma barragem de rejeitos de 35 milho\u0303es de metros cu\u0301bicos \u2013 mais que o dobro da capacidade da estrutura que rompeu em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/trag%C3%A9dia-de-brumadinho\/t-47261396\">Brumadinho<\/a>, em Minas Gerais, na trag\u00e9dia de 2019.<\/p>\n<p>O projeto, que, segundo a\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), acumula diversas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e ambientais, \u00e9 alvo de\u00a0uma batalha judicial h\u00e1 quase uma d\u00e9cada. Em seu \u00faltimo epis\u00f3dio, em 25 de abril deste ano, a mineradora sofreu mais uma derrota: o Tribunal Regional Federal da 1\u00aa Regi\u00e3o (TRF1) manteve suspenso o licenciamento ambiental.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, essa decis\u00e3o repete outra tomada em 2017 pelo pr\u00f3prio tribunal, que anulou a licen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o concedia \u00e0\u00a0Belo Sun pelo governo estadual do Par\u00e1. Para o desembargador que analisa o caso, os impactos que o empreendimento teria sobre as comunidades de pescadores, ribeirinhas, indi\u0301genas e assentados da reforma agra\u0301ria na Volta Grande do Xingu precisam ser estudados a fundo.<\/p>\n<p>Desde a mais recente decis\u00e3o, as a\u00e7\u00f5es da empresa na bolsa de valores de Toronto despencaram mais de 50%.<\/p>\n<p>&#8220;A aus\u00eancia de consulta e consentimento pr\u00e9vio, livre e informado no que tange \u00e0s comunidades afetadas \u00e9 uma das ilegalidades da mina da\u00a0Belo Sun. A legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 clara nesse sentido, a Conven\u00e7\u00e3o 169 se aplica aos povos ind\u00edgenas e \u00e0s demais comunidades tradicionais&#8221;, afirma Eloy Terena, advogado da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos ind\u00edgenas do Brasil (Apib), sobre as ilegalidades cometidas pela mineradora canadense.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Viol\u00eancia e contrato irregular<\/p>\n<p>Para quem vive e se op\u00f5e \u00e0 minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, o risco \u00e9 grande. &#8220;Muitas fam\u00edlias s\u00e3o amea\u00e7adas e intimidadas. Neste momento, as amea\u00e7as contra uma fam\u00edlia em espec\u00edfico, que denuncia todas as irregularidades, aumentaram muito. Uma pessoa da fam\u00edlia teve que sair \u00e0s pressas pra n\u00e3o ser morta e n\u00e3o pode voltar pra casa&#8221;, detalha Ana Laide Soares Barbosa, refor\u00e7ando que o nome da v\u00edtima n\u00e3o pode ser mencionado publicamente para sua prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dossi\u00ea feito por pesquisadores da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA)\u00a0revela sucessivas irregularidades na aquisi\u00e7\u00e3o de terras pela Belo Sun no Projeto de Assentamento Ressaca, onde a empresa quer instalar sua mina de ouro. Segundo o documento, a mineradora comprou lotes destinados ao assentamento do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra)\u00a0sob a alega\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o haveria mais moradores no local. Os pesquisadores apontaram, no entanto, que assentados ocupavam as \u00e1reas.<\/p>\n<p>O contrato de concess\u00e3o de uso firmado entre a mineradora e o Incra em novembro de 2021 e homologado pelo Conselho Diretor do \u00f3rg\u00e3o fundi\u00e1rio em janeiro de 2022 &#8220;teve o prop\u00f3sito de liberar terras de interesse estrat\u00e9gico para a extra\u00e7\u00e3o intensiva de ouro em quatro blocos de \u00e1reas incidentes no PA Ressaca e incrustadas no Cintur\u00e3o Verde Tr\u00eas Palmeiras&#8221;, afirma o dossi\u00ea.<\/p>\n<p>Uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica protocolada pela Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o h\u00e1 poucos dias agora pede a anula\u00e7\u00e3o do contrato.<\/p>\n<p>&#8220;Todas as tratativas mostram que as negocia\u00e7\u00f5es do contrato foram muito problem\u00e1ticas e irregulares. Sabemos que a Belo Sun precisa desse contrato e, em \u00faltima an\u00e1lise, do acesso \u00e0s terras p\u00fablicas, para construir sua mina de ouro. E vai fazer de tudo para consegui-lo&#8221;, analisa Ana Carolina Alfinito, assessora jur\u00eddica da Amazon Watch.<\/p>\n<p>Procurada, a Belo Sun n\u00e3o respondeu as perguntas enviadas pela\u00a0<strong>DW\u00a0<\/strong>que questionam as irregularidades do contrato com o Incra, mas enviou o link de um blog da empresa com um informa\u00e7\u00f5es divulgadas \u00e0 \u00e9poca da assinatura do acordo.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Belo Sun e Belo Monte<\/p>\n<p>Para Barbosa, o funcionamento da mina da Belo Sun decretaria a morte da Volta Grande do Xingu, regi\u00e3o paraense onde o rio faz uma grande curva. A mina ficaria a poucos quil\u00f4metros da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, operada pela Norte Energia desde 2016, e motivo de diversos processos movidos pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) por n\u00e3o cumprimento das condi\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 sua constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com autoriza\u00e7\u00e3o para desviar at\u00e9 80% da \u00e1gua desse trecho do rio, Belo Monte provocou uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de volume na Volta Grande, com redu\u00e7\u00e3o de peixes dispon\u00edveis e de \u00e1gua para cultivar a terra, apontam documentos protocolados pelo MPF.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 nesse contexto que Belo Sun quer minerar. Seria o ecoc\u00eddio da Volta Grande&#8221;, diz Barbosa, do Movimento Xingu Vivo para Sempre.<\/p>\n<p>Nas conversas durante a viagem \u00e0 Europa, Maria Lena Munduruku tamb\u00e9m pediu que as empresas se manifestem publicamente contra o Projeto de Lei (PL) 191, que quer liberar\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/interesse-de-mineradoras-em-terras-ind%C3%ADgenas-aumenta-sob-bolsonaro\/a-60874518\">minera\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0e outros empreendimentos em terras ind\u00edgenas. A discuss\u00e3o sobre o PL no Congresso, segundo ela, j\u00e1 incentiva o aumento das invas\u00f5es de garimpeiros nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>&#8220;A gente culpa o Estado por isso. Eles apoiam esses crimes que est\u00e3o sendo cometidos no nosso territ\u00f3rio&#8221;, diz Maria Lena sobre o governo do presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>&#8220;Ouro n\u00e3o se come. O que a gente come s\u00e3o peixes, frutas, vivemos do rio, das florestas. Nossos filhos est\u00e3o doentes pelo merc\u00fario, e as mulheres s\u00e3o as mais atingidas. A gente quer viver em paz&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Fonte: Brasil de Fato &#8211; Por N\u00e1dia Pontes DW<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Povos ind\u00edgenas do Par\u00e1 buscam apoio contra invas\u00f5es de garimpeiros e mineradoras como a Belo Sun Maria Leusa Munduruku nunca pensou que precisaria ir t\u00e3o longe para ajudar o seu povo. 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