{"id":9211,"date":"2024-02-26T21:08:09","date_gmt":"2024-02-27T00:08:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=9211"},"modified":"2024-02-26T21:08:09","modified_gmt":"2024-02-27T00:08:09","slug":"capim-dourado-se-transforma-em-ouro-nas-maos-de-artesas-do-jalapao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/capim-dourado-se-transforma-em-ouro-nas-maos-de-artesas-do-jalapao\/","title":{"rendered":"Capim dourado se transforma em ouro nas m\u00e3os de artes\u00e3s do Jalap\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"font30 font-serif font16-xs marginbottom50\">Ao fortalecer essa importante cadeia produtiva da sociobiodiversidade, projeto ajuda a manter a cultura de comunidades quilombolas e a conservar o Cerrado<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No Jalap\u00e3o, \u00e9 o capim dourado (Syngonanthus nitens) que anuncia a chegada da primavera. No dia 20 de setembro, quando come\u00e7a oficialmente a colheita dessa haste brilhante com uma pequena flor branca na ponta e que pertence \u00e0 fam\u00edlia das sempre-vivas, centenas de m\u00e3os se preparam para tran\u00e7ar os \u201cfios de ouro\u201d e transform\u00e1-los em bolsas, caixas, joias, mandalas e outros objetos que reluzem como o metal precioso, numa tradi\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria que garante renda \u00e0s artes\u00e3s locais e ajuda a conservar o Cerrado.<\/p>\n<p>Em Mateiros e S\u00e3o F\u00e9lix do Tocantins, que fazem parte do Jalap\u00e3o, no estado do Tocantins, quase tudo gira em torno do capim dourado e do ecoturismo, uma vez que grandes unidades de conserva\u00e7\u00e3o do Cerrado est\u00e3o nesse territ\u00f3rio. Conforme n\u00fameros do IBGE, os dois est\u00e3o entre os dez munic\u00edpios brasileiros com maior propor\u00e7\u00e3o de pessoas quilombolas do pa\u00eds, como as artes\u00e3s do capim dourado Laudeci Ribeiro, Railane Ribeiro e Luzia Passos.<\/p>\n<p>As tr\u00eas aprenderam a t\u00e9cnica ainda crian\u00e7as e, hoje, lideram associa\u00e7\u00f5es que lutam por mais visibilidade para o trabalho que fazem. Agora, al\u00e9m das pe\u00e7as utilit\u00e1rias e biojoias j\u00e1 feitas h\u00e1 d\u00e9cadas por essas mulheres e suas ancestrais, elas tamb\u00e9m ficaram conhecidas por produzirem obras de arte feitas com o capim. J\u00e1 que, no dia 7 de dezembro, a cole\u00e7\u00e3o Jalapoeira Apurada, s\u00e9rie de esculturas criadas em parceria com o Instituto a Gente Transforma (IAGT), do designer Marcelo Rosenbaum, foi lan\u00e7ada em Palmas.<\/p>\n<p>Com o apoio do WWF-Brasil e em parceria com a cooperativa Central do Cerrado, as tr\u00eas associa\u00e7\u00f5es lideradas por Laudeci, Railane e Luzia passaram nos dois \u00faltimos anos por forma\u00e7\u00f5es que envolveram diversas etapas. Em um primeiro momento, coletoras do capim dourado (muitas das quais s\u00e3o as pr\u00f3prias artes\u00e3s) receberam orienta\u00e7\u00e3o e kits para o manejo correto do fogo \u2013 importante elemento nas culturas extrativistas e na pr\u00f3pria conserva\u00e7\u00e3o do Cerrado, mas que pode se alastrar e se tornar um inc\u00eandio de grandes propor\u00e7\u00f5es se n\u00e3o for feito da forma correta.<\/p>\n<p>O IAGT iniciou em 2021 o processo de cocria\u00e7\u00e3o de um projeto e, pela primeira vez, as tr\u00eas associa\u00e7\u00f5es se reuniram para fortalecer seu trabalho e o posicionamento de artes\u00e3s quilombolas, dando vida \u00e0s pe\u00e7as da cole\u00e7\u00e3o de esculturas Jalapoeira Apurada. O trabalho do IAGT foi conduzido para levar o capim dourado para outros mercados, como o do design-arte, em que produtos exclusivos t\u00eam a possibilidade de construir uma narrativa que qualifica o saber fazer como um produto s\u00edmbolo da cultura e da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Posteriormente, o foco foi a parte comercial, desde a cria\u00e7\u00e3o de novos produtos at\u00e9 o apoio na estrutura\u00e7\u00e3o f\u00edsica das lojas de artesanato das associa\u00e7\u00f5es. As artes\u00e3s tamb\u00e9m receberam treinamentos sobre precifica\u00e7\u00e3o, este em parceria com a Universidade Federal do Tocantins (UFT), e sobre conquista de novos mercados.<\/p>\n<h3><strong>Tradi\u00e7\u00e3o local<\/strong><\/h3>\n<p>Os produtos feitos com capim dourado se tornaram a grande estrela das lojas de artesanato de Mateiros e dos outros munic\u00edpios do Jalap\u00e3o a partir dos anos 2000. Passado um tempo, por\u00e9m, as vendas dos itens acabaram ficando restritas a turistas que visitam o local e a alguns pontos espalhados pelo Brasil. Com o projeto apoiado pelo WWF-Brasil, o objetivo \u00e9 que essa produ\u00e7\u00e3o artesanal seja expandida dentro e fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do capim dourado, existem outras cadeias da sociobiodiversidade importantes na regi\u00e3o, como a do buriti (que tamb\u00e9m \u00e9 usado nos produtos do capim dourado), baru, murici, jatob\u00e1 e mangaba. Destes, s\u00e3o feitos doces, \u00f3leos, cacha\u00e7a, farinha, entre outros produtos do extrativismo, como mel de caju e de abelha. \u201cS\u00e3o cadeias que mant\u00eam o Cerrado em p\u00e9 e geram renda, mas que ainda n\u00e3o est\u00e3o organizadas como a cadeia do capim\u201d, explica Cassiana Moreira, assessora t\u00e9cnica do projeto pela Central do Cerrado.<\/p>\n<p>E mesmo o capim, cuja cultura \u00e9 s\u00edmbolo da conserva\u00e7\u00e3o do Cerrado naquela regi\u00e3o, sofre amea\u00e7as constantes. Uma delas \u00e9 a colheita inadequada, feita antes do dia 20 de setembro, que \u00e9 ilegal. Muitos atravessadores colhem antes da data permitida para vender para as artes\u00e3s. Outro problema, de acordo com Cassiana, \u00e9 o capim sair do Jalap\u00e3o e do Tocantins enquanto mat\u00e9ria-prima: o que tamb\u00e9m \u00e9 proibido. \u201cSem fiscaliza\u00e7\u00e3o, fica dif\u00edcil fazer esse controle\u201d, diz ela, curitibana que adotou Mateiros 21 anos atr\u00e1s. Por fim, a falta de \u00e1gua e os inc\u00eandios frequentes tamb\u00e9m s\u00e3o fortes fontes de press\u00e3o.<\/p>\n<h3>\u201c\u00c9 Deus no c\u00e9u e o capim da terra\u201d<\/h3>\n<p>Laudeci Ribeiro de Souza Monteiro, de 45 anos, \u00e9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria dos Artes\u00e3os e Pequenos Produtores de Mateiros (ACAPPM), que existe desde 2001. Ela tinha oito anos quando fez sua primeira costura com o capim dourado. A m\u00e3e aprendeu com uma artes\u00e3 da comunidade quilombola de Mumbuca, e logo ensinou as cinco filhas. \u201cA gente j\u00e1 costurava nossas roupas, as das bonecas, ent\u00e3o sabia a base\u201d, recorda. \u201cNaquela \u00e9poca, a gente chamava de \u2018capim-ouro\u2019. Foi s\u00f3 depois que participamos de uma feira em Palmas, nos anos 1990, que ganhou esse nome, dourado\u201d, conta Laudeci.<\/p>\n<p>O capim \u00e9 a fonte de renda mais importante para o munic\u00edpio de Mateiros. \u201cO turismo chegou aqui por causa dele, come\u00e7aram a vir buscar produto e viram como o lugar \u00e9 lindo. Hoje, 80% dos habitantes trabalham com isso. Todas as mulheres sabem costurar. Podem n\u00e3o querer viver disso, mas sabem\u201d, afirma Laudeci, que criou quatro filhas na costura do capim. Duas delas t\u00eam forma\u00e7\u00e3o superior e vivem em Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>\u201cDesde os meus 12 anos eu j\u00e1 costuro com capim dourado, aprendi com minha m\u00e3e e com minha av\u00f3, Dona Mi\u00fada, que foi a precursora desta arte no mundo\u201d. Assim, Railane Ribeiro da Silva, de 28 anos, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Artes\u00e3os e Extrativistas do Povoado do Mumbuca, comunidade quilombola, come\u00e7a a contar a sua hist\u00f3ria. \u201cHoje, a nossa comunidade \u00e9 o que \u00e9 por causa dele. \u00c9 Deus no c\u00e9u e o capim na terra. \u00c9 o que nos traz condi\u00e7\u00e3o de comer, de beber, de viver\u201d.<\/p>\n<p>Completa o trio Luzia Passos Ribeiro, de 35 anos, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Quilombo do Prata. Em sua comunidade, mais distante de Mateiros e pr\u00f3xima a S\u00e3o F\u00e9lix do Tocantins, 90 fam\u00edlias vivem da agricultura familiar e do extrativismo. \u201cPoucos aqui t\u00eam sal\u00e1rio, a pesca paga muito pouco, ent\u00e3o o capim representa um trabalho diferenciado em termos de renda\u201d, conta Luzia. Outra fonte de renda do Prata \u00e9 o ecoturismo de base comunit\u00e1ria, no qual os visitantes se hospedam nas casas dos moradores.<\/p>\n<p>Ainda sem a titularidade oficial emitida pelo governo, o Quilombo do Prata hoje sofre press\u00e3o do agroneg\u00f3cio, que avan\u00e7a pela regi\u00e3o principalmente com a monocultura da soja. \u201cTamb\u00e9m por isso precisamos manter essa cultura viva, para preservar a nossa regi\u00e3o, a nossa casa. J\u00e1 imaginou o Jalap\u00e3o sem o capim dourado? N\u00e3o existe\u201d, desabafa Luzia.<\/p>\n<h3>O bioma mais amea\u00e7ado do Brasil<\/h3>\n<p>O Cerrado j\u00e1 perdeu cerca de 50% da sua cobertura original. Detentor de 30% de toda a biodiversidade brasileira e ber\u00e7o das tr\u00eas maiores bacias hidrogr\u00e1ficas da Am\u00e9rica do Sul, ele \u00e9, hoje, o bioma mais amea\u00e7ado do Brasil. Conter a press\u00e3o do agroneg\u00f3cio que avan\u00e7a principalmente pelo Matopiba (acr\u00f4nimo que denomina regi\u00e3o que inclui Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia) \u00e9 um desafio enorme.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 est\u00e1 provado que povos e comunidades tradicionais s\u00e3o os grandes protetores da terra\u201d, explica Ana Carolina Bauer, analista de Conserva\u00e7\u00e3o e l\u00edder do projeto no WWF-Brasil. \u201cQueremos chamar a aten\u00e7\u00e3o para essa regi\u00e3o que est\u00e1 amea\u00e7ada, ironicamente, at\u00e9 mesmo pela conserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Com a prote\u00e7\u00e3o da \u00e1rea amaz\u00f4nica, o agroneg\u00f3cio avan\u00e7a no vizinho Cerrado, que n\u00e3o tem a mesma visibilidade da floresta. Obviamente precisamos continuar lutando pela conserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, mas os governos e a sociedade devem tamb\u00e9m refor\u00e7ar a luta pelo Cerrado\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o ao bioma vizinho, o Cerrado tem \u00e1reas menores de reserva legal, menos legisla\u00e7\u00e3o focada na preserva\u00e7\u00e3o, muito mais terras privadas, al\u00e9m de popula\u00e7\u00f5es locais e origin\u00e1rias menos fortalecidas que os ind\u00edgenas e outras comunidades tradicionais da Amaz\u00f4nia. Empoderar artes\u00e3s que usam como mat\u00e9ria-prima uma planta e que n\u00e3o causam danos ao planeta \u00e9 um \u00f3timo neg\u00f3cio para elas e para o meio ambiente.<\/p>\n<h3>Jalapoeira Apurada<\/h3>\n<p>Al\u00e7ar o trabalho das artes\u00e3s de Mateiros e S\u00e3o F\u00e9lix do Tocantins \u00e0 categoria de arte \u00e9 uma forma de empoder\u00e1-las. A Jalapoeira Apurada \u2013 nome que remete ao local em que as pe\u00e7as nasceram, ao olhar atento e \u00e0s m\u00e3os que tecem a partir de um saber ancestral \u2013 traz 38 esculturas que foram expostas como pe\u00e7as de arte, mas que estar\u00e3o \u00e0 venda. Depois de Palmas, as esculturas devem viajar at\u00e9 S\u00e3o Paulo em 2024 e, em seguida, a ideia \u00e9 lev\u00e1-las para exposi\u00e7\u00f5es mundo afora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do apoio da Central do Cerrado para a venda das pe\u00e7as,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.instagram.com\/jalapoeirapurada\/&amp;sa=D&amp;source=docs&amp;ust=1704400953234377&amp;usg=AOvVaw0Ju16IdL8pb-4t8MJEuutl\">um perfil no Instagram<\/a>\u00a0foi criado para ajudar na divulga\u00e7\u00e3o. \u201cNosso objetivo \u00e9 que elas ganhem dinheiro com esse trabalho, para que possam continuar vivendo nos territ\u00f3rios de origem\u201d, salienta Ana Carolina. Al\u00e9m da cole\u00e7\u00e3o de arte, o projeto do WWF-Brasil tamb\u00e9m rendeu uma nova cole\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as utilit\u00e1rias, com valores mais baixos que as esculturas. A ideia, com ambas as cole\u00e7\u00f5es, \u00e9 chegar a p\u00fablicos novos, com as mais diferentes faixas de renda.<\/p>\n<p>\u201cEsse n\u00e3o \u00e9 um projeto que veio pronto, n\u00f3s constru\u00edmos juntos. E tem que ser de todo mundo, tem que ser o melhor para as nossas artes\u00e3s\u201d, comemora Laudeci, da ACAPPM. \u201cAntes, quantos projetos n\u00e3o chegaram aqui com tudo pronto, sem ouvir a gente? N\u00e3o \u00e0 toa, n\u00e3o iam para a frente.\u201d<\/p>\n<p>Luzia, do Prata, lembra que o come\u00e7o do processo com Rosenbaum n\u00e3o foi f\u00e1cil. \u201cAt\u00e9 entender o que ele queria, foi dif\u00edcil. Ele n\u00e3o entendia o nosso linguajar e a gente n\u00e3o entendia o dele. Come\u00e7amos a nos entender no segundo ou terceiro encontro\u201d, recorda. \u201cMas valeu a pena, o resultado \u00e9 incr\u00edvel. As esculturas est\u00e3o uma mais encantadora do que a outra.\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um projeto maravilhoso, muito desafiador no primeiro momento porque ficamos com medo de n\u00e3o conseguir fazer\u201d, completa Laudeci. \u201cOs modelos que ele trazia nunca tinham sido feitos de capim dourado, ent\u00e3o a gente ficou com medo de arriscar\u201d. Uma vez \u201carriscado\u201d elas se deram conta de que eram capazes de fazer. \u201cEsse projeto proporcionou ainda muita uni\u00e3o entre as tr\u00eas associa\u00e7\u00f5es, muita for\u00e7a, muita garra de n\u00f3s todas\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Maria Aparecida Ribeiro de Sousa, presidente da Central do Cerrado, tamb\u00e9m artes\u00e3 do povoado do Prata, celebra a conquista. A Central, que acompanha as tr\u00eas associa\u00e7\u00f5es h\u00e1 18 anos, sabe da import\u00e2ncia desta cole\u00e7\u00e3o. \u201cO Capim Dourado n\u00e3o \u00e9 novidade, mas agora ele chega com um novo olhar e traz novas perspectivas\u201d, diz. \u201cNossa expectativa \u00e9 que amplie os horizontes das associa\u00e7\u00f5es, que aumente o mercado. \u00c9 isso que ajuda a manter uma cultura em p\u00e9. Afinal, as principais guardi\u00e3s do Cerrado s\u00e3o essas mulheres\u201d.<br \/>\nFonte: WWF Brasil &#8211; <em>Por D\u00e9bora Rubin<\/em><\/p>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao fortalecer essa importante cadeia produtiva da sociobiodiversidade, projeto ajuda a manter a cultura de comunidades quilombolas e a conservar o Cerrado No Jalap\u00e3o, \u00e9 o capim dourado (Syngonanthus nitens) que anuncia a chegada da primavera. 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