{"id":9124,"date":"2023-10-16T15:21:09","date_gmt":"2023-10-16T18:21:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=9124"},"modified":"2023-11-20T15:38:02","modified_gmt":"2023-11-20T18:38:02","slug":"seca-severa-na-amazonia-e-agravada-por-desmatamento-e-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/seca-severa-na-amazonia-e-agravada-por-desmatamento-e-fogo\/","title":{"rendered":"Seca severa na Amaz\u00f4nia \u00e9 agravada por desmatamento e fogo"},"content":{"rendered":"<div class=\"font30 font-serif font16-xs marginbottom50\">Com eventos extremos cada vez mais frequentes, risco de degrada\u00e7\u00e3o aumenta e pode levar extensas \u00e1reas de floresta ao colapso e grande parte da popula\u00e7\u00e3o local ao sofrimento<\/div>\n<div class=\"font30 font-serif font16-xs marginbottom50\">Em meados de 2021, chuvas acima do normal levaram o Rio Negro, um dos mais importantes da Amaz\u00f4nia, a superar o maior n\u00edvel j\u00e1 medido em 120 anos, inundando cidades inteiras por meses, com graves consequ\u00eancias sociais e econ\u00f4micas. Agora, a Amaz\u00f4nia vive uma seca extrema que reduziu a vaz\u00e3o de seus principais rios, causando problemas igualmente graves. Pouco mais de dois anos depois daquelas cheias hist\u00f3ricas, o n\u00edvel do Rio Negro chegou nesta segunda-feira, 16 de outubro, \u00e0 marca de 13,59 metros em Manaus, a menor desde 1902.Para a ci\u00eancia, esse contraste t\u00e3o intenso em um curto per\u00edodo de tempo indica que a Amaz\u00f4nia j\u00e1 est\u00e1 sentindo os efeitos da crise apontada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) h\u00e1 v\u00e1rios anos: a altern\u00e2ncia cada vez mais frequente de eventos extremos &#8211; sejam secas ou cheias severas.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio de altern\u00e2ncia r\u00e1pida entre extremos \u00e9 resultado de processos complexos ligados a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que afetam v\u00e1rias partes do mundo, mas, na Amaz\u00f4nia, t\u00eam seus efeitos locais exacerbados pelo desmatamento e pelas queimadas.<\/p>\n<p>Especialistas que estudam a ecologia e a hidrologia do bioma temem que a combina\u00e7\u00e3o desses fatores produza um desequil\u00edbrio que poder\u00e1 levar a maior floresta tropical do mundo &#8211; ou pelo menos vastas partes dela &#8211; a um ponto de n\u00e3o-retorno, a partir do qual os rios e a floresta n\u00e3o conseguir\u00e3o mais se recuperar.<\/p>\n<p>&#8220;A combina\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, El Ni\u00f1o e desmatamento desenfreado contribui para o agravamento e prolongamento da seca, que, por sua vez, leva ao aumento das queimadas, o que tende a exacerbar ainda mais os efeitos da estiagem, afetando o regime de chuvas. Isso impacta n\u00e3o apenas na vida dos povos locais, mas afeta tamb\u00e9m a economia e a seguran\u00e7a h\u00eddrica de outras regi\u00f5es do pa\u00eds, pois o que acontece na Amaz\u00f4nia interfere nos demais biomas\u201d, destaca Edegar de Oliveira, diretor de Conserva\u00e7\u00e3o e Restaura\u00e7\u00e3o do WWF-Brasil.<\/p>\n<p>Para o pesquisador Jochen Sch\u00f6ngart, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia), \u00e9 preciso ter cautela para falar em ponto de n\u00e3o-retorno, pois a Amaz\u00f4nia \u00e9 muito heterog\u00eanea e possui regi\u00f5es mais vulner\u00e1veis que outras. \u201cPor\u00e9m, algumas regi\u00f5es j\u00e1 vivem processos que a tornam muito suscet\u00edveis a um colapso, como o Sul da Amaz\u00f4nia, onde a sinergia entre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o desmatamento e as queimadas em larga escala est\u00e3o agravando e expandindo a esta\u00e7\u00e3o seca\u201d, afirma.<\/p>\n<p>De acordo com ele, estudos liderados pelo climatologista Jos\u00e9 Marengo, do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), mostram que, nos \u00faltimos 50 anos, a esta\u00e7\u00e3o seca j\u00e1 se estendeu em pelo menos um m\u00eas no Sul da Amaz\u00f4nia. \u201cCaso a temperatura do Oceano Atl\u00e2ntico Norte continue aumentando, com as queimadas e o desmatamento no ritmo atual, chegaremos a um ponto em que at\u00e9 popula\u00e7\u00f5es humanas ter\u00e3o dificuldade para viver na regi\u00e3o\u201d, salienta.<\/p>\n<p>Embora represente s\u00e9rios riscos para o sul do bioma, por enquanto, a seca extrema de 2023 est\u00e1 causando problemas mais graves na Amaz\u00f4nia Ocidental, que compreende os estados do Acre, Rond\u00f4nia, Roraima e Amazonas, e j\u00e1 atinge mais de 500 mil pessoas.<\/p>\n<p>Rios importantes, como Negro, Solim\u00f5es, Purus, Madeira e Amazonas, caminham para os menores n\u00edveis da hist\u00f3ria, enquanto cidades inteiras, cujo acesso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel via fluvial, correm o risco de ficarem isoladas. Em diversas localidades os rios j\u00e1 est\u00e3o intransit\u00e1veis, impossibilitando o transporte de alimentos e medicamentos e o abastecimento de \u00e1gua.<\/p>\n<\/div>\n<h3><strong>Impactos amplos<\/strong><\/h3>\n<p>De acordo com Sch\u00f6ngart, uma combina\u00e7\u00e3o de fatores clim\u00e1ticos faz com que a seca atual seja diferente das anteriores e tenha impactos em praticamente todo o territ\u00f3rio amaz\u00f4nico. Ele lembra que a seca deste ano \u00e9 causada por um El Ni\u00f1o do tipo EP (Pac\u00edfico Oriental, na sigla em ingl\u00eas), que aquece as \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico na costa da Am\u00e9rica do Sul. \u201cEsse tipo de El Ni\u00f1o tem impactos de maior magnitude sobre o centro, o norte e o leste da Amaz\u00f4nia, expandindo-se um pouco para o sudeste\u201d, frisa.<\/p>\n<p>Por outro lado, o aquecimento do Atl\u00e2ntico Tropical Norte, decorrente das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, afeta principalmente as regi\u00f5es sul e sudoeste do bioma. \u201cA sinergia entre os dois fen\u00f4menos intensifica a seca em praticamente toda a regi\u00e3o amaz\u00f4nica, aumentando as temperaturas e reduzindo a cobertura de nuvens, resultando em um aquecimento da superf\u00edcie\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>Com o aquecimento do Atl\u00e2ntico Tropical Norte, a Zona de Converg\u00eancia Intertropical (uma faixa de nuvens que circula todo o globo terrestre na regi\u00e3o equatorial) fica posicionada mais ao norte e, com isso, o vapor de \u00e1gua gerado na superf\u00edcie do Atl\u00e2ntico \u00e9 transportado para regi\u00f5es de latitude mais alta, em vez de chegar \u00e0 Amaz\u00f4nia. Sch\u00f6ngart assinala que os efeitos neste ano s\u00e3o ainda mais fortes porque estamos em uma fase quente da Oscila\u00e7\u00e3o Multidecadal do Atl\u00e2ntico, que\u00a0 acontece a cada tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u201cEssas oscila\u00e7\u00f5es s\u00e3o naturais, mas h\u00e1 tamb\u00e9m ind\u00edcios de influ\u00eancia humana nesse processo de aquecimento do Atl\u00e2ntico Norte. Com as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, o cintur\u00e3o de ventos do Hemisf\u00e9rio Sul migrou mais em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Ant\u00e1rtica nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o que provavelmente est\u00e1 relacionado ao buraco na camada de oz\u00f4nio naquele continente e ao aumento das concentra\u00e7\u00f5es de gases de efeito estufa na atmosfera. Com essa mudan\u00e7a, as \u00e1guas superficiais do Oceano \u00cdndico acabam passando ao redor da \u00c1frica do Sul e invadindo o Oceano Atl\u00e2ntico. Essas \u00e1guas contribuem com o aquecimento das \u00e1guas superficiais na regi\u00e3o tropical do oceano\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de todos esses fatores produziu uma redu\u00e7\u00e3o brutal da precipita\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia neste ano, transformando a seca meteorol\u00f3gica &#8211; caracterizada pela falta de chuvas &#8211; em uma seca hidrol\u00f3gica, que se reflete nos baixos n\u00edveis de \u00e1gua dos rios, com impactos graves para a biodiversidade.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 por isso que estamos vendo pela imprensa as imagens de mortes de botos, pirarucus e peixes-boi. O volume de \u00e1gua fica menor, fazendo com que ela se aque\u00e7a rapidamente. O impacto desse fen\u00f4meno \u00e9 particularmente s\u00e9rio para as popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas, que ficam isoladas, com dificuldade de obter servi\u00e7os essenciais como abastecimento de \u00e1gua, comida, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Muitos munic\u00edpios j\u00e1 est\u00e3o sem acesso, pois os barcos n\u00e3o chegam\u201d, lembra Sch\u00f6ngart.<\/p>\n<p>Desde 23 de setembro, com a seca se alastrando fortemente pela Amaz\u00f4nia e a temperatura da \u00e1gua subindo, 153 botos foram encontrados mortos na regi\u00e3o: 130 cor-de-rosa e 23 da esp\u00e9cie tucuxi, de acordo com o Instituto de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Mamirau\u00e1 (IDSM). Apenas no dia 28, quando a temperatura da \u00e1gua bateu 39,1\u00b0C, foram registradas 70 carca\u00e7as de botos, al\u00e9m de centenas de peixes. Desde o in\u00edcio dessa crise, integrantes do IDSM e de pelo menos outras 21 organiza\u00e7\u00f5es, incluindo o WWF-Brasil, est\u00e3o correndo contra o tempo para mitigar os impactos da emerg\u00eancia ambiental e sanit\u00e1ria que se abateu sobre o Lago Tef\u00e9, no M\u00e9dio Solim\u00f5es, interior do estado do Amazonas.<\/p>\n<h3><strong>Calor e fogo<\/strong><\/h3>\n<p>Com o ar mais quente e a floresta mais seca, as queimadas se alastram e agravam ainda mais o problema. O fogo lan\u00e7a na atmosfera grande quantidade de aeross\u00f3is, part\u00edculas que, em circunst\u00e2ncias normais, s\u00e3o emitidas pela pr\u00f3pria floresta, favorecendo a forma\u00e7\u00e3o de chuva, pois \u00e9 em torno delas que a \u00e1gua se condensa formando nuvens. Com as queimadas, enormes quantidades de aeross\u00f3is s\u00e3o emitidas para a atmosfera, mas como h\u00e1 pouco vapor d\u2019\u00e1gua na atmosfera, a forma\u00e7\u00e3o de nuvens \u00e9 suprimida e acaba ocorrendo apenas em grandes altitudes.<\/p>\n<p>\u201cPor causa da altitude, essas chuvas s\u00e3o geladas e espor\u00e1dicas, insuficientes para recarregar os rios. Mas que muitas vezes formam temporais com ventanias fortes, que chegam a derrubar \u00e1rvores. Nesta seca, j\u00e1 vimos at\u00e9 mesmo granizo aqui em Manaus, mesmo com temperaturas extremamente altas na cidade\u201d, diz Sch\u00f6ngart.<\/p>\n<p>O pesquisador relata que, no momento, o calor est\u00e1 muito mais intenso que o normal em Manaus e que, h\u00e1 alguns dias, um inc\u00eandio em um fragmento florestal nas vizinhan\u00e7as de sua resid\u00eancia tornou o cen\u00e1rio local infernal. \u201cAinda tenho na mente as imagens da regi\u00e3o completamente inundada h\u00e1 apenas dois anos e agora vemos tudo seco e em chamas. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave na Amaz\u00f4nia com esses extremos. Nos \u00faltimos 15 anos, tivemos as quatro maiores cheias e as duas maiores secas da hist\u00f3ria na regi\u00e3o central da Amaz\u00f4nia\u201d, alerta.<br \/>\n<strong>Sinais de colapso<\/strong><\/p>\n<p>Os especialistas em ecologia vegetal Beatriz Schwantes Marimon e Ben Hur Marimon Jr, pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso, monitoram, h\u00e1 mais de 30 anos, a degrada\u00e7\u00e3o da floresta em 60 \u00e1reas espalhadas pelo Sul da Amaz\u00f4nia. Ali, embora n\u00e3o haja registros de redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o de grandes rios, o equil\u00edbrio do bioma \u00e9 mais fr\u00e1gil e j\u00e1 h\u00e1 sinais de colapso &#8211; uma amostra do que pode ocorrer com outras partes da Amaz\u00f4nia caso persista a combina\u00e7\u00e3o de desmatamento, queimadas e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, com ondas cada vez mais extremas de secas e calor.<\/p>\n<p>\u201cA mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 t\u00e3o r\u00e1pida que nossos modelos clim\u00e1ticos tradicionais, embora estejam muito bem adaptados, n\u00e3o conseguem acompanh\u00e1-la\u201d, destaca Ben Hur. \u201cFica dif\u00edcil saber, por exemplo, se teremos uma queda dr\u00e1stica da vaz\u00e3o de rios. Mas a experi\u00eancia nos mostrou que isso acontece aqui tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o do El Ni\u00f1o, como o que ocorreu em 2016\u201d.<\/p>\n<p>Mas, se ainda n\u00e3o afeta os rios, a seca est\u00e1 produzindo diversos outros efeitos negativos no Sul da Amaz\u00f4nia. Regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o para o Cerrado, a \u00e1rea tem muitas planta\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 est\u00e3o sendo castigadas pela falta de chuva. \u201cAs chuvas deveriam ter come\u00e7ado em setembro e, em outubro, seria a \u00e9poca do in\u00edcio do plantio. Mas o atraso das chuvas n\u00e3o permitiu isso e pode fazer com que se perca a safrinha, que \u00e9 o segundo plantio que \u00e9 feito tradicionalmente\u201d, explica Ben Hur.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do impacto na agricultura, a esta\u00e7\u00e3o seca cada vez mais longa produz altas temperaturas, com picos acima dos 40 graus por muitos dias, com chuvas abaixo da m\u00e9dia. \u201cCom isso, a disponibilidade de \u00e1gua para as plantas \u00e9 muito menor e a floresta come\u00e7a a sentir. Essa escassez de \u00e1gua tende a rebaixar o len\u00e7ol fre\u00e1tico e os piores efeitos provavelmente ir\u00e3o aparecer na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o seca, em 2024\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cA estiagem deste ano est\u00e1 sendo exacerbada por um El Ni\u00f1o considerado ainda mais forte que o de 2016 e 2017, que produziu uma seca hist\u00f3rica. Os efeitos est\u00e3o mais intensos e o rebaixamento do len\u00e7ol fre\u00e1tico est\u00e1 sendo t\u00e3o grande que ele dificilmente ser\u00e1 reabastecido na \u00e9poca de chuvas\u201d, afirma Beatriz.<\/p>\n<h3><strong>Grandes \u00e1rvores<\/strong><\/h3>\n<p>Esse processo ter\u00e1 impacto dram\u00e1tico nas \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia. \u201cAs \u00e1rvores de grande porte levam em torno de dois anos para morrer, porque elas t\u00eam reservas, suas ra\u00edzes s\u00e3o profundas e conseguem acessar a \u00e1gua. Por isso, n\u00e3o vemos tantas delas morrendo imediatamente. Mas, com o rebaixamento do len\u00e7ol fre\u00e1tico, depois de dois anos, o estresse \u00e9 t\u00e3o grande que a \u00e1rvore n\u00e3o suporta\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.science.org\/doi\/abs\/10.1126\/science.abp8622&amp;sa=D&amp;source=docs&amp;ust=1697485055739963&amp;usg=AOvVaw3o3ftwVQbCvIdluqtKOPMQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quanto mais alta \u00e9 uma \u00e1rvore, mais dificuldade ela tem de resistir a uma seca extrema<\/a>. \u201cE s\u00e3o justamente essas grandes \u00e1rvores as respons\u00e1veis pela estabilidade da floresta. Quando elas morrem, a vegeta\u00e7\u00e3o nas bordas da \u00e1rea desmatada \u00e9 alterada. H\u00e1 uma maior incid\u00eancia de luz lateral, come\u00e7a uma invas\u00e3o de gram\u00edneas, que se proliferam e se transformam em combust\u00edvel para queimadas. Esse processo leva mais \u00e1rvores \u00e0 morte e h\u00e1 um efeito progressivo, como um domin\u00f3, levando \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o total da floresta&#8221;, pontua Ben Hur.<\/p>\n<p>Neste momento, enquanto a seca ainda \u00e9 severa, as queimadas est\u00e3o avan\u00e7ando pelo Sul da Amaz\u00f4nia. \u201cH\u00e1 vastas \u00e1reas onde os grileiros produzem inc\u00eandios criminosos e, nessas condi\u00e7\u00f5es, as chamas se alastram com muita facilidade &#8211; e a\u00ed a cat\u00e1strofe \u00e9 completa\u201d, salienta Beatriz.<\/p>\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o de fatores leva \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o da floresta em por\u00e7\u00f5es cada vez maiores do Sul da Amaz\u00f4nia. Os dados levantados pelos cientistas indicam que v\u00e1rias \u00e1reas j\u00e1 mostram sinais de colapso &#8211; e s\u00e3o um exemplo claro do processo de degrada\u00e7\u00e3o conhecido como ponto de n\u00e3o-retorno, que poder\u00e1 se alastrar pela Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8220;A situa\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias das regi\u00f5es onde trabalhamos \u00e9 dram\u00e1tica, com florestas se degradando rapidamente, c\u00f3rregos secando e pequenos rios se tornando intermitentes. Isto tudo na borda sul da Amaz\u00f4nia, de onde o problema progride rapidamente em dire\u00e7\u00e3o ao centro do bioma&#8221;, diz Ben Hur. Segundo ele, nessas \u00e1reas degradadas, a mortalidade de \u00e1rvores \u00e9 alta e o n\u00famero de esp\u00e9cies diminui. Isso tem impacto em toda a cadeia alimentar, reduzindo a biodiversidade de maneira generalizada.<\/p>\n<h3><strong>Degrada\u00e7\u00e3o estrutural<\/strong><\/h3>\n<p>Esse processo est\u00e1 modificando a estrutura da floresta &#8211; o que compromete todos seus servi\u00e7os ecol\u00f3gicos, incluindo a forma\u00e7\u00e3o dos &#8220;rios voadores&#8221;, que garantem as chuvas no restante do continente.\u00a0 &#8220;O que encontramos nessas \u00e1reas degradadas s\u00e3o esp\u00e9cies pioneiras amaz\u00f4nicas que come\u00e7am a tomar conta do ambiente. A estrutura da floresta come\u00e7a a mudar e, em vez da floresta prim\u00e1ria, altamente diversa, o que encontramos \u00e9 uma floresta secund\u00e1ria totalmente degradada&#8221;, afirma Ben Hur.<\/p>\n<p>Um estudo feito pelo casal e publicado em 2014 mostra que as florestas de transi\u00e7\u00e3o &#8211; t\u00edpicas do sul da Amaz\u00f4nia &#8211; s\u00e3o hiperdin\u00e2micas, isto \u00e9, elas t\u00eam grande mortalidade de esp\u00e9cies, mas tamb\u00e9m t\u00eam grande capacidade de se estabelecer com o \u201crecrutamento\u201d de novos indiv\u00edduos.\u00a0 &#8220;O problema \u00e9 que essa din\u00e2mica se inverteu e os &#8216;recrutas&#8217; n\u00e3o conseguem retornar. Com isso, a mortalidade come\u00e7a a predominar. Temos observado esse processo, que \u00e9 uma evid\u00eancia de um ponto de n\u00e3o-retorno&#8221;, relata Beatriz.<\/p>\n<p>Com essa din\u00e2mica em curso, a floresta fica cada vez mais vulner\u00e1vel. Os pesquisadores salientam, por exemplo, que o fogo agora atinge \u00e1reas que antes n\u00e3o queimavam. &#8220;Tamb\u00e9m notamos que \u00e1rvores grandes muitas vezes est\u00e3o morrendo por conta de quebra. Aparentemente, isso acontece porque a intensidade dos ventos ficou maior&#8221;, diz Beatriz.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es de degrada\u00e7\u00e3o, a resili\u00eancia da floresta diante do fogo \u00e9 muito menor, conclui Ben Hur: &#8220;Normalmente, quando a floresta perde biomassa, recupera naturalmente mais tarde e o equil\u00edbrio de todo o bioma se mant\u00e9m. Mas quanto maior \u00e9 o n\u00famero de \u00e1rvores perdidas, maior \u00e9 a perda de sombreamento. Isso intensifica os efeitos da seca e reduz ainda mais o n\u00edvel de chuvas, o que tende a agravar toda a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um efeito domin\u00f3 que pode atingir n\u00edveis inimagin\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p>Fonte: WWF Brasil &#8211; Por <em><strong>F\u00e1bio de Castro, especial para o WWF-Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com eventos extremos cada vez mais frequentes, risco de degrada\u00e7\u00e3o aumenta e pode levar extensas \u00e1reas de floresta ao colapso e grande parte da popula\u00e7\u00e3o local ao sofrimento Em meados de 2021, chuvas acima do normal levaram o Rio Negro, um dos mais importantes da&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9128,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26,28,21,29,32,33],"tags":[1803],"class_list":["post-9124","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acre","category-amazonas","category-area-4","category-mato-grosso","category-rondonia","category-roraima","tag-colapso-ambiental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9124"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9124\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9129,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9124\/revisions\/9129"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}