Fim do desmatamento exige ação política urgente
15 de junho de 2026 às 20:01h
Países avançam na construção do Mapa do Caminho para frear a destruição em meio a uma perda superior a 40 milhões de hectares de florestas desde 2015
As discussões sobre o Mapa do Caminho para o Fim do Desmatamento — iniciativa lançada pela Presidência brasileira da COP30 para transformar em ações concretas o compromisso global de deter e reverter a perda de florestas até 2030 — avançaram esta semana durante a 21ª sessão do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas (UNFF21). Realizado em Nova York, de 11 a 15 de maio, o evento também se conecta aos trabalhos dos órgãos subsidiários da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), que ocorrerão de 8 a 18 de junho, em Bonn, na Alemanha, e marcam etapas preparatórias das negociações climáticas de 2026.
Para o WWF-Brasil, frear o desmatamento é uma prioridade global urgente, considerando que o Brasil detém cerca de 60% da área da maior floresta tropical do planeta e que depende de seus serviços ecossistêmicos para garantir segurança hídrica, energética e alimentar em todo o país. Em Nova York, a defesa da Amazônia esteve entre as pautas mais destacadas. Durante o UNFF21, mais de 20 mil assinaturas da campanha Amazon League foram entregues formalmente às delegações da ONU, pedindo a implementação urgente do Mapa do Caminho para o Fim do Desmatamento.
O UNFF21 também foi uma oportunidade para avançar na articulação entre o Mapa do Caminho e os mecanismos já existentes no sistema ONU, como o Plano Estratégico para Florestas 2030, o UN-REDD+ e os compromissos da Convenção sobre Diversidade Biológica. A complementaridade e as sinergias entre esses processos são essenciais para evitar duplicações de esforços e ampliar o impacto das ações.
Paralelamente às discussões oficiais do UNFF21, a Secretaria da UNFCCC e a Presidência da COP30 promoveram um diálogo com representantes de 17 países e 28 organizações da sociedade civil sobre os caminhos de implementação do Mapa do Caminho para o Fim do Desmatamento. O encontro contou com o apoio do PNUD, Global Optimism, ICPH, N4C, Instituto Igarapé e WWF, reforçando o entendimento de que essa iniciativa já é uma estrutura concreta e essencial para transformar compromissos políticos em implementação efetiva.
Durante a consulta, houve consenso sobre a necessidade de alinhar metas globais às realidades nacionais, reformar mecanismos de governança e financiamento, garantir acesso direto a recursos para os povos indígenas e comunidades locais e enfrentar dinâmicas de ilegalidade e crimes ambientais. Países e investidores também destacaram a importância de soluções específicas por bioma, além de mecanismos de transparência, rastreabilidade e prestação de contas para viabilizar a implementação.
“A ciência e a experiência acumulada evidenciam que o fim do desmatamento não esbarra em falta de tecnologia, mas em desafios de governança, financiamento e vontade política. Hoje já existem soluções comprovadas — como cadeias livres de desmatamento (DCF), REDD+ jurisdicional, pagamentos por serviços ambientais e o reconhecimento legal dos territórios de povos indígenas e comunidades locais como medida de mitigação climática — que geram resultados concretos. O desafio não é criá-las, mas ampliá-las e coordená-las em escala”, sintetiza Alexandre Prado, Líder em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.
Dados recentes mostram que políticas públicas e fiscalização ambiental produzem resultados. Segundo o Global Forest Watch, o Brasil reduziu em 42% as perdas florestais em 2025 em relação ao ano anterior — o menor nível desde o início dos registros, em 2001. A Colômbia também teve queda. Ainda assim, os avanços permanecem frágeis: países amazônicos como conjunto perderam cerca de 4,2 milhões de hectares de floresta em 2025, e a Bolívia apresentou aumento de desmatamento associado a incêndios, pecuária e expansão agrícola.
“O desmatamento deixou de ser um problema ambiental localizado para se tornar uma ameaça direta à estabilidade climática, econômica e social do planeta. O que está em discussão agora não é mais se sabemos como conter a destruição das florestas, mas se países e mercados terão coragem política para implementar, financiar e promover as soluções já disponíveis, inclusive por meio de uma ação coordenada e equilibrada entre a ciência moderna e os saberes tradicionais”, destaca Tatiana Oliveira, Líder de Estratégia Internacional do WWF-Brasil.
Preservar florestas: estratégia de mitigação climática, de adaptação e de desenvolvimento
Embora a principal fonte dos gases que estão alterando o equilíbrio do planeta em todo o mundo seja a queima de combustíveis fósseis, as florestas tropicais respondem por cerca de 11% das emissões globais de gases de efeito estufa quando destruídas — mais do que todo o setor de transportes mundial. Mas sua importância vai além do carbono: as florestas regulam ciclos hidrológicos, sustentam a biodiversidade e garantem a segurança alimentar e hídrica.
O Relatório sobre os Objetivos Florestais Globais 2026, apresentado no primeiro dia do UNFF21, dimensiona o desafio. Apesar dos compromissos internacionais, o mundo perdeu mais de 40 milhões de hectares de floresta entre 2015 e 2025 — incluindo 16 milhões de hectares de florestas primárias. O ritmo atual, de 4,12 milhões de hectares por ano, supera o registrado no período de 2000 a 2015.
A urgência é ainda maior quando se considera a Amazônia. Evidências científicas acumuladas indicam que a floresta se aproxima do ponto de não retorno, um limiar além do qual o ecossistema não consegue mais se sustentar. A floresta amazônica depende da evapotranspiração para gerar parte significativa de sua própria chuva. Se a derrubada ultrapassar um limite crítico, o ciclo se rompe: há menos chuva, maior estiagem, aumento da vulnerabilidade ao fogo e retração progressiva da floresta — em um processo potencialmente irreversível na escala humana.
“A Amazônia está chegando a um ponto crítico. Conter o desmatamento exige ação imediata, ambição, coordenação e compromisso político”, afirmou María Inés Rivadeneira, Líder de Políticas do WWF para a América Latina e o Caribe, durante o evento paralelo “Das Promessas à Ação: Um Mapa do Caminho para Acabar com o Desmatamento na Amazônia”, realizado no âmbito do UNFF21. “Ainda dá tempo. Sem proteger a Amazônia, não será possível cumprir a meta global de deter e reverter o desmatamento até 2030.”
Os efeitos de ultrapassar esse limiar não seriam apenas regionais. A Amazônia regula padrões climáticos em toda a América do Sul e influencia o sistema climático global. As consequências seriam severas e, em grande medida, irreversíveis. A agricultura responde por cerca de 80% da perda de floresta amazônica, principalmente associada à pecuária, à soja e a outras cadeias de commodities, de acordo com o Relatório de Pegada Ecoloógica Amazônica (Amazon Footprint Report), desenvolvido pelo WWF em parceria com a Universidade Tecnológica de Chalmers, o Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo (SEI) e a Trase. Nesse contexto, o fortalecimento de cadeias de abastecimento livres de desmatamento (DCF) emerge como uma das medidas mais imediatas e eficazes para reduzir a perda florestal.
“Graças a este estudo, temos uma visão clara das dinâmicas do desmatamento em nível subnacional em todos os países amazônicos e de suas conexões com os mercados domésticos e internacionais, o que permite identificar ações concretas e direcionadas”, explicou Pablo Pacheco, Cientista Líder Global de Florestas do WWF. “Isso abre uma oportunidade real de reduzi-lo no curto prazo, se houver alinhamento entre políticas públicas, coordenação institucional e decisões de mercado.”
Diante da escala da crise e da velocidade das perdas florestais, o WWF-Brasil reforça que não há mais espaço para atrasos ou compromissos insuficientes. O que está em jogo não é apenas o futuro das florestas tropicais, e sim a estabilidade climática, econômica e social em escala global. Transformar o Mapa do Caminho para o Fim do Desmatamento em ação concreta, com financiamento adequado, governança eficaz e implementação imediata, é uma decisão política inadiável. Cada ano perdido reduz a margem de segurança do planeta – e aproxima ecossistemas naturais de pontos de não retorno.
Por WWF-Brasil