{"id":8894,"date":"2023-04-04T16:26:03","date_gmt":"2023-04-04T19:26:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=8894"},"modified":"2023-04-04T16:26:03","modified_gmt":"2023-04-04T19:26:03","slug":"a-solucao-para-o-caos-ambiental-de-belo-monte-esta-na-mesa-do-ibama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/a-solucao-para-o-caos-ambiental-de-belo-monte-esta-na-mesa-do-ibama\/","title":{"rendered":"A solu\u00e7\u00e3o para o caos ambiental de Belo Monte est\u00e1 na mesa do Ibama"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisadores ind\u00edgenas, ribeirinhos e da academia apresentaram \u00e0 Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica dados alarmantes que mostram: o Rio Xingu est\u00e1 morrendo<\/p>\n<p>O pulso do Rio Xingu \u00e9 o que garante a vida do pr\u00f3prio rio e de todos os seres que o habitam. Os povos ind\u00edgenas e ribeirinhos da Volta Grande do Xingu \u2013 trecho do rio logo ap\u00f3s o barramento da Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte \u2013 sempre souberam disso.<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, eles juntaram as informa\u00e7\u00f5es em um aprofundado e minucioso monitoramento da regi\u00e3o para embasar suas afirma\u00e7\u00f5es: a usina de Belo Monte alterou drasticamente o fluxo da \u00e1gua do Rio Xingu e, por isso, ele est\u00e1 morrendo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma sa\u00edda. E ela passa por garantir novamente o pulso de inunda\u00e7\u00e3o, ou seja, que a \u00e1gua do rio aumente em uma determinada velocidade e quantidade em um per\u00edodo do ano, e depois reduza alguns meses depois, no per\u00edodo certo.<\/p>\n<p>No Xingu, a \u00e1gua precisa come\u00e7ar a subir em novembro, que \u00e9 o in\u00edcio do ano para as culturas ribeirinhas locais. Isso porque \u00e9 o m\u00eas de chegada da \u00e1gua nova que deve permanecer nas \u00e1reas de floresta alagada. Essa \u00e1gua precisa ir aumentando dia ap\u00f3s dia at\u00e9 atingir o pico da cheia, em abril.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 per\u00edodo necess\u00e1rio para a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes, as piracemas. A partir de maio, a \u00e1gua come\u00e7a a recuar dia ap\u00f3s dia, marcando o per\u00edodo da vazante e atingindo o pico m\u00e1ximo de seca em setembro. Essa \u00e9 a \u00e9poca de reprodu\u00e7\u00e3o das tracaj\u00e1s, esp\u00e9cie de quel\u00f4nio, abundantes na regi\u00e3o antes do barramento do Rio Xingu por Belo Monte. Um ciclo que se repete h\u00e1 milhares de anos<\/p>\n<p>Trata-se de um ciclo comum das paisagens amaz\u00f4nicas. A altern\u00e2ncia c\u00edclica entre a cheia, que ocorre no per\u00edodo de chuvas, e a v\u00e1rzea, que ocorre no per\u00edodo seco, garante a alta complexidade da floresta e da biodiversidade local.<\/p>\n<p>\u201cBelo Monte n\u00e3o \u00e9 um fato consumado. Belo Monte \u00e9 uma destrui\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso em um ambiente altamente complexo como o Rio Xingu e essa destrui\u00e7\u00e3o deve ser reavaliada e mitigada, e n\u00e3o tomada como algo que j\u00e1 aconteceu\u201d, afirma a pesquisadora Camila Ribas, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa). Ribas \u00e9 uma das peritas indicadas pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) para avaliar os impactos da usina.<\/p>\n<p>Ribas e outros peritos do MPF apresentaram algumas de suas conclus\u00f5es na sede da Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica (PGR), em Bras\u00edlia, no dia 14 de mar\u00e7o. O evento tamb\u00e9m contou com as falas dos povos Juruna, Arara e de ribeirinhos da Volta Grande, impactados pela redu\u00e7\u00e3o de vaz\u00e3o do rio.<\/p>\n<p>Ao longo do dia, os pesquisadores ind\u00edgenas, ribeirinhos e os peritos do MPF apresentaram os dados do monitoramento de impactos e uma proposta detalhada de vaz\u00e3o de \u00e1gua para o rio que retoma, ao menos em parte, o pulso de inunda\u00e7\u00e3o do Xingu e garante a reprodu\u00e7\u00e3o de algumas esp\u00e9cies de peixes.<\/p>\n<p>Rodrigo Agostinho, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), Jo\u00eania Wapichana, presidenta da Funda\u00e7\u00e3o nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai), Juma Xipaya, representante do Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas, al\u00e9m de membros da Casa Civil, Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas, Advocacia-Geral da Uni\u00e3o (AGU) e Secretaria do Meio Ambiente do Par\u00e1 estavam presentes e ouviram o que essas pessoas tinham para falar.<\/p>\n<figure class=\"caption caption-drupal-media align-center\" role=\"group\">\n<article class=\"media media--type-image media--view-mode-default\">\n<div class=\"field field--name-field-media-image field--type-image field--label-visually_hidden\">\n<div class=\"field__label visually-hidden\"><\/div>\n<div class=\"field__item\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"image-style-large\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/default\/files\/styles\/large\/public\/2023-03\/52752149615_094690e840_k.jpg?itok=TEJ8iH9d\" alt=\"ibama\" width=\"1200\" height=\"800\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/article><figcaption data-once=\"CameraOnSubtitles\">Desvio das \u00e1guas do Rio Xingu (PA) por Belo Monte \u00e9 debatido em semin\u00e1rio t\u00e9cnico do MPF, em Bras\u00edlia<span class=\"camera\">\u00a0\ud83d\udcf7\u00a0<\/span>LeoBark\/SECOM\/MPF<\/figcaption><\/figure>\n<p>Est\u00e1 nas m\u00e3os do Ibama a renova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da usina e a defini\u00e7\u00e3o de qual quantidade de \u00e1gua passar\u00e1 por suas turbinas e qual quantidade ser\u00e1 liberada para o Rio Xingu. Al\u00e9m disso, Joenia Wapichana adiantou que a Funai vai organizar um plano para a consulta livre, pr\u00e9via e informada dos povos impactados por Belo Monte antes da renova\u00e7\u00e3o desta licen\u00e7a, e que essa consulta come\u00e7ar\u00e1 pelos povos da Volta Grande do Xingu.<\/p>\n<p>A Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte, que come\u00e7ou a operar em 2015, \u00e9 uma usina fio d&#8217;\u00e1gua. Ou seja, a \u00e1gua do Xingu segue seu fluxo at\u00e9 a sede do munic\u00edpio de Altamira, no Par\u00e1. Pr\u00f3ximo dali, seu curso \u00e9 desviado para o reservat\u00f3rio, onde a \u00e1gua passa pelas turbinas e a\u00a0 energia efetivamente ser\u00e1 gerada. Abaixo desse ponto, \u00e9 o trecho de vaz\u00e3o reduzida. Quem controla a \u00e1gua que flui rio abaixo s\u00e3o as comportas da hidrel\u00e9trica e, portanto, a empresa concession\u00e1ria de Belo Monte, a Norte Energia.<\/p>\n<h5>Monitoramento ind\u00edgena e ribeirinho<\/h5>\n<p>O Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati) acontece desde 2013, quando ficou claro que a Norte Energia era parte interessada nos resultados do monitoramento que fazia. Por isso,\u00a0 ind\u00edgenas e ribeirinhos decidiram coletar seus pr\u00f3prios dados para comprovar os impactos ambientais.<\/p>\n<p>Ao longo desses anos, os pesquisadores do Mati assistiram \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da quantidade de peixes, Sara Rodrigues, pesquisadora e ribeirinha da comunidade da Baleia, mostrou as fotos de corvinas e pescadas deformadas devido \u00e0 falta de alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais recentemente, em um epis\u00f3dio tr\u00e1gico, os pesquisadores encontraram um cemit\u00e9rio de ovas de curimat\u00e3. Um grande ber\u00e7\u00e1rio de vida em potencial estava apodrecendo devido ao fluxo irregular e insuficiente das \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u201cEstamos numa guerra. N\u00f3s, povos tradicionais e ind\u00edgenas. \u00c9 uma luta pela \u00e1gua. E se \u00e9 uma luta pela \u00e1gua, \u00e9 uma luta pela vida\u201d, diz Sara Rodrigues. \u201cHoje est\u00e1 muito dif\u00edcil viver na Volta Grande. Pela falta de peixe, pela dificuldade de deslocamento. O rio t\u00e1 acabando. Est\u00e3o desviando 80% da \u00e1gua do rio. Para n\u00f3s, que dependemos do rio, t\u00e1 sendo muito dif\u00edcil\u201d, denunciou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Esse trecho do rio, na Volta Grande do Xingu, possui muitas ilhas. Historicamente, elas comp\u00f5em os trechos de ocupa\u00e7\u00e3o Juruna. At\u00e9 hoje, s\u00e3o considerados lugares sagrados para esse povo.<\/p>\n<p>Antes do barramento, no fluxo natural do rio, as ilhas come\u00e7avam a ser alagadas a partir de novembro, quando a \u00e1gua do rio come\u00e7a a subir e quando o ano inicia para os moradores da regi\u00e3o. A partir dessa \u00e9poca, as \u00e1rvores come\u00e7am a frutificar e despejar alimento no rio, consumido pelos peixes.<\/p>\n<p>Frutos como a golosa e o sar\u00e3o, t\u00edpicos dessa regi\u00e3o, caem na \u00e1gua e peixes como pacu e as tracaj\u00e1s se alimentam deles.<\/p>\n<p>As ilhas tamb\u00e9m s\u00e3o essenciais para a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes, pois \u00e9 onde acontecem as piracemas: as \u00e1guas formam bols\u00f5es escondidos dentro das ilhas que oferecem a calmaria necess\u00e1ria para que os peixes depositem suas ovas e depois os alevinos (peixes filhotes) se desenvolvam o suficiente at\u00e9 conseguirem deixar as piracemas e seguir o fluxo das \u00e1guas junto com a sua descida at\u00e9 chegar no curso principal do rio.<\/p>\n<p>A usina alterou n\u00e3o s\u00f3 a quantidade do fluxo de \u00e1gua, mas o per\u00edodo de in\u00edcio da cheia e, consequentemente, a\u00a0 perman\u00eancia da \u00e1gua. Isso est\u00e1 inviabilizando as piracemas e, portanto, a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um ritmo de altera\u00e7\u00f5es abruptas e di\u00e1rias das quantidades de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Atualmente, nesse pulso artificial e mort\u00edfero, a \u00e1gua come\u00e7a a subir apenas entre os meses de fevereiro e mar\u00e7o, quando n\u00e3o h\u00e1 mais reprodu\u00e7\u00e3o de peixes. Al\u00e9m disso, a usina opera com altera\u00e7\u00f5es abruptas:registros do monitoramento mostram que, no dia 20\/01\/2022, a usina liberou 11.825 metros c\u00fabicos por segundo. No dia 13\/02\/2022, menos de um m\u00eas depois, a usina liberou quase a metade da quantidade: 6812 m\u00b3\/s.<\/p>\n<p>&#8220;A \u00e1gua t\u00e1 uma desordem. Uma hora ela t\u00e1 seca, outra hora ela enche de metro, outra ela seca de metro. \u00c9 um efeito sanfona que para n\u00f3s t\u00e1 dif\u00edcil, imagine para quem vive na \u00e1gua. Os peixes\u00a0 ficam desorientados\u201d, diz Sara Rodrigues.<\/p>\n<p>Nas palavras de seu Raimundo, ribeirinho da Volta Grande, pesquisador do Mati e escritor, o peixe est\u00e1 &#8220;analfabeto de rio&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cA Norte Energia manda a \u00e1gua quando ela quer, e n\u00e3o \u00e9 suficiente para a vida\u201d, afirma Adauto Arara, cacique da\u00a0<a href=\"https:\/\/terrasindigenas.org.br\/pt-br\/terras-indigenas\/4302\">Terra Ind\u00edgena Arara da Volta Grande<\/a>. \u201cAntigamente, o peixe se alimentava do camu-camu (sar\u00e3o), que tem muita Vitamina-C, e a gente se alimentava do peixe, e acabava absorvendo essa vitamina. Hoje isso n\u00e3o acontece mais\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o t\u00e1 aqui por indeniza\u00e7\u00e3o, a gente t\u00e1 aqui por \u00e1gua, porque a gente precisa de vida naquela regi\u00e3o\u201d, afirma Gilliard Juruna, cacique da aldeia Muratu da\u00a0<a href=\"https:\/\/terrasindigenas.org.br\/pt-br\/terras-indigenas\/3788\">Terra Ind\u00edgena Paqui\u00e7amba<\/a>.<\/p>\n<h5>Escute epis\u00f3dio do Xingu no podcast Casa Floresta:<\/h5>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/30qOkKh53ppAy7K4hECfe7?utm_source=generator\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-gtm-yt-inspected-6623113_22=\"true\" data-gtm-yt-inspected-4=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<h5>Cemit\u00e9rio de ovas<\/h5>\n<p>No dia 8 de fevereiro, Josiel Juruna e outros pesquisadores encontraram milhares de ovas de curimat\u00e3 apodrecendo na piracema do Odilo. O epis\u00f3dio foi narrado por Josiel durante o semin\u00e1rio. Ele monitora essa piracema quase diariamente. Todos os dias, ele vai at\u00e9 a piracema e fotografa as r\u00e9guas que medem o n\u00edvel de \u00e1gua naquele ponto. Depois, esse dado \u00e9 relacionado com o dado de vaz\u00e3o de \u00e1gua colocado pela Norte Energia no site do empreendimento.<\/p>\n<figure class=\"caption caption-drupal-media align-left\" role=\"group\">\n<article class=\"media media--type-image media--view-mode-default\">\n<div class=\"field field--name-field-media-image field--type-image field--label-visually_hidden\">\n<div class=\"field__label visually-hidden\"><\/div>\n<div class=\"field__item\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"image-style-large\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/default\/files\/styles\/large\/public\/2023-03\/52751739881_5f392611d5_w_0.jpg?itok=VSjC0C7d\" alt=\"josiel e juma\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/article><figcaption data-once=\"CameraOnSubtitles\">Josiel Juruna e Juma Xipaya participam de semin\u00e1rio t\u00e9cnico do MPF em Bras\u00edlia<span class=\"camera\">\u00a0\ud83d\udcf7\u00a0<\/span>LeoBark\/SECOM\/MPF<\/figcaption><\/figure>\n<p>No dia anterior, fortes chuvas ca\u00edram na Volta Grande. Por conta disso, a \u00e1gua do que seria a piracema estava subindo r\u00e1pido. Com isso, Josiel notou que as curimat\u00e3s estavam entrando nesse local.<\/p>\n<p>Uma expectativa apreensiva, preocupada, tomou conta do grupo, que retornou para a aldeia Muratu. No dia 8, a chuva havia cessado. E o pior se confirmou: a \u00e1gua do Xingu, em n\u00edveis muito abaixo das m\u00e9dias hist\u00f3ricas, n\u00e3o tinha \u201csegurado\u201d a \u00e1gua na piracema, que havia reflu\u00eddo para o rio e esvaziado a \u00e1rea onde as ovas haviam sido depositadas pelos peixes.<\/p>\n<p>No que antes era um ber\u00e7\u00e1rio, o grupo encontrou o cemit\u00e9rio de ovas.\u00a0 \u201cFoi uma cat\u00e1strofe para a gente. Foi muito triste se deparar com esse momento\u201d, disse Josiel. \u201cMeu irm\u00e3o Gilliard, que est\u00e1 presente aqui tamb\u00e9m estava l\u00e1, e ele como mais velho, falou que nunca tinha visto acontecer, nem meu pai nunca nem tinha visto isso acontecer\u201d, disse.<\/p>\n<p>Jansen Zuanon, icti\u00f3logo do Inpa, tamb\u00e9m falou sobre esse epis\u00f3dio durante o semin\u00e1rio. \u201cOs peixes precisam de sinais ambientais. Ningu\u00e9m vai no ouvido do peixe dizer que ele precisa desovar. O que informa os peixes \u00e9 a subida consistente do rio. Existe um sincronismo muito grande para isso\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, os peixes interpretaram um sinal \u2018mais ou menos\u2019 e desovaram, mas as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se mantiveram e as ovas morreram. \u00c9 um ato de desespero\u201d, definiu o professor.<\/p>\n<h5>Hidrograma Piracema<\/h5>\n<p>A proposta de mitiga\u00e7\u00e3o apresentada pelos pesquisadores aponta para quantidades de \u00e1gua e per\u00edodos em que elas devem ser liberadas para garantir a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes. O \u201chidrograma das piracemas\u201d tamb\u00e9m estabelece que as altera\u00e7\u00f5es do fluxo do rio devem ser graduais, tanto na enchente quanto na vazante, tentando aproximar o pulso artificial do pulso natural do rio.<\/p>\n<p>Nos hidrogramas A e B, propostos pela Norte Energia, as varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o abruptas e sem qualquer conex\u00e3o com os tempos da natureza.<\/p>\n<p>Nessa proposta, advinda de pesquisa colaborativa, o fluxo de \u00e1gua come\u00e7a a aumentar sutilmente a partir de outubro, tendo um aumento mais substancial em novembro e uma eleva\u00e7\u00e3o gradual at\u00e9 abril, quando come\u00e7a a baixar. Isso permite a inunda\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias piracemas no per\u00edodo de reprodu\u00e7\u00e3o de algumas esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>O per\u00edodo da enchente, quando a \u00e1gua precisa subir, precisa ocorrer de forma gradual para garantir o desenvolvimento dos filhotes de peixes dentro dos igap\u00f3s e lagos. O peixe rec\u00e9m-nascido precisa de cerca de tr\u00eas meses para se desenvolver em \u00e1guas calmas, e precisa, da mesma forma, do fluxo da \u00e1gua baixando para conseguir aproveitar a correnteza gerada por essa mudan\u00e7a e se deslocar novamente da piracema para o leito do rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o n\u00edvel de alagamento de pelo menos parte do igap\u00f3s deve ser atingido durante o per\u00edodo de frutifica\u00e7\u00e3o de suas \u00e1rvores. Dessa forma, os frutos caem nas \u00e1guas alagadas e servem de alimento para as esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, afirmou no fim do semin\u00e1rio que a quest\u00e3o \u00e9 priorit\u00e1ria e ser\u00e1 analisada \u201ccom carinho\u201d. E foi questionado pela pesquisadora ribeirinha Sara Rodrigues: \u201cat\u00e9 voc\u00eas fazerem essas an\u00e1lises, a gente vai comer o qu\u00ea? Porque peixe, n\u00e3o temos mais\u201d.<\/p>\n<h5>Saiba mais sobre o impacto dos diferentes hidrogramas na Volta Grande do Xingu:<\/h5>\n<div class=\"video-embed-field-provider-youtube video-embed-field-responsive-video\"><iframe loading=\"lazy\" id=\"335561309\" title=\"Xingu, o rio que pulsa em n\u00f3s | Juruna denunciam impactos de Belo Monte\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fh1mwlwOzLw?autoplay=0&amp;start=0&amp;rel=0&amp;enablejsapi=1&amp;origin=https%3A%2F%2Fwww.socioambiental.org\" width=\"854\" height=\"480\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-gtm-yt-inspected-6623113_22=\"true\" data-gtm-yt-inspected-4=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p>Fonte: ISA &#8211; Por Clara Roman<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores ind\u00edgenas, ribeirinhos e da academia apresentaram \u00e0 Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica dados alarmantes que mostram: o Rio Xingu est\u00e1 morrendo O pulso do Rio Xingu \u00e9 o que garante a vida do pr\u00f3prio rio e de todos os seres que o habitam. 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