{"id":9233,"date":"2024-03-18T21:28:11","date_gmt":"2024-03-19T00:28:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/?p=9233"},"modified":"2024-03-18T21:28:11","modified_gmt":"2024-03-19T00:28:11","slug":"mulheres-quilombolas-lutam-contra-violencia-de-genero-nos-territorios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/mulheres-quilombolas-lutam-contra-violencia-de-genero-nos-territorios\/","title":{"rendered":"Mulheres quilombolas lutam contra viol\u00eancia de g\u00eanero nos territ\u00f3rios"},"content":{"rendered":"<p>Feminic\u00eddio \u00e9 o segundo principal fator de morte entre quilombolas, aponta estudo da Conaq e Terra de Direitos<\/p>\n<div class=\"node-bg\">\n<div role=\"article\">\n<div class=\"container share-margin\">\n<article class=\"node node--type-article node--promoted node--view-mode-full clearfix\" role=\"article\">\n<div class=\"node__content clearfix\">\n<div class=\"node-content-data\">\n<p>No dia 8 de mar\u00e7o, em que se comemora a luta e resist\u00eancia das mulheres em todo o mundo, mulheres quilombolas trazem para o centro do debate a necessidade de se enfrentar o machismo e a viol\u00eancia de g\u00eanero nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Dados de pesquisa realizada pela Terra de Direitos e pela Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o de Quilombos (Conaq),\u00a0<a href=\"https:\/\/terradedireitos.org.br\/racismoeviolencia\/index?download=1\">Racismo e Viol\u00eancia contra Quilombos no Brasil<\/a>, que est\u00e1 em sua segunda edi\u00e7\u00e3o, mostra dados de diversos tipos de viol\u00eancia contra quilombos no per\u00edodo entre 2018 a 2022, entre eles o aumento do n\u00famero de feminic\u00eddios, o segundo principal fator de morte entre quilombolas.<\/p>\n<p>Dos 32 assassinatos registrados, nove s\u00e3o de mulheres que foram mortas pelo atual ou ex-companheiro. Segundo o levantamento, \u201c<strong>a an\u00e1lise do tipo de motiva\u00e7\u00e3o do crime revela que os conflitos fundi\u00e1rios rurais s\u00e3o a principal causa de assassinato de quilombolas. Ser mulher \u00e9 a segunda principal causa<\/strong>\u201d.<\/p>\n<figure class=\"caption caption-drupal-media align-right\" role=\"group\">\n<article class=\"media media--type-image media--view-mode-nsa-meia-coluna\">\n<div class=\"field field--name-field-media-image field--type-image field--label-visually_hidden\">\n<div class=\"field__label visually-hidden\">Imagem<\/div>\n<div class=\"field__item\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"image-style-nsa-meia-coluna\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/default\/files\/styles\/nsa_meia_coluna\/public\/2024-03\/C07.jpg?itok=duVMDrdo\" alt=\"card 1\" width=\"600\" height=\"750\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/article><figcaption data-once=\"CameraOnSubtitles\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Vercilene Dias, advogada e membro do coletivo de mulheres da Conaq, tamb\u00e9m \u00e9 voz ativa contra a desigualdade de g\u00eanero entre quilombolas. \u201cO machismo, o patriarcado, essa constru\u00e7\u00e3o social de que o homem \u00e9 o chefe da casa, o chefe da fam\u00edlia. Acho que essa \u00e9 uma das grandes quest\u00f5es que influenciam isso e que precisa ser desconstru\u00edda nas comunidades\u201d, reflete.<\/p>\n<p>\u201cA gente precisa entender que n\u00f3s estamos em uma sociedade machista e os quilombolas n\u00e3o est\u00e3o fora disso, porque tamb\u00e9m cresceram nesse mesmo contexto social. Tudo isso \u00e9 heran\u00e7a do que os brancos colocaram na nossa cabe\u00e7a. A gente discute muito isso, como, por exemplo, a quest\u00e3o da puni\u00e7\u00e3o por voc\u00ea ser um rebelde, a quest\u00e3o das surras, que no tempo da escravid\u00e3o eram utilizadas como puni\u00e7\u00e3o pra quem ia contra o sistema, quem ia contra os seus senhores. Ent\u00e3o, tudo isso \u00e9 heran\u00e7a que a gente tem e que a gente precisa corrigir\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>A pesquisa realizada por Conaq e Terra de Direitos mostra que a proporcionalidade de mulheres quilombolas assassinadas neste per\u00edodo dobrou desde a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o, realizada entre 2008 e 2017, que registrou a morte de oito mulheres no per\u00edodo de dez anos. As organiza\u00e7\u00f5es compreendem que as viol\u00eancias contra as mulheres s\u00e3o reflexo da luta pol\u00edtica desempenhada por elas nos quilombos em defesa do territ\u00f3rio e da sobreviv\u00eancia das comunidades.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, nada justifica a viol\u00eancia praticada contra nenhum ser humano e, no caso em quest\u00e3o, contra as mulheres. Mas a gente fica se perguntando de onde vem esse sentimento t\u00e3o cruel que letrado ou n\u00e3o, estudante ou n\u00e3o, tem no seu comportamento esse desejo de resolver o que julga ser problema, o que acha que tem que ser resolvido, na base da viol\u00eancia, na base da agress\u00e3o, na base da desvaloriza\u00e7\u00e3o da mulher\u201d, diz a ativista quilombola Maria Aparecida Mendes, que investigou as manifesta\u00e7\u00f5es do machismo em territ\u00f3rios tradicionais em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u201c<a href=\"http:\/\/icts.unb.br\/jspui\/bitstream\/10482\/37900\/1\/2019_MariaAparecidaMendes.pdf\">Marias Crioulas: Emancipa\u00e7\u00e3o e Alian\u00e7as entre Mulheres no Enfrentamento \u00e0 Viol\u00eancia Dom\u00e9stica em Comunidades Tradicionais<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Durante sua pesquisa para a disserta\u00e7\u00e3o, e em sua pr\u00f3pria viv\u00eancia, ela identificou a influ\u00eancia da religi\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is de g\u00eanero e de viol\u00eancia dom\u00e9stica. \u201cEu lembro que muitas pessoas chegavam l\u00e1 em casa, especialmente as senhoras que estavam na igreja, e falavam: \u2018\u00e9, minha filha, a gente sofre muito, mas a gente tem que ter f\u00e9 em Deus, porque Ele quer assim. Entender que Deus vai cuidar e que \u00e9 o \u00fanico jeito que a gente tem de alcan\u00e7ar o reino dos c\u00e9us\u2019. Ent\u00e3o quando eu escuto as pessoas com esse discurso conformista, eu vejo a\u00ed a influ\u00eancia da religi\u00e3o mesmo\u201d.<\/p>\n<h5>Perfil dos casos e das v\u00edtimas<\/h5>\n<p>O mapeamento identificou que a maioria dos casos dos assassinatos de mulheres quilombolas foram cometidos com armas brancas (faca, foice, machado ou chave de fenda) ou com m\u00e9todos de tortura, indicando um componente de crueldade nas mortes. Tamb\u00e9m apontou que a regi\u00e3o com o maior n\u00famero de casos foi o Nordeste, onde est\u00e1 o maior n\u00famero de quilombos do pa\u00eds. Foram seis casos registrados nos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Maranh\u00e3o e Bahia. Al\u00e9m disso, a maioria dos crimes foi cometida na casa das pr\u00f3prias v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Dados do\u00a0<a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/painel-violencia-contra-a-mulher\/\">Painel de Viol\u00eancia contra a Mulher<\/a>, publicados pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP) em 2023, mostraram que, no Brasil, 49,9% dos feminic\u00eddios s\u00e3o cometidos por meio de armas brancas; 69% s\u00e3o cometidos em resid\u00eancia; 53,6% pelo companheiro e 19,4% pelo ex-companheiro, e\u00a0<strong>61,2% s\u00e3o cometidos contra mulheres negras<\/strong>.<\/p>\n<h5>M\u00faltiplas viol\u00eancias<\/h5>\n<p>A pesquisa realizada por Conaq e Terra de Direitos aponta que territ\u00f3rios em situa\u00e7\u00e3o de conflito e vulnerabilidade est\u00e3o mais suscet\u00edveis a situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUm territ\u00f3rio em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, que vive em conflito com interesses de terceiros sobre a posse da terra, dizimado cotidianamente por amea\u00e7as de desintegra\u00e7\u00e3o, como polui\u00e7\u00e3o dos rios, comprometimento das atividades de subsist\u00eancia, falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e a servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade, possivelmente ter\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancias a multiplicarem-se em seu interior. A viol\u00eancia institucional, ao bloquear sistematicamente o acesso a bens e recursos, gera formas end\u00eamicas de viol\u00eancia das quais a viol\u00eancia dom\u00e9stica faz parte.\u201d (Racismo e Viol\u00eancia contra Quilombos no Brasil &#8211; Volume 1, 2023).<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m do racismo estrutural e institucional, as mulheres quilombolas tamb\u00e9m precisam lidar com o machismo. Muitas vezes a sua vontade de estar \u00e0 frente da luta acaba sendo abafada porque o companheiro n\u00e3o aceita.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPelo simples fato de serem mulheres, as quilombolas que assumem posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a pol\u00edtica nos seus territ\u00f3rios exp\u00f5em-se mais facilmente \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica ao desequilibrarem o que seriam considerados pap\u00e9is de g\u00eanero tradicionais nos relacionamentos. N\u00e3o \u00e0 toa, relatos dos assassinatos indicam situa\u00e7\u00f5es de raiva ou ci\u00fame, demonstrando tamb\u00e9m a viol\u00eancia como exerc\u00edcio desmedido de controle sobre o corpo e a liberdade das mulheres\u201d. (Racismo e Viol\u00eancia contra Quilombos no Brasil &#8211; Volume I, 2018).<\/p><\/blockquote>\n<p>O fato de desafiarem a l\u00f3gica patriarcal no que diz respeito \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a dentro dos territ\u00f3rios tamb\u00e9m esbarra no trabalho fora do ambiente dom\u00e9stico. Dados divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira sobre a 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/multidominio\/genero\/20163-estatisticas-de-genero-indicadores-sociais-das-mulheres-no-brasil.html?=&amp;t=publicacoes\">\u201cEstat\u00edsticas de g\u00eanero: indicadores sociais das mulheres no Brasil\u201d<\/a>\u00a0mostram que 26,6% de mulheres pretas ou pardas n\u00e3o estavam em treinamento, ocupadas ou buscando trabalho.<\/p>\n<p>Esse dado indica uma rela\u00e7\u00e3o direta com as horas dedicadas aos cuidados de pessoas e\/ou afazeres dom\u00e9sticos. Em 2022, foram 21,3 horas semanais que as mulheres gastaram nessas atividades, quase o dobro do tempo dos homens. Tamb\u00e9m verificou-se 1,6 hora a mais por semana nessas tarefas no grupo de mulheres pretas ou pardas em contraste com as mulheres brancas.<\/p>\n<h5>Medo como fator predominante<\/h5>\n<p>Apesar do alto \u00edndice de viol\u00eancia dom\u00e9stica e de feminic\u00eddios, os n\u00fameros ainda n\u00e3o traduzem a realidade, e o medo \u00e9 o principal fator para as subnotifica\u00e7\u00f5es. De acordo com Vercilene Dias, muitas quilombolas n\u00e3o denunciam por medo da viol\u00eancia do Estado.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, as mulheres chegam nas delegacias e recebem um tratamento de mais viol\u00eancia. Tamb\u00e9m, tem as situa\u00e7\u00f5es que muitas vezes ficam ali acobertadas porque elas n\u00e3o querem ficar mal faladas na sociedade, e isso \u00e9 um contexto muito geral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres que passam por isso nas comunidades. \u00c9 muito mais violento, porque voc\u00ea sofre em sil\u00eancio, e\u00a0<strong>o sil\u00eancio \u00e9 mais uma forma de viol\u00eancia<\/strong>\u201d, lamenta.<\/p>\n<figure class=\"caption caption-drupal-media align-center\" role=\"group\">\n<article class=\"media media--type-image media--view-mode-default\">\n<div class=\"field field--name-field-media-image field--type-image field--label-visually_hidden\">\n<div class=\"field__label visually-hidden\">Imagem<\/div>\n<div class=\"field__item\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"image-style-large\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/default\/files\/styles\/large\/public\/2024-03\/Credito%20-Loiro%20Cunha%20-%20ISA.jpg?itok=NzYtkL9c\" alt=\"Loiro Cunha\/ISA\" width=\"1200\" height=\"800\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/article><figcaption data-once=\"CameraOnSubtitles\">Aus\u00eancia de uma abordagem institucional pensada para mulheres quilombolas gera receio na hora de denunciar casos de viol\u00eancia<span class=\"camera\">\u00a0\ud83d\udcf7\u00a0<\/span>Loiro Cunha\/ISA<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em sua disserta\u00e7\u00e3o, Maria Aparecida Mendes tamb\u00e9m apontou o medo como fator comum entre as mulheres quilombolas. Ela entrevistou mulheres do Quilombo Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas e de comunidades em outras regi\u00f5es do pa\u00eds tamb\u00e9m, como Bahia, Par\u00e1 e Goi\u00e1s. \u201cTodas t\u00eam medo de denunciar. Todas t\u00eam resist\u00eancia. Esse \u00e9 um comportamento comum de todas elas. As mulheres em contexto comunit\u00e1rio n\u00e3o denunciam seus agressores\u201d, confirma.<\/p>\n<p>\u201cPessoas quilombolas vivem em comunidade, ent\u00e3o t\u00eam o receio de denunciar o companheiro e a pol\u00edcia chegar l\u00e1 e ter mais viol\u00eancia, n\u00e3o ter o tratamento adequado, ainda mais por se tratar de territ\u00f3rio quilombola, que \u00e9 territ\u00f3rio de conflito\u201d, conta.<\/p>\n<p>Segundo Dias, \u201cmuitas vezes as mulheres at\u00e9 querem denunciar, mas n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 delegacia. Elas v\u00e3o na promotora de justi\u00e7a no f\u00f3rum, porque elas acham que o recebimento delas pode ser melhor do que ir em uma delegacia, que tem um contexto muito machista. Geralmente, os encaminhamentos desse tipo s\u00e3o muito ruins, porque n\u00e3o tem um procedimento espec\u00edfico, aplicam a Lei Maria da Penha de forma geral, sem abarcar o contexto da comunidade\u201d.<\/p>\n<h5>Particularidades dos quilombos<\/h5>\n<p>Al\u00e9m do medo de passar por viol\u00eancia institucional e por constrangimento, as mulheres quilombolas tamb\u00e9m enfrentam uma situa\u00e7\u00e3o muito particular: a viv\u00eancia em comunidade.<\/p>\n<p>\u201cDe certa forma, nas comunidades voc\u00ea tem um contexto diferente. Voc\u00ea vive em comunidade. Como voc\u00ea vai manter o distanciamento, por exemplo? Como vai colocar uma medida protetiva pro companheiro de n\u00e3o ir na sua casa ou encontrar com voc\u00ea, se voc\u00eas vivem dentro da mesma comunidade? A comunidade \u00e9 a nossa casa. O quilombo \u00e9 a nossa casa. Como vai manter o distanciamento sendo que t\u00e1 todo mundo ali na mesma fam\u00edlia, participando das mesmas festas tradicionais?\u201d, questiona Dias.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es que simplesmente uma abordagem policial n\u00e3o d\u00e1 conta. A\u00ed tem as casas abrigo, mas como que tira uma pessoa da comunidade? Como tirar uma lideran\u00e7a da comunidade e levar pra uma casa onde ela vai sair do conv\u00edvio da fam\u00edlia, a\u00ed como fica num caso desse? \u00c9 preciso que levem em considera\u00e7\u00e3o essas situa\u00e7\u00f5es\u201d, pondera Mendes.<\/p>\n<p>Vercilene Dias faz parte do coletivo de mulheres quilombolas da Conaq, que re\u00fane mulheres quilombolas do Brasil todo e pretende ampliar a discuss\u00e3o sobre a Lei Maria da Penha dentro dos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>\u201cPra justamente colocar essas quest\u00f5es, discutir com as mulheres que passam por essa situa\u00e7\u00e3o o que pode ser feito. Fazer com que elas conhe\u00e7am a lei e o que que pode ser feito pra melhorar ou especificar o contexto das mulheres quilombolas.\u201d<\/p>\n<h5>Redes de apoio<\/h5>\n<figure class=\"caption caption-drupal-media align-left\" role=\"group\">\n<article class=\"media media--type-image media--view-mode-nsa-meia-coluna\">\n<div class=\"field field--name-field-media-image field--type-image field--label-visually_hidden\">\n<div class=\"field__label visually-hidden\">Imagem<\/div>\n<div class=\"field__item\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"image-style-nsa-meia-coluna\" src=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/sites\/default\/files\/styles\/nsa_meia_coluna\/public\/2024-03\/C04.jpg?itok=PZz7hXkC\" alt=\"card 2\" width=\"600\" height=\"750\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/article><figcaption data-once=\"CameraOnSubtitles\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Maria Aparecida Mendes tem 53 anos, \u00e9 quilombola de Concei\u00e7\u00e3o das Crioulas (PE), m\u00e3e de uma filha, av\u00f3 de dois netos e filha de agricultores. Faz parte da luta quilombola de forma mais intensa desde o final dos anos 1990, e come\u00e7ou no ativismo no Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Sert\u00e3o Central (MMTR).<\/p>\n<p>A ativista se casou aos 18 anos e, durante 20 anos, sofreu diversas viol\u00eancias dom\u00e9sticas, como conta em sua disserta\u00e7\u00e3o. \u201cDurante vinte anos da minha vida, eu sofri todo tipo de viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica que se possa imaginar. Das cinco vezes de gesta\u00e7\u00e3o, somente a primeira filha sobreviveu, os dois seguintes eu perdi em virtude das agress\u00f5es f\u00edsicas e, nas duas \u00faltimas gesta\u00e7\u00f5es, sofri abortos espont\u00e2neos. Entre todas as lembran\u00e7as, as mais dolorosas s\u00e3o as perdas dos meus beb\u00eas, al\u00e9m das muitas vezes em que fui espancada e em seguida estuprada\u201d.<\/p>\n<p>O processo de liberta\u00e7\u00e3o de \u2018Cida\u2019, como gosta de ser chamada, come\u00e7ou por meio da leitura. \u201cEu gostava muito de ler. Eu lembro que li duas hist\u00f3rias que me marcaram demais, a hist\u00f3ria de Benedita da Silva, que eu desenvolvi uma admira\u00e7\u00e3o muito grande por ela. Uma mulher aguerrida, determinada, que passava por todo tipo de situa\u00e7\u00e3o, mas nada fazia com que ela desistisse\u201d, recorda.<\/p>\n<p>\u201cDepois eu tamb\u00e9m fiz a leitura de Machado de Assis, que me ajudou demais. Ent\u00e3o eu fui procurando ouvir pessoas, ouvir hist\u00f3rias de pessoas que superavam dificuldades. Ent\u00e3o nas dificuldades que eu passei, sempre tive expectativa de que um dia iria superar. Mas quem me deu for\u00e7a mesmo, quem me ajudou mesmo a enfrentar as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que eu vivia, foi o movimento de mulheres trabalhadoras rurais do sert\u00e3o pernambucano. Eu tenho o costume de dizer que essas mulheres me salvaram.\u201d<\/p>\n<p>Cida come\u00e7ou a participar dos encontros e com isso passou a enfrentar mais situa\u00e7\u00f5es de machismo, porque o ex-marido n\u00e3o permitia que ela sa\u00edsse de casa. \u201cEu fui me rebelando e tomei uma decis\u00e3o. Se eu sa\u00edsse de casa eu ia sofrer agress\u00e3o, se eu ficasse em casa eu ia sofrer agress\u00e3o. Ent\u00e3o eu sa\u00ed\u201d.<\/p>\n<p>Diferente de muitas mulheres, o medo foi motivador para que ela sa\u00edsse da situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. Tamb\u00e9m o contato com as hist\u00f3rias das outras mulheres, a fez enxergar que n\u00e3o estava sozinha. \u201cQuando a gente se isola dentro de casa, a gente acha que o nosso problema \u00e9 o \u00fanico problema do mundo, mas quando eu sa\u00ed e comecei a ouvir outras hist\u00f3rias, apesar dos absurdos, tamb\u00e9m eram hist\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o, cheias de altivez, de pot\u00eancia. E eu ali, caladinha, s\u00f3 me espelhando\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cDepois de 20 anos de casada eu me separei, casei de novo e hoje t\u00f4 solteira. Mas eu sa\u00ed de todas essas situa\u00e7\u00f5es de relacionamento abusivo porque eu fui acolhida. Eu digo que eu s\u00f3 consegui porque fui acolhida. E<strong>\u00a0\u00e9 isso que a comunidade tem que fazer, \u00e9 isso que a sociedade tem que fazer, \u00e9 isso que o Estado tem que fazer. \u00c9 acolher e adotar estrat\u00e9gias para que a mulher se sinta encorajada a enfrentar de forma inteligente<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Dias tamb\u00e9m destaca a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o de redes, para que as mulheres n\u00e3o precisem passar pela situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia sozinhas. \u201cE a gente tem feito muito isso tamb\u00e9m pelo coletivo de mulheres, tem feito esse socorro nesse sentido. N\u00e3o deix\u00e1-las passar por esse momento sozinhas, de estar junto, de buscar o melhor caminho, inclusive pro pr\u00f3prio violentador, que muitas vezes n\u00e3o tem o conhecimento espec\u00edfico do que \u00e9 a viol\u00eancia dom\u00e9stica\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cRede, orienta\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o caminhos importantes. Mas acho que o principal \u00e9 o cuidado das redes de mulheres. Ent\u00e3o eu acho que a melhor forma de tratar isso \u00e9 forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 educa\u00e7\u00e3o, porque a quest\u00e3o do machismo \u00e9 uma quest\u00e3o social.\u00a0<strong>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema de quilombola, um problema da mulher, e a gente precisa tratar disso como uma quest\u00e3o social que precisa ser resolvida<\/strong>\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"node\">\n<div class=\"related\">\n<div class=\"container\">Fonte: ISA &#8211; Por Ester Cezar &#8211; Jornalista do ISA<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Feminic\u00eddio \u00e9 o segundo principal fator de morte entre quilombolas, aponta estudo da Conaq e Terra de Direitos No dia 8 de mar\u00e7o, em que se comemora a luta e resist\u00eancia das mulheres em todo o mundo, mulheres quilombolas trazem para o centro do debate&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9234,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19,1614,2],"tags":[1827],"class_list":["post-9233","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-area-2","category-indigenas","category-slideshow","tag-feminicidio-avancado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9233"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9236,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9233\/revisions\/9236"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaldaamazonialegal.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}